Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005
Eu te amo
Geralmente é madrugada, quando me aproveito do óbvio silêncio dos televisores, avós e mães. Enclausuro-me neste quartinho abafado – e protetor da vida que eu tenho medo de levar – e expurgo pensamentos lacônicos para que a minha verve inspirada me transforme naquele que tudo pode com as palavras. Ou pensa que pode. Na verdade, sempre me senti capaz de abordar praticamente todos os assuntos imagináveis, porém, por mais que eu me esforce, por mais que eu invente subterfúgios na tentativa de burlar os dogmas que me fazem ser um cara chato quando o assunto é falar de amor, eu simplesmente não consigo um texto, aquele texto, que fale sobre você e sobre nós. Não da forma como eu gostaria. Tentativas não faltaram nestes (hoje) três anos de namoro, até por suas razoáveis cobranças das quais já nem lembro as desculpas por mim utilizadas para evadi-las. Certa festa, certo telefonema, certo dia... Você nunca leu o que eu também nunca terminei. Seria fácil eu dizer que você está em cada palavra de cada texto por mim escrito desde que nos conhecemos (de uma forma ou de outra, é inevitável para alguém que utiliza o próprio sentimentalismo como ferramenta criativa), mas concordo que tal desculpa soa cômoda e desmerecida. Em partes eu culpo a reserva que carrego em ser trivial demais, fato corroborado por esta minha aversão ferrenha à cafonice explícita – e perdoem-me aqueles que consideram este artifício necessário ou simplesmente válido para se falar de amor... Vocês são preguiçosos ou, na pior das hipóteses, limitados. Talvez eu seja um destes limitados, do tipo que não entrega os pontos e não faz do coração uma casa de putas; Eu refuso aceitar caminhos tão simples para lugares tão remotos. Escrever desta forma tornaria qualquer tentativa de honestidade em palidez textualizada, palavras costuradas de forma lógica e fria. O amor se tornou algo tão fácil e leviano que muitos nem percebem que, na companhia de multidões bitoladas, estão gravitando em torno de um mesmo círculo vicioso. Não sei se o meu amor é mais ou é menos que isso. Mas com certeza, não é isso. Há ainda outros “poréns”. É inegável que nada disso seria uma barreira intransponível para que eu escrevesse sobre amor caso as minhas mais iluminadas inspirações não fossem provenientes das dores. O desamor (tema preferido entre os malditos feitores de boa arte, quaisquer que sejam) não combina conosco por motivos óbvios, e o resto do pacote, então, nem se fala... São monstros absolutamente incompatíveis quando lhe tenho por assunto. Além disso, não que eu dependa delas para minhas ficções, egotrips ou meu “jornalismo roubado”, muito menos esteja falando das dores mais dores: aquelas que quando embaralhadas nos reduzem ao saco de pancadas que arrastamos vida afora. Você me conhece e sabe que eu não sou destes frustrados (e frustrantes) obsessivos que adoram um motivo para cultivar a autocomiseração e fazer com que o mundo os tenha pena por uma simples troca de palavras. Acredito que escrever sobre elas não é algo poético e elevado, mas algo que me remete a vivê-las novamente, e vivê-las novamente traz um acometimento de compaixão imbecil por mim mesmo, enfim. Por assim dizer, numa tentativa patética de não mais vasculhar os entremeios e pontos de todas as marcas que a vida nos dá sem direito de recusas, socorro a mim mesmo buscando conforto nas desconfortáveis e rudimentares muletas emocionais (como sempre gostei de chamar esta minha inclinação) que arrumei para me manter são. E acendo mais um cigarro, e jogo um pouco de videogame, e escuto outra música que ninguém conhece. E tem o meu cinismo. Diga-me, Deus do céu, como é possível falar de amor sendo tão cínico quando ele próprio já o é suficientemente. Olhando por este viés é realmente muito difícil ser um romântico competente no jogo de palavras, daqueles que sem qualquer cerimônia largam o barroco e partem de vez para o classicismo. Quando procuro me expressar francamente, sem entrelinhas ou técnicas subliminares para disfarçar minha sentimentalidade empacada, acabo criando um grande conflito interno entre o tal cinismo e a vontade de ser uma pessoa mais acessível emocionalmente (tudo parte do grande plano de me tornar uma pessoa melhor). Por isso o ato de escrever, quase sempre tão prazeroso e por vezes catártico, aparece-me hoje como nudez indesejada, uma obrigação arbitrária e ainda assim irresistível. Contudo, aqui estou. Teimoso apenas para reforçar tudo o que só nós dois sabemos. Que o nosso namoro já passou por provações como dúvida, doença, falta de dinheiro e gente má... E vencemos (a gente come o pão que o diabo amassou, mas na chapa e com manteiga!). Para dizer que você me completa sem suspeitar o quanto, se contrapondo à minha lógica cartesiana, teimosa e pragmática, balanceando meu ceticismo tristonho com sua habilidade involuntária em criar pequeníssimas e preciosas felicidades biodegradáveis a cada segundo. Para dizer que eu invejo miseravelmente essa coragem em se doar integralmente para alguém da forma como você é capaz. E finalmente, para dizer que você, Keka, estará nos meus planos enquanto eu os tiver, aqui ou em qualquer lugar, e que estes planos (apenas um palpite) serão abraçados por toda sorte que ainda não tivemos além do fato de termos nos encontrado. Muito ainda haveria de ser dito, mas é realmente deveras complicado fugir das minhas próprias limitações e armadilhas idiotas (eu, idiota) a ponto de continuar por linhas e mais linhas da forma como você mereceria. Percebe? Aquele cinismo está por toda parte, num texto que, apesar de lhe ter como motivo, minha inabilidade transformou em uma avalanche de justificativas contornando mais um auto-retrato meu (solução besta, besta...); Palavras que eram para ser escritas destilando o gozo e a alegria de lhe ter ao meu lado, só encontraram bizarra motivação na falta que você me faria; E a missão de sentar frente este computador e encontrar uma única maneira para falar de amor que ainda não houvesse sido usada ou escrita caiu por terra no momento em que eu mal começava... Eu tinha mesmo todas as linhas do mundo para assim o fazer sem me dar conta que o título que abraça cada uma destas palavras já havia dito tudo.
Quinta-feira, Julho 29, 2004
Já que o valioso ócio criativo não deu as caras nos últimos dias (mais no tocante da criatividade do que do ócio propriamente dito), em tempo posto por aqui o poema que mais gosto, sem equiparação de qualquer outro. Assim como Garcia Marquez se perguntou "E pode?", ao ler o primeiro parágrafo do livro "A Metamorfose", de Kafka, das tantas canastrices por mim já escritas como pretensas poesias, há muita inspiração nestas palavras de Murilo Mendes. Antes dele, não sabia que era possível ir tão distante com tanta simplicidade. "Mapa" segue lindo, vertiginoso e sempre.
Mapa
(Murilo Mendes)
Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado.
Estou limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens "práticos"...
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito...
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.
Quarta-feira, Julho 14, 2004
Das vezes que eu chorei
Um dos personagens mais enigmáticos e controversos do clássico livro/filme “2001: Uma Odisséia no Espaço” é HAL 9000, um supercomputador criado com as mais avançadas técnicas de Inteligência Artificial e capaz de tomar atitudes próprias sem intervenção humana. Na história, HAL é um protagonista ativo, porém imóvel, travando diálogos intensos com a tripulação de uma nave em missão a Júpiter. Era dele as tarefas de controlar oxigênio, combustível, comunicação, navegação e outras particularidades de uma missão espacial. Porém, algo escapa de seu controle, e HAL comete um erro gravíssimo ao se equivocar na constatação de uma possível falha em um dos componentes da nave. Desesperado ao conhecer sua própria falibilidade e temendo pela notoriedade de seu erro, HAL dizima quase a totalidade dos tripulantes, restando ao astronauta Dave Bowman, o único sobrevivente, desligar o computador enquanto assiste a este implorar por sua vida com o linguajar de uma criança de três anos de idade.
...
“Das lágrimas dela fizeram-se as minhas”
Sábado eu chorei. E eu nem ao menos consigo lembrar da última vez em que havia chorado daquele jeito. Aliás, eu quase nunca choro. Não é uma escolha consciente, algo que faça baseado em obsolescências tais quais “homem não chora” e outros tabus culturais. A eles eu não estaria imune mesmo com este sangue Ibérico; A alma é latina por adoção. Contudo, eu dispenso tal herança como explicação. Fato é, sou avesso ao choro, e seria difícil buscar uma explicação lógica para uma matéria tipicamente emocional, ainda que chorar seja apenas um comportamento, não uma emoção com fim nela mesma.
Fazendo uma pequena pesquisa na Internet, aprendi que nem mesmo a ciência consegue decifrar por completo todos os mecanismos que desencadeiam o choro. Sabe-se por certo que é apenas mais uma modalidade do conjunto comportamental da comunicação, tal como rir, gritar, arquear as sobrancelhas e outras demonstrações de nosso estado de espírito. Chorar é a manifestação máxima de uma emoção. Se quando sorrimos para alguém desejamos demonstrar a empatia que dispensa palavras, o simples ato de se debulhar em lágrimas pode gerar compaixão, compreensão e proteção quando feito de forma solidária. Por outro lado, suspeita-se que o choro seja um simples modelo aprendido: se a emoção é avessa da razão – e uma criança chora com mais frequência por deixar o raciocínio lógico em segundo plano – quando as circunstâncias que envolvem este modelo se repetem, o cérebro enviaria a ordem para chorar e o mecanismo se ativaria sempre que necessário, até o fim da vida.
Na prática todas estas informações coletadas não mudam coisa alguma. Um psicólogo diria que chorar faz bem, alivia a angústia e libera a tensão e isso também é o óbvio dispensável. Eu só tentei traçar um paralelo da poucas vezes em que chorei e para isso eram necessários parâmetros. E porque tamanha agonia deste fanfarrão endurecido? Ora vejam só, além de não encontrar tal relação, nesta mesma pesquisa havia a informação de que, ao longo da vida, o homem chora cerca de 250 mil vezes. Porra! Fiz um pequeno levantamento e percebi que desde que adentrei a fase adulta, ou mesmo contando a partir da pré-adolescência, não devo ter chorado mais de vinte vezes (excluindo aqueles motivados por dor, como os tempos da maldita hérnia de disco). Conquanto minha vida não se transforme num inferno terrestre, e se as aulas de estatística do terceiro ano de faculdade não me falham, eu não devo cumprir tal meta nem que eu viva 250 mil anos. Sobra a dúvida: chorar com tanta freqüência é mesmo necessário? É claro que este número pode ser um exagero, e provavelmente é uma média baseada em amostragem onde existem aquelas pessoas que possuem mais ou menos motivos para chorar conforme suas vidas se desenvolvem. Contudo, abaixo os discursos auto-piedosos, eu até vivencio certas angústias que mereceriam algumas lágrimas. O adjetivo “emotivo” ainda me cabe e, ainda assim, eu continuo chorando com a mesma freqüência dos eclipses solares.
Certamente há os casos óbvios de lágrimas fáceis das quais nem o mais bruto estaria imune: A morte de minha irmã neném, a vez em que assisti sentado na beira da cama o meu pai fazer as malas para sair de casa, a perda do segundo melhor pai que eu jamais sonharia em ter... Situações fodidas onde a vida nos aponta o dedo austeramente, mostrando que não temos qualquer controle sobre ela. Chorei ainda pelas perdas de absolutamente todos os animais de estimação que tive – por coincidência incrível ou uma crueldade dos deuses, não houve um único que não tenha morrido “em meus braços”. Mas todos estes exemplos quase não entram em contexto por eu ser criança demais nas respectivas ocasiões.
Todavia, enquanto escrevia este texto, lembrei uma de minhas típicas e raras crises de choro do qual fui acometido. A história remete à uma senhora do meu prédio a quem todos tratavam por Dona Conceição. Era destas velhinhas simpáticas, amiga da minha avó desde os tempos do Guaraná com rolha. A verdade é que ela gostava tanto de mim que não passava um aniversário ou Natal sequer que ela não subisse os três lances de escada que separam nossos apartamentos para me dar um presente, mesmo que geralmente fossem meias ou cuecas (muito para sua aposentadoria). No fim da vida, coitada, tomada por uma osteoporose braba, mal conseguia andar, e era eu quem descia os três lances de escada para receber o presente que nunca haveria de faltar. Eis um dia faltou. Ela morreu e a notícia me foi dada quando cheguei do trabalho. Nenhum choro de minha parte, apenas uma tristeza melancólica. Da mesma forma aconteceu no velório. Creio que nunca havia segurado as mãos de uma pessoa morta... Não daquela forma. E olhado fixamente para um rosto sereno que nunca haveria de acordar... Não daquela forma. Entrei no carro preocupado. Já estava tarde e eu teria de acordar às 5:40 da manhã para mais um dia de trabalho. Qual o quê, fechando o portão da garagem, desatei num choro descontrolado. Não pense você que foi a tristeza pela sua morte, muito menos me tenha por insensível com tal informação. Na verdade fui invadido por um sentimento doído, como se o último vínculo que eu tinha com minha infância estivesse para ser enterrado em poucas horas; Como se tudo que eu fui e sou estivesse com um prazo de validade etiquetado em um idioma por mim incompreensível. Chorei por antecipação todas as mortes de pessoas importantes em minha vida que – eu sei – não terão de mim a atenção merecida em vida. A velha Conceição foi uma delas. Chorei tanto que até fiquei com medo – por ser algo absolutamente raro eu simplesmente não consigo lidar com estas coisas.
Outros casos estão aqui mesmo, neste blog (se você é curioso, dê uma passeada pelo histórico). Nele já citei duas raras situações onde as lágrimas me venceram, e a conclusão que eu posso tirar entre todas elas é a seguinte: Eu choro quando não consigo mais racionalizar a minha dor, seja por insuficiência da própria razão, seja por entregar as armas cansado demais para lutar com esta minha teimosia. Toda tristeza que me acomete acaba passando por um processo inconsciente de assimilação, onde absorvo qualquer sofrimento para depois destilar a vontade de chorar lentamente, até que esta se esgote. Muito das minhas dores acabo parcelando em textos, conversas interiores e outros escapismos. Se a coisa toda for muito bem capitalizada, o choro se perde no limbo das tristezas (uau!). O resto é liberado em lágrimas, raras, mas explosivas – são os dividendos de uma conta que nunca poderia ser exata. E é justamente por isso que eu possuo crises de choro. Crises! Não é algo que eu consiga pressentir como a grande maioria. As pessoas dificilmente me vêem embargando a voz ou lacrimejando os olhos discretamente. A vontade de chorar praticamente inexiste porque eu já estarei chorando por certo. E isso deve ser um reflexo de como eu lido com tais situações e que papel o ato de chorar exerce sobre elas. Se eu não consigo racionalizar algo, eu choro.
Tal comportamento chega como uma espécie de “tilt emocional” semelhante àquele o qual o computador HAL de “2001” fora submetido quando a razão não lhe foi suficiente. Eu sei, chega a ser um contra-senso (ou a maior das ironias) tecer uma comparação direta entre mim e uma máquina livre de emoções. Mas não podemos esquecer que o robô da obra de Arthur C. Clarke é baseado em um modelo comportamental humano pseudo-perfeito, onde o único erro era justamente não estar preparado para errar. Quando isto aconteceu, ele entrou em pane. Talvez se em seu algoritmo houvesse uma saída, uma escolha onde ele pudesse chorar, as barbaridades que o condenaram não teriam ocorrido.
Pensei em terminar este texto com seguinte frase: “Preciso chorar mais”. Contudo, além soar piegas, isto não deve ser algo que se trace como meta. Sábado eu chorei porque, dentre as milhões de palavras existentes do mundo, eu não fui capaz de encontrar uma sequer que pudesse lhe servir de consolo. Eu que sempre esperto, com tantas verdades e discursos lógicos, não construí argumentos convincentes o suficiente para impedi-la de dizer certas coisas sobre ela mesma. A razão não haveria de vencer naquela noite; Estive perdido assim como ela também esteve, e dividimos nossas lágrimas com cumplicidade. Há de ser bom, de alguma forma, saber que chorar pode ser uma resposta válida para questões aparentemente sem alternativas. E sendo assim aceito com um certo alívio o fato de que absolutamente nada está sob o meu controle, seja essa coisa uma nave espacial ou uma namorada.
Post Scriptum:
1- A imagem lá em cima, forjada com os mesmos traços de Picasso, podem ser feitas no site Mr. Picassohead, dica igualmente forjada do blog do meu comparsa Capt. Dimitri Moloko.
2- Se você ainda não assistiu ao filme “2001: Uma Odisséia no Espaço”, assista. Se já assistiu mas não entendeu, assista.
Quarta-feira, Junho 30, 2004
Além do que se vê
Anos atrás, imbuído daquele velho sentimento de me sentir capaz de transformar pessoas e opiniões, resolvi que utilizaria a ferramenta conhecida por e-mail em uma ferramenta útil, enfim. E não era o caso de formar listas ativistas, divulgar petições ou engrossar correntes diversas. Isto definitivamente não me contentava, muito menos me convencia. Tratava-se do simples gesto de fazer uso passivo do endereço eletrônico daqueles cuja audiência poderia considerá-los um arauto da sabedoria e, por certo, possuíam opiniões contrárias das minhas. Era quase uma agonia ler uma coluna impressa ou na Internet e discordar com todas as forças do mundo sem tomar qualquer atitude. Ainda mais quando eu tinha o e-mail dos autores acompanhando a assinatura. Entendia que em épocas remotas tal oportunidade de interação seria uma bênção, e eu simplesmente não poderia dispensar a única forma de protesto aparentemente possível. Hoje as coisas mudaram, ainda que na verdade eu nunca tenha me livrado por completo desta "mania". Contudo, meu poder de indignação está correndo para o lado oposto dos anos, e sobre isso eu cansei de tentar ter controle.
Fato é, mesmo não querendo admitir, eu enriqueci meu universo pessoal com esse escambo de experiências, e muitas vezes pensei estar ensinando quando, na verdade, estava sendo ensinado (capricha no clichê, seu viado). E foi em uma troca de e-mails pouco calorosa com um jornalista chamado René de Paula Jr. que eu aprendi um conceito muito interessante chamado "hiper-realismo". Começou quando o cara resolveu por bem escrever uma crônica batizada "Mire no peito: quando o inimigo é o próprio jogo", onde, dentre outras coisas, alertava sobre perigo dos jogos eletrônicos violentos e os malefícios psicológicos que poderiam afligir a audiência. O petulante, em um texto só, abordou (leia escrachou) uma das minhas predileções, videogames, e ainda se valeu de um conservadorismo de R$ 1,99. Lá fui eu escrever uma missiva quilométrica alertando o autor para a sua irresponsabilidade ao criticar o que desconhece, para os perigos do puritanismo barato, e de como os videogames, assim como a música (roque, né?), são sempre os álibis mais fáceis para tirar a culpa de uma sociedade impotente perante seus jovens, com um ambiente familiar irresponsável e um sistema educacional falido – uma frase quase feita.
É bem verdade que as palavras de René possuíam um tom exagerado, mas é certo também que a minha total inabilidade em interpretar de forma correta o seu texto vinha justamente do desconhecimento de tal conceito. Por hiper-realismo, um termo comumente utilizado para indicar uma inclinação artística onde pintores se valem desta técnica em contraposição ao surrealismo, entende-se a amplificação minuciosa de cada aspecto do mundo ao nosso redor, distorcendo o convencional de modo a sobrar um panorama mais real que a própria realidade, fantástico mas ainda veraz. Este efeito de manipulação pode ser traduzido e aplicado em diversas outras mídias, e, dependendo da forma como isto é feito, acabamos por nos dessensibilizar e perder alguns parâmetros que servem como vínculos com o mundo real. Tiramos nossos pés do chão involuntariamente para realidades cada vez mais fantásticas, e, quando o tocamos novamente, nos decepcionamos pelo excesso de expectativas ou a deficiência no poder de nos permitir impressionar.
Fica claro que René alertava para o uso assumidamente constante do artifício nos jogos eletrônicos. Uma morte virtual é espetacular e até, por assim dizer, legal de se ver. Entretanto ele, que havia sido fotógrafo policial, alertava que uma morte real é seca, exata, com enumeras nuances suprimidas nas mais diversas interpretações. Contou, por exemplo, que se a vítima houvesse sido baleada, quase não havia sangramento porque, devido à alta temperatura com que uma bala calibre 22 perfura a carne, o ferimento cauteriza quase instantaneamente, causando hemorragia interna em primeira instância. Me digam aí, isto confere em seus imaginários? Já a morte por esfaqueamento, esta sim, era como se baldes de sangue houvessem sido despejados no local do assassinato. Mas é um sangue escuro e viscoso, quase preto de tão coagulado. Á noite, ele conta, assemelha-se a óleo automotivo no assoalho de uma garagem. Definitivamente não bate com a vermelhidão cenográfica. E havia o cheiro. O sentido mais dificilmente bombardeado pela manipulação exagerada da realidade. A cena do crime possuía um cheiro agridoce ou de açougue, dependendo do excesso de sangue ou vísceras expostas. Tudo isto e ele não conseguiu descrever o clima soturno de morte que paira no ar, agora sim, abstrato, e, justamente por isso, impossível de se amplificar ou mesmo suprimir. É claro que por eu (ainda bem) nunca ter tido contato com este universo, meu conceito de morte é um pouco mais glamouroso que este relato, se me permitem a infâmia. Mas nem por isso abrirei fogo contra uma platéia de cinema. Deixo a glória apenas para os desajustamos.
Por isso mesmo, tentando buscar uma experiência pessoal onde eu pudesse reconhecer algum tipo de hiper-realismo penalizante, cheguei a um acidente de carro ocorrido no Guarujá, litoral de São Paulo. Nele você está dirigindo um Gol a 110 Km/h em uma madrugada desértica. Você vê um Escort vermelho cruzar a avenida à sua frente. Você buzina e vê um motorista distraído frear de forma tardia, fazendo com que o veículo somente venha a parar por completo já no meio da pista, sem espaço para outro carro passar; O seu carro. Você tenta frear da mesma forma, mas o Escort cresce a menos de dez metros de distância. Você olha para o lado e vê sua amiga apertando o pano da calça sobre a própria coxa enquanto tenta defender o rosto com a outra. Não há música, gritos, nada. Não há tempo. Você apenas tem a lucidez de que a colisão será inevitável, e aqueles serão seus últimos instantes de vida; Quase consegue relaxar. Os bólidos se chocam. Aço vermelho se retorcendo contra o aço prateado, e o plástico do painel a das portas se despedaçando no interior do carro. Um barulho seco, cruel, mas que não dura mais de três segundos. Silêncio novamente, desta vez ainda mais angustiante. De alguma forma você está fora do carro, com a boca no asfalto gelado. Levanta-se e tenta distinguir atrás de você dois carros diferentes em meio àquela massa distorcida. Sente dor. Não falo da dor psicológica ou qualquer outra bobagem irrelevante no momento. Falo da dor física mesmo, no peito e na cabeça. Dor filha da puta. Você sente as pernas fraquejarem e os sentidos esvaecerem. Você acorda no hospital e o que sobram são estas lembranças. Nelas não há música de ação, faíscas, manobras mirabolantes e derrapagens fantásticas. Definitivamente não é "Velozes e Furiosos". O menino que tirou carta ontem ainda não sabe. Da mesma forma que eu, menino dirigindo um carro naquele Natal de 1996, também não sabia.
Sei que até aqui tudo foi muito pesado, mas é apenas para salientar o ponto certo onde o hiper-realismo consegue ser mais prejudicial, suprimindo os aspectos negativos da vida para jogar holofotes em outras irrelevâncias. Contudo, as banalidade do cotidiano também sofrem com a competição de uma realidade impossível. Peguemos o futebol, por exemplo. Qual criança ainda assiste um jogo de futebol em um estádio qualquer e se deixa tomar pela mágica (putz) do momento? Não falo da empolgação inicial das primeiras visitas, mas da tal mágica em si, algo tão difícil de explicar que não consegui arrumar outro termo mais adequado. O sentimento imaculado do torcedor fiel parece não fazer tanto sentido perante uma transmissão via-satélite por assinatura, onde podemos nós mesmos controlar replays, ângulos e tomadas para a peleja. Se bobear, em um futuro próximo, colocarão micro-câmeras até na própria bola. As novas gerações crescem dificilmente impressionáveis com todas estas possibilidades para deixar a partida ainda mais fantástica, e ninguém há de convencê-las que é melhor ver o jogo há quase meio quilômetro de distância do campo, nos escadões do Maracanã, e não no conforto de casa - a não ser pela farra. Farra somente! Apenas para os "românticos" parece óbvia a superioridade do concreto sobre o sofá, algo que me foi ensinado pelo Sr. Dario, meu pai, quando íamos assistir juntos os jogos do Peixe na Vila Belmiro.
Finalmente, porque escrevi tanto sobre o assunto? Este post, acredite se quiser, era para ser somente uma das minhas pretensas resenhas, no caso uma sobre o show do Los Hermanos no Credicard Hall, em Sampa. Seria um texto frio e calculista (impossível escrever uma palavra sem a outra acompanhando) não fosse um pequeno detalhe. Eu, acostumado a tantas apresentações ao vivo e já impregnado do hiper-realismo dos shows em DVD Surround 5.1, DTS e outras particularidades tecnológicas, já saio de casa antevendo que dificilmente ficarei impressionado de verdade, mesmo sendo minha banda nacional preferida e eu nunca tê-los visto ao vivo. Também já trago na bagagem os shows que considero os melhores da vida inteira, e não foram necessariamente pela parte técnica, uso de pirotecnia ou raridade da apresentação, mas um conjunto de coisas abstratas e inexplicáveis que me fizeram voltar para casa com tal certeza. E sobre este do Los Hermanos, quando finalmente começa, a consumação: normal. É, normal. A pequena adrenalina na entrada da banda e a euforia da primeira música com todos cantando juntos; Se é balada, a gente abraça a namorada; Se é música preferida, a gente canta de forma mais eloquente. Tudo muito prazeroso, tudo com um sorriso no rosto, mas ainda assim normal. Acredite, não falo aqui de incompetência da banda. Pela minha devida experiência já consigo discernir. É, sim, esse meu deslumbro anestesiado.
Eis que, de repente, a catarse. Percebi que um spot de luz branca muito forte e intensa, colocado atrás do palco, projetava as sombras de Amarante e Marcelo Camelo (os dois line ups da banda) em uma das laterais do local o qual estava bem próximo. Por um bom pedaço do show, talvez até músicas inteiras, eu olhava fascinado para aqueles vultos de homens e guitarras ao meu lado, dançando na parede em um show paralelo ainda mais espetacular. Posso ter sido tomado como um grande bobo, é verdade. Mas tais formas eram verdadeiras, muito mais que as imagens daqueles caras que estavam postadas diante de mim, no palco, idênticas àquelas já vistas na televisão ou qualquer outra mentira. A maior ilusão da humanidade, criada pela luz desde que esta existe – muito antes do próprio homem – comprovava que eles estavam no palco realmente, e aquilo não era um truque dos meus olhos viciados em outras ilusões, primas da vida moderna. Esta foi a maior ironia de todas, precisar de uma sombra, que nem minha era, para me fazer "presente". E o maior tesouro também: Depois de me deixar fascinar por tamanha banalidade, a certeza em afirmar que “certas coisas se perdem para sempre” não passa de uma grande bobagem. O hiper-realismo foi apenas o pretexto de uma explicação plausível para estas perdas... E de como eu, cartesiano, precisei apenas de uma sombra mamulenga na parede para ter de volta alguma ingenuidade.
Quarta-feira, Junho 23, 2004
Das coisas que eu gostaria ter escrito...
O Grito
(Renata Pallottini)
se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos
se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse
se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir a saliva fora
sujar a rua
os carros
o espaço
o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre
tem o direito de não sofrer
se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer
doer
doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas
se ao menos esta dor sangrasse
Segunda-feira, Junho 14, 2004
Quinta-feira, Junho 03, 2004
Les Enfantes Terrible
Neste fim de semana fui assistir Diários de Motocicleta, o mais recente trabalho de Walter Salles (Central do Brasil, Abril Despedaçado). É um pouco difícil iniciar uma pseudo-resenha sobre um filme dirigido por um brasileiro sem sublinhar tal fato de imediato (por motivos óbvios), ainda que isto não importe muito. Aliás, importa, porém não quero me ater a elogios ufanistas sobre o cinema nacional, até porque nenhum deles (Walter e o Brasil) está carente neste sentido. Dito isto, o filme.
A história é baseada nos diários reais de viagem do jovem Ernesto Guevara de la Serna, o "Che", à época com 23 anos e ainda muito distante do próprio mito. Pouco antes de completar o curso de medicina em Buenos Aires, Guevara juntou-se ao amigo bioquímico Alberto Granado, 29 anos, para a viagem que lhes fosse valer toda uma vida. O desafio? Atravessar o continente sul-americano em quatro meses, percorrendo oito mil quilômetros em uma Norton 500, ano 1939 (batizada carinhosamente "La Poderosa"), sob o método da improvisação.
Ao contrário do que se possa pensar, "Diários" não fala das revoluções, guerrilhas ou ideologias do ícone. Não de forma explícita. É um genuíno road movie, uma espécie de Easy Rider latino que se atem a contar um período crucial na vida do "homem" Ernesto Guevara, "El Fuser" para os chegados. Um filme onde os personagens possuem preocupações mundanas como a inevitável deterioração da motocicleta que os servia ("La Paraplégica" por consequência), dinheiro escasso para se alimentar, falta de abrigo, as constantes crises de asma de Ernesto e, é claro, mulheres. Portanto o que vemos na tela não é o revolucionário, mas um jovem, que nem rebelde era, movido por um ideal ainda sem forma, mas em vias de: a velha história da redescoberta, a viagem literal do autoconhecimento, o entalhamento de um mito e as ferramentas que moldaram seu caráter libertário. "Quero que leiam Che ao invés de comprar a camiseta", diz Salles.
Aqui é importante dizer que eu não tenho uma opinião formada sobre Che. E eu tento, juro. O problema maior é que sobre ele muito é dito e nada é absolutamente concreto - o que é perfeitamente normal visto o mito em que se transformou. Esta é a grande pedra filosofal ao desvendar a persona. Ser mito. Pode ser Jesus Cristo ou Adolf Hitler, Airton Senna ou Mohamed Ali, Napoleão Bonaparte ou Getúlio Vargas, sempre haverá pessoas dispostas a falar bem ou mal sobre cada um deles, divergindo opiniões ou distorcendo a verdade (para bem ou para mal) por anos a fio, até que esta perca a forma e reste apenas à vontade de acreditar nisto ou naquilo. Sabe-se por certo que Guevara foi um guerrilheiro duro, austero e implacável em seus métodos, mas também um homem honesto, que justificava tais atos em um senso de justiça social extremo. Tão extremo que pode ter sido a base de tanta divergência. Talvez sua mais famosa frase, "Hay que endurecer, pero sin perder la ternura", resuma o paradoxo de Che Guevara. Ninguém há de dizer que ele se comprometia movido pela ganância, poder ou dinheiro, visto que após a bem sucedida tomada de Cuba, o revolucionário abdicou o serviço burocrático proposto por Fidel para se dedicar a outras guerrilhas (Congo e Bolívia) e a condição miserável de sobrevivência nos campos de refugiados incrustados em serras e selvas. Liberdade era a palavra que o movia. Mas destruir ditaduras vigentes (a custa de muito sangue) para implantar novas, ainda que mais "sociais", é algo deveras confuso para o meu entendimento. Só não duvido de sua boa vontade. E repito se precisar.
Voltando à vaca fria, conforme a viagem ganha contornos mais humanos, a aventura cede lugar a sombra de um futuro que o jovem Fuser começa a compreender. O encontro com um casal no Deserto de Atacama e a seleção diária para trabalho pesado em uma mina de cobre, as conversas repletas de comiserações dos moradores de Cuzco, a segregação no campo de leprosos no Amazonas peruano; Tudo passa a colaborar para as mudanças interiores do "personagem", influenciando novas e inesperadas atitudes, tal qual o gesto messiânico de doar o dinheiro que também lhe faria falta. Contudo, mesmo a história sendo um prato cheio para beatificá-lo, Walter Salles não caí em tentação do maniqueísmo fácil, e faz do jovem Ernesto um personagem de boníssima índole, mas por vezes dúbio. Por exemplo, um dado momento ele aceita beber um litro de leite roubado por Granado. É um cena rasteira e até banal, mas que gera credibilidade em suas virtudes uma vez que também são salientados os defeitos. Em outra oportunidade, Che trai um marido - na verdade intenta, o que dá no mesmo. Parece bobagem, mas para um homem que refusa mentir, sob hipótese alguma (o que o coloca em alguns momentos realmente constrangedores), a atitude corrompida é gravíssima. Ao fim um "embrião de Che Guevara" faz um discurso repleto de termos como união, ausência de fronteira entre os povos latinos e paz, e tais palavras quase se contrapõem à afirmação feita para Granado nas ruínas de Machu-Pichu: "Nenhuma revolução se faz sem armas". Complexo.
Tecnicamente o filme é excelente. Fotografia belíssima e boas atuações de Gael Garcia Bernal como Ernesto Guevara e de Rodrigo de La Serna como Alberto Granado. Este último rouba a cena diversas vezes, com seu jeito fanfarrão e comentários cínicos (com ele aprendemos que xingar em espanhol é muito mais divertido). Walter também apresenta ótimos momentos, como a já citada passagem no desolado Atacama: Utilizando sucessivos closes para cadenciar o clima intimista, o espectador é transportado da cadeira do cinema para os arredores da fogueira onde os personagens buscam se aquecer do frio noturno do deserto. Pode ter sido apenas uma experiência pessoal, mas eu não lembro, ultimamente, ter "entrado" tão intensamente em uma cena. Não desta forma. No momento dos créditos, fotos reais da viagem ajudam a dar uma unidade maior com a realidade. Certamente uma ótima idéia.
Ao final não sei se o Ernesto da juventude explica, muito menos justifica, o maduro. Mas é impossível, em absoluto, não simpatizar com a história de dois jovens amigos que cruzam um continente inteiro movidos por uma moto e o velho desejo de liberdade, tão intenso que chega a doer naqueles que ousam sentir. Engana-se quem pensa que a aflição destas duas pessoas padece em outros territórios e povos. Na verdade mora dentro delas mesmas. E esta é a única e verdadeira revolução do qual "Diários de Motocicleta" trata. Volto do cinema sabendo que a Cuba de Che Guevara descansa longe, muito longe. E eu o que faço senão omitir o fato de que a minha está muito mais próxima do que eu supunha. Apenas para preservar o meu sangue.
Terça-feira, Abril 20, 2004
Laís, este post é pra você.
Menina, nem sei o que te dizer, porque você tem toda razão em estar chateada. Aliás, até tenho, um amontoado de justificativas que não conseguem ser desculpas (nem mesmo uma única) por não terem como. Mas, como advogada, você sabe que até os maiores pilantras possuem este direito. Então... Aqui está o pilantra.
Quando ontem à noite a Keka me contou sobre o seu comentário neste blog, fiquei pequeno, minúsculo, por tudo o que é mais importante em minha vida. Esta falta de consideração não foi intencional, mas apenas um descaso da minha cabecinha avoada. Acontece que a Patrícia (e você sabe como é a Patrícia), há meses da formatura de vocês já vinha enchendo a cabeça de todos com mil informações, intimações de presença e comentários sobre a festa. No meu entendimento estava bem claro que haveriam duas formaturas em sequência, respectivamente da Patrícia e da Giovanna, tanto que, faltando um mês para o ocorrido, eu simplesmente desconhecia que você também estaria se formando. Pôxa, depois que eu acabei tomando a decisão de não ir (para poupar um dinheiro que nem mesmo existia) e você fez tudo aquilo para que nós estivéssemos presentes, senti um dever de gratidão enorme. Reconheci intensamente que você tomou uma rara atitude, do tipo que poucos teriam, ainda mais por nossa condição de amigos "por tabela". Fiz o melhor juízo de você, levando em consideração uma secreta maneira turrona de selecionar pessoas que valem a pena serem taxadas "legais" (a simpatia e expansividade com todos são apenas um pedacinho do meu show). Tanto que se eu passei parte do meu tempo na mesa em que vocês estavam, não foi por uma clara obrigação de ser teu convidado, mas por gostar de você, da Ceci, gostar muito do Saulo e também do André (mesmo que 90% das conversas se resumam apenas a PlayStation 2 com este aqui).
Ao sentar frente ao computador para escrever o pequeno texto que justifica a aparição do meu próprio discurso de formatura, acredite, não houve relação entre prioridade e importância. Quanto tempo gastei para omitir o seu nome? Três segundos? Infelizmente, e por motivos que eu já expliquei, ficou difícil para meu inconsciente dissociar o fato de que aquela formatura era apenas da Patrícia e não de ambas - um truque da minha mente desastrada na hora de escrever aqueles infelizes parênteses. Além disso existe um hierarquia inconsciente de pessoas que são lembradas antes de outras, podendo variar até por motivos ruins (claro, não é este o caso). Querendo ou não, nossa amiga está muito mais presente "socialmente" em minha vida. Não que isto a torne alguém necessariamente melhor ou merecedora de mais reconhecimentos. Mas isso deve ter pesado no meu auto-engano.
Por fim não acho certo simplesmente corrigir aquele post. Além de hipócrita, eu não estaria sendo honesto com você. Meu erro vai permanecer aqui pra sempre, ou enquanto durar este blog. Mas junto com ele vão estar estas palavras de retratação, que não merecem apenas um e-mail ou um telefonema acanhado, mas, da mesma forma, permanecer e ganhar os olhos de todos os que visitam este lugar cujo dono nem sempre consegue fazer melhor.
Espero sinceramente que minha falta de consideração não diminua aquela que você tem por mim. Por favor, é importante.
Um beijo.
Sexta-feira, Abril 16, 2004
Post simples sobre a filhadaputisse
"E então Deus criou o homem. E o homem criou o blog. O Diabo, lépide e fagueiro, criou servidores para hospedar os blogs dos homens, prometendo que seriam gratuitos até o juízo final. Mas eis que o Diabo demorou mas não tardou. Conhecido por muitos nomes (capeta, tinhoso, veludo, cão, Globo.com, satanás e cramulhão), a maléfica criatura resolveu quebrar a promessa e cobrar dinheiro dos seus incautos e bem intencionados usuários, tudo em nome de sua inesgotável ganância. Pessoas de toda parte perderam o lugar que lhes abrigava "a palavra", e o resto é história. "
Vi, nos últimos meses, diversos blogs amigos mudarem de endereço por causa da asquerosa Globo.com, que resolveu cobrar mensalidade de seus assinantes utilizando a velha estratégia dos traficantes que povoam o imaginário de nossas mães - mas nunca as ruas: "Pode pegar, é de graça!". O marketing tosco da Globo é corporativista como a própria, mas, infelizmente, previsível e inevitável. Foi bem por isso que eu decidi utilizar os serviços do Blogger gringo à época da criação do Cartesiano. Mas como eu adoro o cacoete de otário assumido, não sei porque, na hora de escolher um servidor para hospedar minhas imagens fiquei com o Kit.Net, serviço mancomunado da Globo. Neste caso não perdi o blog, mas ele ficou desta forma, desfigurado, pelado como Adão, o primeiro homem que o Diabo tentou e...
Curioso é que eles próprios enviaram um e-mail esclarecendo que o prazo para eu assinar o serviço ou desistir completamente dele iria até o dia 19 de abril. Vejam aí em cima a data deste post, por favor. Pensei cá com meu botões que o tal e-mail era a prova de que havia ao menos um pingo de dignidade e consideração por parte destes desgraçados. Pensei que teria tempo hábil de procurar um novo servidor para hospedar as minhas imagens e não seria pego desprevenido. Vai nessa... Extirparam todos os arquivos e cancelaram o serviço dias antes, sem a menor satisfação. Meu pai sempre diz que um filho da puta vai até o fim em sua filhadaputisse. Não existe o filho da puta mais ou menos. E enquanto eles mandarem no Brasil a vida não pode ser bela.
Mas, acreditem, isto é fichinha perto do que a UOL fez comigo. Daria um outro post inteiro, ainda mais raivoso e cheio de comiserações. Mas eu já estou muito, muito amargo para uma sexta-feira. Neste exato momento estou pronto para ser ator principal de um próximo filme do Mel Gibson. Juro que estou.
Quarta-feira, Abril 07, 2004
Nesta data querida
A última segunda-feira, 5 de abril, foi o meu aniversário. Neste dia ainda pensei em vir até aqui postar algo festivo, aquela coisa comum a maioria dos donos de blogs, que adoram discursos de autocongratulações em seus respectivos dias. Mas não o fiz. Foram só alguns minutos na frente deste computador para eu perceber que não sou cínico a este ponto, não senhores. Além de eu não digerir muito bem a idéia, tento solucionar, desde sempre, o enigma que é “não me sentir” em meus próprios aniversários. Nunca.
Desde os tempos de criança é assim. Minhas fotos de infância delatam uma feição – aqui deveria haver um adjetivo que eu não consegui encontrar – perante o bolo, as pessoas e as palmas. Era o sintoma de um sentimento que só seria revelado com a chegada da idade do questionamento, quando passei a me perguntar o que alguém necessariamente faz para merecer os parabéns alheios no dia de seu aniversário. Ter existido mais um ano? Hoje, se convido alguns amigos para festejar em um bar ou coisas do tipo, me sinto o convidado de qualquer outra festa justamente por ser um anfitrião desmerecido, sem a plenitude e o orgulho que um aniversariante deve possuir.
Apenas hoje, passados dois dias, eu me sinto menos desconfortável em vir até aqui expressar algumas palavras no tocante desta data. E por mais que eu tente (propositalmente) ser banal, ainda assim, a tarefa é quase Hercúlea. Mesmo me privando de maiores reflexões, mesmo eu não sendo mais alvo de sentimentos metralhados ao meu redor, ainda assim isto aqui é apenas um post de aniversário tardio onde o aniversariante não sabe muito bem o que dizer. Hoje ele desaprendeu a escrever. Não é algo relacionado à técnica e todos os segredos que iludem leitores sempre bem intencionados. Também não se pode culpar o feeling. É tudo sobre não ter um “por quê” e, mesmo assim, insistir de forma estúpida em abrir o coração.
Segunda-feira eu completei minha vigésima sexta volta ao redor do Sol, contando a partir do ano zero de meu próprio calendário. De forma prática, é apenas isto. Um ano a mais representando um ano a menos para ser pleno. Dia 5 de abril eu não fui e nem ao menos tentei ser pleno. Acordei com vontade de ser nada. Entendam bem, não que eu quisesse fazer nada. Eu queria “ser” nada. E não é nada fácil ser nada. Se eu ficar horas parado na praia, pensando, serei um cara parado na praia, pensando. Não era isso o que eu queria. Ficaria feliz em apenas compreender que não se pode ser tudo. Faltará tempo, o incontestável fato atestado por nossos aniversários. Mas eu vou sempre além, e no marco vinte e seis da minha vida eu quero ser nada.
Devo ser como o coelho de “Alice No País Das Maravilhas”, que comemora 364 “desaniverários” ao ano, sua vida enfim, e se abstinha de festejos o dia em que ficava mais velho para as estatísticas. E eu que sou um cara legal, com níveis normais de serotonina e intolerante com a autopiedade, fico acanhado apenas ao tentar explicar a heresia que é não encontrar motivos para se comemorar um aniversário. Mãe e o resto da família, namorada, amigos... Não há como decepcionar todas estas pessoas e dizer que o dia 5 de abril é uma data absolutamente normal, e que não há nada especial nela além do simples fato de agrupar meus dias em anos vividos.
Na verdade as comemorações deste ano ficaram acima de quaisquer expectativas. Eu só queria mandar para o inferno uma parte de mim muito egoísta, que debandou e não vê motivo para a parte restante se sentir tão feliz quanto estava em seu fim-de-semana cheio de ligações, pretextos para reunir os amigos, presentes e demonstrações de amor. Este Fabio que escreve tudo isto e continua querendo ser nada, quando na verdade encobre, teimoso, os meios e o desejo de querer ser o outro.
Quarta-feira, Março 31, 2004
Post nostálgico
Meus dois últimos fins-de-semana foram marcados por formaturas. Em cada um fui convidado para uma festa (parabéns Gi e Paty) e, por motivos óbvios, ambas me fizeram recordar mais carinhosamente a minha própria colação de grau, há pouco mais de um ano. Na ocasião fui escolhido orador, não pelo reconhecimento de uma pseudo-aptidão para escrever um discurso — para todos os efeitos eu sou um porra-louca que não possui qualquer intimidade com as palavras, e pouco mais de meia dúzia de amigos da época de faculdade freqüentam ou sabem da existência deste blog (sacanas). Fui, sim, escolhido por ser uma pessoa comunicativa e desembaraçada, e que, por conseqüência, todos enxergavam com um certo carisma. Por certo aceitei a responsabilidade alegremente, mas estava convicto de que o tal discurso deveria ser, senão o mais especial e perfeito texto já escrito por mim, o mais importante até então. Assim fui acometido por medo e insegurança, o que culminou com a minha presença inerte frente ao computador por quase duas horas, vazio e sem idéias. Apenas tinha a certeza de que não seria formal demais, tampouco me valeria de clichês. Decerto não fui formal, mas os clichês me tentaram a todo instante, irresistíveis... Venceram-me na segunda tentativa. Sim, escrevi o discurso com razoável antecedência, em uma noite apenas, mas faltando um dia para a colação, fiz-me insatisfeito com o resultado final, duro demais, incompatível com a comoção e a precipitada nostalgia que já me transformavam em uma pessoa diferente daquela que achou tê-lo terminado. Reescrevi algumas partes de modo a não me preocupar em ser passional ou fervoroso em demasia, apenas fazendo o que eu senti que deveria ser feito naquele momento. E agora, a lembrança... Não sei ao certo a razão que está me levando a postar este discurso de formatura aqui, neste blog. Provavelmente não interessa a ninguém mais que não os velhos amigos do curso de Ciências da Computação da Unisantos (os mesmos que não o visitam). Mas algo restou daquela emoção sentida quando eu estava frente ao oratório, e se manifesta diante da simples lembrança de um dia tão significativo quanto aquele. Hoje, as palavras deste discurso são a síntese de que tudo valeu a pena, e se me recordo destes tempos com carinho, é porque meu coração ainda bate da forma como deve bater. Ei-lo:
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E então o nosso tempo passou. De repente não nos vemos mais na obrigação de ir para a faculdade e no meio de tantos outros novos deveres, quem diria, o discurso de formatura. Quando decidi escrever este texto, prometi a mim mesmo que faria o possível para não cair no trivial de praticamente qualquer discurso deste tipo, que é falar sobre os amigos que fazemos no tempo de faculdade, e também sobre os desafios que nós, formandos, teremos daqui pra frente. Que precipitação. Bastaram alguns minutos na frente do computador para perceber que seria uma tarefa realmente muito difícil. Até porque é justamente sobre isso que uma formatura se trata: futuro e amizade. Simples desse jeito, e bonito também. Pra falar a verdade, longe de mim querer escrever um discurso no sentido literal da palavra. Acredito que discursos não funcionam em um momento como este. Familiares, professores, nossos amigos... Porque não uma confidência?
Passadas as angústias das provas e exames, passadas as falsas euforias de final de ano, voltamos a pensar na vida mais lucidamente e, de certa forma, percebemos a perda inconscientemente que tanto desejamos durante o tempo em que convivemos juntos. Sim, formatura também simboliza perdas. Pequenos grandes momentos que só serão contados nas memórias daqueles que hoje aqui estão, apreensivos pelo que lhes vai acontecer com um diploma nas mãos. É estranho. Hoje sabemos nossos nomes, telefones, humor, do que gostamos e do que não gostamos. Até que um dia todos viramos lembranças, bem distantes, sobre um passado tão glorioso que trará dor pelo simples fato de ser lembrado. De um lado nossa convivência em sala de aula, dividindo ansiedades, cadernos e conhecimentos. Do outro, porque não, nossos bares, papos-furados, madrugadas e viagens. Tudo obra daquele efeito de amizade coletiva na qual nos sentíamos bem. Aquela arte de ser e se sentir amigo, que por mais que mantenhamos contato, basta um descuido para morrer com o tempo, morrer com a indiferença, morrer com uma vida mais realista.
Olhem para nós, bacharéis em Ciências da Computação. Olhem para nós que acordamos sobressaltados todos os dias na pressa de não perder o ônibus que nos leva até São Paulo ou ainda vivendo na angústia de conseguir um novo emprego. Olhem para essas caras amarradas, um tanto tristes, apressadas por entre corredores de empresas, falando ao telefone com pessoas importantes, fazendo parte desta máquina que faz do dinheiro nosso próprio combustível. Atentem para nossas conversas, algumas repletas de assuntos técnicos que apenas a nós compete compreendê-los, e outras tantas sobre a relevância dos projetos nos quais estamos envolvidos. Pensem na força que somos obrigados a demonstrar todos os dias, trabalhando sempre com eficiência, sem exibir uma imperfeição ou um sinal de fraqueza. Percebam a segurança e a firmeza de pedra que há em cada um de nós quando lidamos com nossos sérios compromissos. Qual é a imagem que se pode ter de nós? A de seres intocáveis, capazes de produzir como a máquina que estudam, grandiosos e inacessíveis como se vivêssemos em algum Olímpo. Mas nunca a de um ser-humano que pode falhar e ter os mesmos problemas corriqueiros que todos têm. É difícil admitir, mas falta algo. Não me refiro às nossas angústias, aos nossos problemas pessoais que ficaram escondidos atrás de programas, prazos, provas e massas de conceitos novos a aprender. Pode parecer que durante alguns anos ninguém aqui chorou, consolou quem precisava ser ouvido, foi a festas e bebeu demais por sua própria vontade, se apaixonou e sofreu muito por isso. Nada disso consta em nosso currículo. Mas sabemos que ele é muito maior do que aquele que apresentamos em uma entrevista, uma dinâmica e até diariamente em nossos empregos.
As palavras que realmente quero dizer agora não são ditas no laboratório, na sala de aula, ou mesmo fazem parte de algum projeto. Essas palavras estão escritas em nossos corações, e as levamos todos os dias dentro de nós, sempre desejando dizê-las ao mundo, mas tendo medo de fazê-lo, por não parecer conveniente. Nós as dizemos às vezes pelos cantos escuros, a alguma pessoa de confiança – muitas vezes nas entrelinhas – mas nunca as dizemos para um professor, um patrão, um colega de profissão, quando muito para nós mesmos. Hoje, no entanto, venho dizê-las a todos. Por um dia apenas vamos pensar no que não pensamos ontem e não pensaremos amanhã. Vamos pensar no universo que cada um de nós carrega dentro de si. Não estamos agora nos corredores das empresas ou na faculdade. Vamos abandonar por um instante nosso formalismo, nossas vergonhas, e viver em um mundo novo, sem técnica e sem regras, que parece distante, mesmo estando presente dentro de nós, escondido entre tantos receios. Vamos enxergar mais longe, por distâncias até inaceitáveis para nossa visão da vida, e nos permitir sentimentos que mantemos secretos dentro de nós, aqueles que o meu e os seus corações clamam todos os dias por vivenciar. Vamos olhar para todos estes amigos que estão agora ao nosso redor, e ficar em paz simplesmente por causa disso.
Finalmente não será mais difícil expressar o que muitos já sabem há tempos, mas que havia sido dito de uma forma diferente, talvez por um gesto, uma carona, uma cerveja ou um simples telefonema. Hoje eu quero demonstrar toda essa gratidão, quero que esse sentimento simbolize uma espécie de abraço coletivo, e que ele dure através dos anos, nem que por obra do acaso eu seja o primeiro a desistir deste abraço. E, afinal, será mesmo possível tocar os corações de todos vocês hoje? É difícil dizer que sim. Talvez a única recordação que fique deste dia seja apenas algumas fotografias e nada mais, pois hoje é sexta-feira, um fim de semana e será dia de trabalho novamente. Mas estou tranqüilo, pois acredito em tudo aquilo que criamos durante estes anos de convivência.
Sobre o futuro? Ele também não me preocupa. Enquanto escrevia estas palavras mal acabadas, notícias de uma possível guerra ecoavam da TV do meu quarto. Não posso me culpar pelo que os outros fazem de suas vidas, muito menos sentar no meio do caminho pensando de que forma isso irá me afetar. Acredito que a mudança do mundo, do nosso mundo, se faz aos poucos, com o esforço coletivo. E a nós, formandos em Ciências da Computação, pessoas que estudaram anos para entender “máquinas”, resta o compromisso de dobrar nossos esforços para entender “pessoas” até o fim de nossas vidas. Esqueçam a sorte, esqueçam a ambição, que o futuro irá se encarregar do resto, com toda certeza...
Aos nosso professores e familiares, nosso carinho e consideração incondicionais. Dizer que esta formatura também pertence a vocês é tentar ser mais óbvio do que a alegria que hoje estamos sentindo. Aos meus bons amigos da Unisantos, parabéns por chegarmos até aqui. Senão por papeladas, nos formamos com responsabilidade, nos formamos com a força da nossa amizade e, principalmente, nos formamos nas lembranças de nossa convivência dentro e fora da faculdade. Se em algum momento de nossas vidas a motivação para seguir em frente faltar, ou se a trilha por caminhos diferentes parecer mais atraente, sejamos corajosos e donos da própria vontade. Mas antes de qualquer precipitação, vamos sempre nos lembrar do que nos levou a escolher esta faculdade como plano de nossas vidas. Vamos nos lembrar da alegria em ter passado no vestibular, e da felicidade ingênua dos primeiros dias de aula. Vamos nos lembrar do espírito de esperança presente nesta formatura, e fazer valer o ideal de que todos os dias sejam como hoje, e que hoje não seja como todos os dias.
Quarta-feira, Março 24, 2004
Os descrentes
Na manhã de 16 de março de 2004, por volta das onze horas, uma nuvem sobrevoava não o mais alto céu, mas se fazia suspensa logo acima do mar da praia do José Menino, em Santos, à altura dos olhos de quem ainda fosse capaz de se admirar.
Surreal, mas palpável. Impossível, mas veraz. Tal nuvem – da qual não consigo precisar o tamanho pelo simples motivo de eu achar impossível calcular área, extensão e volume de algo do gênero “nuvem” – não só desafiou deuses e a ciência, mas encheu-se de vaidade ao descer do céu apenas para que pudéssemos contemplar de perto o que antes era um simples objeto de voyerismo, uma verdade quase abstrata.
Falta-me sapiência para classificá-la um fenômeno metereológico, Falta-me fé para julgá-la milagre de Deus ou trote do Diabo. Mas o que lá estava, com mínima percepção, não poderia ser uma formação de gás químico ou uma névoa qualquer. Era, sim, uma nuvem autêntica, de um branco denso e contornos bem definidos. Feita de algodão ou vapor d’água condensado – variando de acordo com o estado de espírito do espectador – era mais real que a própria realidade, um retrato amplificado (em todos os sentidos) daquelas nuvens que não saem da minha cabeça, vistas quando voei de avião pela primeira vez.
Ainda distante e absorto em meu espanto, tentei dar-lhe alguma forma familiar, como quem possuísse o poder de decifrá-la e assim manter o controle sobre o que não conhece – uma relação, um símbolo, qualquer coisa para saciar um instinto tão primitivo. Em vão. Antes mesmo de começar eu já estava em desvantagem. Ao invés de achar coelhos, corações e personagens animados, tal qual enxergam a maioria das pessoas, minhas nuvens quase sempre se assemelham a punhais, lágrimas e dragões, algo bem mais espirituoso. Esta não se parecia com coisa alguma, era mesmo um enigma. Devia ser apenas nuvem, tão perfeita que beirava o inconcebível, um tipo que só existe nos sonhos dos quais nos esquecemos.
Nuvens são bailarinas de um balé despreocupado, invertebrados que se arrastam suaves, ao acaso. Assumem formas impossíveis, a estética entregue ao caos e à sua teoria. São passatempos dos ventos, que com elas brincam. Encobrem o sol em brasa, suicidas, para então serem derretidas. Artes sazonais, caprichosas, instantes únicos em toda eternidade, que não ficam mais um dia, às vezes nem mais um minuto, para que possamos admirá-las. Mas esta eu quase podia tocar, quase podia sentir o cheiro doce, úmido, no instante em que eu me aproximei, com a água à altura do peito, esticando os braços um tanto acanhado para tentar tocá-la. Tão perto e tão longe. Jamais saberei explicar o medo pueril que me fez voltar para a areia naquele instante. Preferi sentar à beira do mar e apreciar ao longe o espetáculo que não poderia ser apenas meu, pobre plebeu em uma festa.
Passado o choque inicial, ocorreu-me a curiosidade de saber se o deslumbramento que me invadia era coletivo, se estaria sendo compartilhado por todos os que estavam naquela porção de praia ou nas janelas dos prédios da orla em dado instante. Olhei ao redor e voltei novamente minhas atenções para a nuvem, um pouco decepcionado; À minha direita, um vendedor ambulante de cangas também mantinha o olhar vidrado naquela nuvem. Logo atrás, um casal de namorados fazia o mesmo. Ninguém mais. Todos os outros freqüentadores permaneciam imersos em seus universos pessoais, atarefados com suas conversas, corridas, jogos de frescobol, filas para o chuveiro e o carrinho da caipirinha, ou simplesmente sentindo o Sol aquecendo seus corpos. Os únicos que realmente compartilhavam o momento éramos nós quatro, sem trocar uma única palavra, apenas olhares de cumplicidade mútua, representando o conhecimento de que aquilo haveria de ser algo realmente especial, único, e qualquer tentativa de exprimir em palavras era vã. Só fez-se quebrar o silêncio quando o vendedor juntou suas coisas e, pronto para deixar a praia, balbuciou: “Apareceu do nada!”.
E foi assim que algo que eu julgava ser praticamente impossível, arranhando até mesmo meu pensamento cartesiano, causava uma reação ainda mais impressiva, tamanha apatia generalizada. A nuvem permanecia voando baixo em sua profusão de absurdo, e estava ali apenas para aqueles que se permitiam acreditar. Mas qual o quê, preocupados com seus próprios umbigos ou simplesmente negando o deslumbre diante da impossibilidade dos fatos, os presentes só tomaram a nuvem como objeto de polêmica e atenção quando esta, sem mais nem menos, saiu do mar e invadiu a porção de areia que todos ocupavam.
Ouvi pessoas jurando se tratar de uma nuvem tóxica, obra de gente má. Ouvi queixas sobre a poluição e o tal efeito estufa. Ouvi um homem tentando desmistificar sua beleza, lhe conferindo todo o tipo de explicações banais e absurdas. Mas nada comparado ao espetáculo de maledicências das pessoas que amaldiçoavam seus mitos e sortes por uma nuvem tão inconveniente como aquela ter se postado diante do Sol que as bronzeava. Era o fim de um encanto que nunca existiu.
Dizem que a nuvem ainda choveu, causando um pequeno alvoroço e mais depreciação. Dizem até que da mesma forma que ela surgiu, “do nada”, também desapareceu, sem deixar rastro, repercutindo como uma aberração inexplicavelmente ameaçadora. Mas eu já estava a metros, metros de distância. Na manhã de 16 de março de 2004 eu abandonei a praia do José Menino mais cedo do que gostaria. Antevendo o triste e inevitável fim, deixei minha nuvem a mercê de toda aquela gente e voltei para casa. Para que na memória ela permanecesse eterna, ainda bela. E verdadeira.
Terça-feira, Março 23, 2004
Em tempos de terror, os oportunos e intensos versos de Carlos Machado.
Homem-Bomba
Em que pensa o homem-bomba no exato momento de soltar o pino e estancar o tempo?
Em que pensa o homem-bomba na hora imensa em que o sangue se adensa e todos os sóis, e todos os poros, e todas as luas do universo projetam forças vorazes de gravitação na explosiva nave de seu coração?
Em que veia-cava o medo crava seus tentáculos?
Em qual infinitésimo de segundo a mão trêmula avança para o pino e vence a inércia do ser vivo que deseja permanecer semente, não de idéias, mas de carne viva?
Quinta-feira, Março 18, 2004
Histórias para a hora de dormir
A sensação é inerente ao ser pensante, a atitude é genérica do tolo. Uma pessoa que costuma remoer seus problemas antes de dormir, é mestre em inventar subterfúgios que adiem o máximo possível “aquele momento”, a hora de deitar na cama e se entregar a um sono que nunca chega. Falo com conhecimento de causa, ponto final. Não é uma constância, não é insônia. É algo que merece bem mais que um post para ser explicado, coisas das quais eu nunca vou estar disposto a falar. Um erro intermitente da alma, foda-se.
Primeiro achei que escrever pudesse ser um acalanto para essa inquietação. Além de sossegar o espírito, caçar letras madrugada adentro costuma ser um convite irresistível ao sono. Mas meu sangue é ibérico, meu cacoete é a autodestruição sentimental. Expressar em palavras qualquer resquício de autocomiseração é algo que eu não admito, embora também não seja o meu forte transpirar positivismo e perseverança nos textos que eu escrevo. E isso não pode ser bom. Não em momentos como esse.
Depois pensei que eu poderia muito bem me dedicar a leituras diversas (blogs e livros como preferidos), em doses cavalares, até que os olhos cerrem. Mas pensar demais é perigoso, alimenta indiscriminadamente um monstro que, àquela altura, já está farto e próspero. E não fosse a essência que me agrada... Começou com um livro chamado “Coração de Vidro”, indicado na 6º série, e foi sacramentado com a terrível morte da cadelinha Baleia em “Vidas Secas”. E aí, amigos, não há Veríssimo que faça minha cabeça atualmente. Fui contaminado para sempre com esse masoquismo literário, deixando as comédias (que eu adoro) e temas amenos para todas as outras mídias. Sem contar a, depois de tudo, óbvia aversão por livros de auto-ajuda. No momento leio “Crime e Castigo” enquanto cantam os pássaros.
Eis que, então, eu chego ao motivo que me leva a optar, quase sempre, pela famigerada televisão. Ela, que proporciona um estado de desfalecimento irracional, de irresistível torpor, nem sempre pode ser conotada como algo maligno (tal qual diriam os crentes há alguns anos atrás, antes de ganharem os seus próprios programas de TV). Não neste caso. Esvaziar a mente até que o Pluto – puxando um carrinho de pedreiro e trazendo um chapéu de chinês na cabeça – jogue areia em meus olhos, é uma verdadeira benção. Em dias como estes é tudo o que eu preciso. Até que ontem...
Liguei a televisão no meio da madrugada e cheguei perto de descobrir o limite das alcalinas do controle remoto. Por um triz. Já estava clareando o dia quando começou a ser exibido o documentário que me fez largar o objeto de compulsão sobre a mesa. Era algo sobre os 10 monumentos mais importantes do mundo, no History Channel. Ta certo, a idéia não é das mais originais, mas funcionaria enquanto eu precisasse que funcionasse. Na medida em que eu saciava minha curiosidade, um corpo implorando por sono aguardava apenas os créditos finais. Eficiente como sempre. Ou quase.
Quando o programa abordou a Torre Eiffel, o 2º monumento do ranking montado pelo canal, um repórter foi entrevistar o tataraneto do idealizador, arquiteto, engenheiro e até mestre-de-obras do projeto, Gustave Eiffel. Aqui cabe um adentro: antigamente era comum haver homens que realizavam grandes façanhas praticamente sozinhos, em diversas áreas, característica que perdeu força com a Revolução Industrial. Sobre o rapaz, um jovem advogado beirando os 30 anos, pareceu-me ser alguém que trata como fardo o fato de carregar o sobrenome Eiffel. Seu escritório, propositalmente ou não, localiza-se na própria praça da Torre, e ele vai vivendo seus dias à margem da acachapante edificação de seu tataravô.
Pois bem, em determinado momento, o repórter, com um ar de admiração descartável, perguntou ao francês como é trabalhar com a vista de um legado tão impressionante como a Torre de seu antepassado. Acometido por um raro surto de sinceridade, de uma verdade terrivelmente bela, o homem disparou com olhar triste: —Todas as manhãs, ao chegar neste escritório, eu abro as janelas da minha sala e a Torre pergunta “—E você, vai fazer o quê de sua vida?”.
Desliguei a televisão arrependido por ainda estar acordado. Era tão tarde... A cama, que mesmo àquela altura não estava convidativa ao sono – talvez por ser pequena demais para mim e tantas inquietações – ainda teria de acomodar uma torre só minha.
Segunda-feira, Março 08, 2004
O cara do jornal avisou, "Hoje é o Dia Internacional da Mulher". Dado o ocioso estado em que me encontro, achei ser uma boa vir até aqui, como de praxe, discursar um pouco sobre a relevância de uma data como esta. A praxe se dá porque, ultimamente, só tenho escrito neste blog em datas comemorativas, fenômeno este que possui uma vaga explicação, mas que vocês terão de esperar pela Páscoa para saber (rá, como eu sou engraçado). Não desviando muito do assunto "mulheres" (mas borrado de medo), temo expor detalhadamente minha postura perante o fato, já que uma má interpretação da idéia central poderá gerar polêmica e um certo desconforto por parte das militantes mais ferrenhas. Isso já aconteceu em um post anterior, chamado "Discutindo a discussão da relação". Lembro nesta época ter sido bombardeado com ICQ´s, e-mail´s e comentários pouco elogiosos ou apenas decepcionados com a minha pessoa. Eu não sou machista, sexista, chauvinista ou qualquer outro “ista” com relação às mulheres. Mas se até o diabo possui um advogado, desnecessário de minha parte continuar dando murro em ponta de faca. Tanto é que eu nem vou linkar o post em questão (se você é casca de ferida mesmo, o histórico está à esquerda). Mas hoje estou abrindo uma exceção, e com relação à criação de um dia todo especial para as mulheres, eu, sem um pingo de constrangimento, sou categórico: "Eu acho o Dia Internacional da Mulher um tremendo contra-senso e uma palhaçada inominável". Contra-senso para um mundo que busca igualdade, palhaçada inominável para as mulheres que se julgam suficientes. Eu até poderia me colocar na pele de uma mulher e dizer que, caso fosse uma, não celebraria a data, muito menos mendigaria parabéns dos homens, sob a pena de estar assumindo minha pseudo-minoria (o obscuro auto-preconceito). Diria ser incapaz de lançar mão da minha condição de “ser feminino” para conseguir o meu espaço de “ser humano”, vestindo a camisa do sexo frágil apenas quando me fosse conveniente; Para levar vantagem num mundo onde, por causa desta mesma camisa, teria sido muitas vezes lesada. Também bradaria contra as acéfalas feministas que queimaram sutiãs nas décadas passadas, as mesmas que nunca perceberam que o preconceito inverso causa mais segregação, e hostilizar o que nos aparta é ser uno com o problema. E terminaria mandando o “homem” que criou o Dia Internacional da Mulher enfiar essa esmola no cu!
Mas tudo isso soaria hipócrita de minha parte, ainda mais por eu usar cuecas, não é mesmo? Sendo assim, nada mais justo e honesto que uma mulher diga do que as mulheres devem ser feitas...
O Almoço
(Por Renata Carvalho)
Estava chegando a hora em que seu marido viria para casa almoçar, e então retornaria todos os telefonemas que ela havia atendido, a maioria de acadêmicos chatos e professores de antropologia. Ana então rezaria uma Ave-Maria antes de começar a comer, enquanto ele terminaria de discutir questões profissionais, momentos esses em que ela sentia uma ponta de orgulho por ser casada com homem tão inteligente.
Naturalmente rezaria para si, pois além de não querer atrapalhar o marido, sabia que ele achava que a religião "persistia num contexto de ignorância". Talvez sua lógica de extrema inteligência, aliada à prolixidade, tivesse feito com que Ana se apaixonasse quando ele foi seu professor. Esse mesmo amor a fez escolher o mesmo tema presente na vida dele para sua tese, que, lembra com desconforto, infelizmente não foi aprovada.
Mas quando casaram, ele lhe deu filhos. Ana sempre teve jeito com crianças e sua mãe costumava dizer que ela tinha nascido para isso, até para tentar apaziguar a sensação de imobilidade no tempo, causada pelo rumo que sua vida tomou. E que gerou o comentário maldoso de sua irmã que, se antes a classificava como intelectualóide, agora a considera uma frustrada dona-de-casa. Sabia disso; tinha sensibilidade para sentir essas coisas no ar.
No entanto isso não a atingia, pois conhecia a grande lição que é o movimento da natureza, onde descendência e aliança matrimonial são importantes. Não entendia por que às vezes todos pareciam ser tão intolerantes com ela. A começar pelo marido. Tudo bem que não tivessem casado na igreja, pois na época isso não lhes fazia sentido. Mas ainda queria oficializar a união, e gostaria que ele tivesse respeitado seu desejo inicial de usar alianças, mesmo dizendo que "era um ritual desnecessário para aqueles que conhecem seus papéis sociais".
Muitas vezes Ana se submeteu à sofisticação da vida que ele levava, e reprimiu a sua própria vivência. Através de seus argumentos, ele lhe negava os valores relativos ao amor, à família, à igreja, à humanidade... Tudo era posto em dúvida. Era comum partirem para um bate-boca, que se antes findava com o silêncio em que os dois entravam juntos na penumbra do quarto, agora termina com agressões cada vez mais violentas. Brigam feito cão e gato, e muitas vezes ele virou um selvagem, um não-homem, e a fez se sentir menor do que uma formiga, um inseto. Ele a sacrificava sem piedade.
Dessa vez não teria tempo para rezar antes da refeição, pois precisaria pensar. Pensar sobre como seria a melhor maneira de convencê-lo de que ter um cachorro em casa era quase uma necessidade para as crianças, e aquele que encontraram perdido na rua seria perfeito para alegrar os meninos, muito amigável.
Mas ele provavelmente falaria que ter animais de estimação é uma "atitude primitiva", e que seria o mesmo que comê-los. Ambas as ações são tabus; formas diferentes que o homem tem de lidar com a linguagem. Ela então não vai conseguir não perder a paciência com uma explicação sem nexo para uma questão simples: "Podemos ficar com o cachorro?". Ele dirá que “a zorra do mundo só se resolverá com soluções racionais”, ao que ela, aos berros, vai dizer ironicamente: "Ainda que limitadas". Mas aí ele vai dizer: "O que importa é que sejam as melhores".
Ana já estava antevendo a briga, onde ela provavelmente intercalará gargalhadas com acessos de fúria, onde todo o tipo de insulto virá à tona. E ele, com suas palavrinhas mágicas, a fará desistir de lutar, se retirando da mesa por ter perdido a batalha, com o rosto molhado e vermelho; sentindo-se burra por ter xingado tanto uma pessoa monolítica, sem brechas ou rachaduras, e por ter caído em todas as armadilhas por ele tão ardilosamente armadas.
Sim. Ainda dava tempo de pensar em algo. Dirigiu-se à cozinha onde provavelmente estaria o animal. Talvez fosse melhor não falar nada sobre isso, ainda mais porque o casamento não andava muito bem, isso era óbvio. E de repente, um estalo: ela descobriu o que fazer com o pobre do cachorro.
Foi feliz fazer o almoço.
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Para vocês, mulheres da minha vida ou não, felizes e independentes sejam todos os dias do ano.
Terça-feira, Março 02, 2004
Memórias memórias são
(As luzes se apagam)
É feriado; Uma partida desmotivada; Bexigas para uma festa surpresa; Compulsão quase mórbida por pirulitos; “A Prometida” embalando performances constrangedoras; Mãos imbatíveis em um truco bem jogado; Fumaça de um fogo adolescente, entorpecido, entorpecendo; Alergia e chuva desconhecendo uma trégua; Coldplay para os momentos fáceis; Xixi na varanda e cocô na cozinha; Lágrimas solitárias, apressadas, apertadas; “Fome de quê?”; Cigarros light, marca a gente não diz; Um horrível pijama do Piu-Piu; Novos conceitos se formando, velhos conceitos reforçados; Foto digital; Paintball frustrado; Madrugada ela e eu; Imagem & Ação gerando discórdia generalizada; Brincadeira do copo trazendo o/um fantasma da minha infância; O inesperado pedido de desculpa; Delírios de consumo sobre um Ford GT40, Sexo no chuveiro, sofá e colchonete; Bunda-lelê para o trenzinho; Tráfico na “doçaria”; Vontades reprimidas; Rexona Spray, lança-perfume de pobre; Estórias de espíritos; Lindos presentes inesperados; Sinuca muvucada; Mais lágrimas; Voz e violão; Melhores amigos monopolizando a cozinha; Notícias de casa; “Dinheiro, que dinheiro?”; Distante embriagues, longe Salvador; Músicas para esquecer; Absurdo silêncio; O amor se impondo.
(Interrupção abrupta)
—Ok, nada disso lhes interessa!
(“Fade out”. Corte para outro plano)
É justamente aqui que eu entro com desculpas formais. Não desconheço a banalidade destes fragmentos para um mundo bem maior do que eu suponho; Do que eu me suponho. Tenho a sapiência controversa de ser um tolo evoluído, reconhecendo tais momentos, que falam apenas a doze pessoas, como as sobras de algo muito maior – insignificâncias onde todas as consciências do universo se encontram. Mas há de chegar o dia em que estas pequenas bobagens se tornarão especiais de alguma forma. E eu o que poderia fazer senão isto aqui? Tenho vinte e cinco anos e daqui a outros tantos corro o risco de nem saber mais. Por isso vai lá Vida, embrulhe este rolo de filme em uma caixa de bom tamanho. Nela escreva os dizeres "Viagem com os amigos, Carnaval 2004", e guarde-a em um canto empoeirado qualquer.
(“To be continued”. As luzes se acendem)
Se houver gente por aí que ainda não tenha entendido a necessidade destas palavras, intensidade cabe como uma boa explicação. E se até isso não bastar para que eu seja absolvido, o gran-finale chega à palo seco:
—Eu quero é que este texto torto, feito faca, corte a carne de vocês.
Terça-feira, Dezembro 30, 2003
Sobre um despertar
Sempre achou o termo “reveillon” uma boçalidade. Foi saber, lá pelas tantas da noite, que a palavra, em bom francês, significa "despertar do dia". A televisão transmitia a novidade para um homem inerte em sua cama. Um homem que estava pronto a mandar para o inferno não só os franceses, mas também os brasileiros que insistiam em comemorar o fim-de-ano, a virada, o ano-novo ou coisa que os valha ao lado de seu pequeno apartamento em Copacabana. Era 31 de dezembro e o seu relógio à prova d'água – 100 metros, muito mais do que ele nunca precisou – marcava vinte e três minutos para a meia-noite. Gargalhadas e pequenas histerias, abafadas pelas paredes úmidas de seu quarto, pareciam lhe tirar uma concentração desnecessária. Pensava em todos os nobres desconhecidos que, assim como ele, assistiam o tal “despertar do dia” pela televisão; a parcela da parcela de seguidores do calendário gregoriano que sequer imaginavam um sentido para tamanha euforia. Individualmente o homem até supunha um despertar, mas era algo muito, muito diferente. Precisava acordar do letargo crônico que estacionara seu espírito na companhia de tudo o que é abstrato e medíocre ao mesmo tempo. Sabia disso sem saber, tanto quanto durava imutável condição. Solidão. A porta do partamento permanecia sem trancas, sempre, como se vivesse à espera de alguém; Algo. A porta do quarto, por sua vez, permanecia fechada, a chave, mesmo no absurdo de estar morando sozinho. Lá dentro a penumbra era fraca e o cheiro era forte, impregnava seus dedos amarelos, sua solidão amarela. Acendia um cigarro na brasa quase esvaecida de outro que mal havia fumado por inteiro. Já não se importava em ver as cinzas misturando-se entre o corpo nu e o lençol manchado. Não havia como. O cinzeiro, absolutamente cheio, não era limpo há dias. Muito mais que descaso, o objeto repousava sobre a única fotografia que lhe trazia alguma lembrança boa. Não queria chegar perto, ter de olhá-la. Ainda assim ambos, cinzeiro e fotografia, permaneciam sobre seu criado mudo por algum motivo por ele esquecido, assim como esquecera também a fórmula para chorar. Até isso deixou de funcionar, não mais o livraria da angústia acachapante. A única coisa a prova de tanto esquecimento era a balbúrdia que ecoava das ruas naquele instante. E o homem tentava, com todas as suas forças, abstrair tudo aquilo. Pensou então no peru que sua mãe havia lhe trazido no Natal, fora da geladeira por todos aqueles dias. Não lhe tocou, morreu em vão. Sempre pensava neste tipo de coisa. Morrer em vão. Tinha um medo terrível da morte, o que lhe salvava de atentar contra a própria vida. Faltando onze minutos para a meia-noite ele invejava a todos os suicidas do mundo, sem exceção. Nunca havia lido alguma estatística a respeito dos suicídios de final de ano. Sabia que o índice aumentava nesta época, mas desconhecia pequenos detalhes, por exemplo, se os homens se matam mais que as mulheres; Se a preferência é por enforcamento, pular da janela ou colocar a cabeça no forno; Se o horário de pico é antes ou depois dos fogos e do champanhe. Embalado em tais pensamentos o homem sentia-se sereno, pronto para, finalmente, descansar suas profundas olheiras. Trouxe o braço direito ao peito e repousou a fina mão sobre o coração a fim de sentir seus batimentos. Era quase um ritual quando procurava dormir, como quem precisa lembrar que está vivo. Depois de refletir sobre o acalanto da morte, o alívio necessário por saber-se com vida; ainda. Mas qual o quê, desta feita não conseguia sentir aquele pulsar característico. Tentou de todas as formas perceber um suposto engano, mas sentiu, literalmente, um vazio incontestável em seu peito. Não sabia precisar se era o buzinaço do mundo exterior que lhe impedia escutar o som abafado de suas manifestações cardíacas ou se eram as vibrações da música estridente que emanava do apartamento vizinho, confundindo e camuflando seus próprios batimentos. Certo é que o homem rapidamente sucumbia ao pânico. E do pânico fez-se a insanidade. Destrancou seu quarto e, vencendo com dificuldade os obstáculos cotidianos omitidos pelo breu, pôs-se a descer nove lances de escada, ainda nu, como se a vida lhe escapasse de permeio. Correu com dificuldade, sem saber por onde. Pensou em gritar por uma ajuda, mas a boca seca sentenciava uma morte iminente, sem auxílio. Após muito esforço, alcançou as ruas e misturou-se na multidão que, por sorte de evitar um alvoroço ainda maior por vê-lo naquele estado, olhava para o céu à espera do espetáculo, entoando em uníssono a contagem regressiva. Era o fim. Como se lhe faltasse todo e qualquer ar, o homem caiu exausto nas areias da praia de Copacabana. Pálido, sentiu o corpo inteiro formigar e, logo após, deixou de senti-lo por completo. Cinco. Olhos fechados, pensava em sua infância e o dia em que levou alguns pontos no joelho por cair de bicicleta. Quatro. Riu de si e do Brasil ao mesmo tempo, a morrer, a morrer... Três. Ironizou sua condição e sentiu-se feliz por partir daquela forma. Imaginou sua foto na primeira página dos primeiros jornais de um novo ano. Seria lembrado. Dois. Mas faltou tanta coisa. Ficaria mesmo sem se desculpar por suas mentiras. Um. Medo, muito medo. Medo. Zero. O céu foi rasgado por teias e rastros multicoloridos e o espaço tomado por um barulho ensurdecedor, interrompendo violentamente o silêncio que lhe fazia prece. No corpo inerte do homem, involuntariamente, estouros longínquos vibravam seus tímpanos e lhe impedia desaparecer. Pulsando. Pulsando. Ouvia, sentia. Pulsando. Pulsando. Estampidos estridentes, sincronizando sua existência. Batimentos ritmados. Pulsando. Pulsando. Sentiu a face ruborizar, era qualquer coisa retornando. Abriu os olhos com dificuldade. Olhou para o céu e assistiu um caleidoscópio de velhas esperanças se acenderem, alimentando um coração quase morto, pulsando ao som dos fogos de Ano Novo. Chorou. Finalmente, triste como nenhum outro ser já esteve, o homem chorou. Triste, mas sentindo; vivo, enfim. Naquele momento era só o que ele era, vivo. Lutando por ser, não apenas por estar. Pulsando. Levantou-se e enxugou suas lágrimas. Olhou para o céu uma última vez e foi embora, não sem antes ter o melhor reveillon de sua vida.
Terça-feira, Dezembro 23, 2003
Carta
Das infindáveis preciosidades que são deixadas ao longo do caminho conforme crescemos, a ilusão sobre o Natal é das mais significativas quando tento catalogar minhas grandes perdas. E tanto é a perda que eu mal consigo contar o tempo passado desde que a data se tornou irrelevante para mover minha vida adiante. Se nos últimos anos ela ao menos servia como divisora de águas, agora nem isso – uma porção que parece caber em uma pequena bacia. Das coisas que eu posso ter certeza, essa ilusão, assim como qualquer outra, é algo inerente ao universo infantil, e aí está uma explicação (não todas) para tamanha apatia com relação ao Natal. Vejam, há tempos deixei de ser um menininho – mesmo insistindo inconscientemente que isso não é verdade – e coisas como enfeitar a janela da sala com luzes de mil cruzeiros ou abrir caixas de Playmobil embaixo da árvore já não fazem mais parte das ansiedades “findeanísticas”. Hoje meus brinquedos custam caro e, se não estou com saúde para uma overdose de capitalismo, sobraria então, política ou espiritualmente correto (dependendo da classe social), lembrar que esta data representa o nascimento de Cristo. Católico, xintoísta ou macumbeiro, é de bom senso não jogar o fato para escanteio, acreditando ou não, concordando ou não. É isso aí e ponto final. Mas como bom agnóstico (não confundir com ateu), eu fico no meio-de-campo, fazendo embaixadinhas até o segundo tempo terminar.
Que não venham me dizer se tratar de um período de renovação... De discurso auto-ajuda eu estou cheio. Pensando no Natal que se aproxima, é somente mais um 25 de dezembro, daqueles que eu mal vi chegar e, antes mesmo que dê conta, terá ido embora. Trabalho, prazos, dinheiro, contas, e a vida que segue o seu rumo, acalentando malditos sonhos impossíveis com a “quase” infalível esperança pueril, tão fina e frágil quanto os fios brancos da barba do Papai Noel; tão fácil e óbvia quanto os motivos que nos fazem crer que, neste Natal, neste sim, as coisas vão melhorar. Esperança. Um belo dia ela parte, se esgota. Quebra-se o espírito de uma pessoa até que ela escreva o parágrafo acima. Ou, em outro belo dia, sem saber por quê, escreve-se uma carta.
Cartinhas. Assim como as ilusões, estas também são coisas de criança. Mas existe uma em especial que, posso assegurar, foi realmente inevitável. Uma carta para salvar o Natal, para gostar do Natal com a mesma intensidade com que as crianças gostam. Sobre tal, o fato é irrevogável: crianças sadias escrevem cartinhas. O jornal da última madrugada não me deixa mentir – uma reportagem “tapa-buracos”, repleta de crianças gorduchas, criadas com Neston, mostrando diversos depoimentos sobre a arte da extorsão via correio. Todas elas escrevem algumas linhas nesta época. Botam lá no envelope “Pólo Norte” e aguardam aflitas para que seus anseios sejam atendidos. Ponho-me a imaginar o que os pais fazem destas cartas após serem lidas (o início da violação de privacidade “necessária”). Será que minha mãe guardou algumas delas no seu caixote de recordações sobre minha infância? Haverá algum papel amarelado, com estrelas cadentes desenhadas, fazendo companhia para aquele toco de cordão umbilical podre? Creio que não. Aliás, não mesmo. Acabei dando conta que eu, justo eu, nunca havia escrito uma. Não sei se a tradição varia de um lar para outro ou se foi a Dona Idalina que não me incentivava para tal, mas confesso que nunca fiz nem mesmo um rascunho mal-acabado contendo a wishlist da época. Pensando bem, eu simplesmente não posso encarar o fato com total estranheza. Lembro com perfeição do período em que nutria um pavor absurdo quando o assunto era fazer redações para o colégio ou ler os grandes mestres da literatura infanto-juvenil nos livros da editora Ática (maldito Escaravelho do Diabo). Mas os deuses têm um senso de humor incrível, e hoje, ironicamente, faço das palavras um alicerce. A vida é mesmo uma drogada incorrigível.
Clichê por clichê, nunca é tarde para começar, e ainda ontem me propus a escrever tal carta. Só havia um detalhe entre a vontade e a realização: não saber a quem endereçar o envelope. No canto direito do ringue, Papai Noel, no esquerdo, Deus. O primeiro é cobra velha, marqueteiro que só engana crianças e abastados. De lapso Deus me pareceu uma escolha óbvia, mas, assim como o bom velhinho, Ele também poderia ser um instrumento manipulador de massas criado pelo próprio homem. Saber que a fase de acreditar em Papai Noel já passou é apenas o óbvio. Citando Garotos Podres, “aquele porco capitalista, presenteia os ricos, cospe nos pobres”. Mas daí eu me pergunto se a fase de acreditar em Deus, também já passou. Entre tantos outros questionamentos que eu me faço, confesso ser este o mais difícil. Então lá estava eu, às vésperas do Natal, mais uma vez hesitante, esperando ter uma conversa de criador para criatura.
Na varanda do terceiro andar do prédio onde moro, cada cigarro fumado por mim representava uma angústia. Obviedades como por que esquecemos que o Natal, antes de ser um delírio consumista, é uma data carregada de símbolos para aqueles que acreditam. Tentar entender porque vou ter uma ceia farta e feliz com minha família reunida à mesa, de modo que no dia seguinte haverá gente faminta chafurdando algum lixão para se alimentar do que sobrou. Juro que às vezes eu não entendo esse Cara. Enquanto isso, no prédio em frente, o velho Noel permanecia lá, dependurado tal qual um macaco em uma grande árvore de Natal, servindo como adorno pomposo para moradores orgulhosos. Estava sorridente, olhando fixamente em meus olhos, com respostas simples, mas tentadoras. Logo percebi que naquela madrugada poderia estar acontecendo o maior duelo fundamentalista que os dois grandes ícones do Natal já travaram algum dia: A fatídica disputa pela minha carta, pela minha simpatia. E o barrigudo continuava ali, me encarando de uma forma tão voraz e certeira que por um breve instante senti-me na obrigação de desviar os olhos para o céu e dar um ultimato: “E Você, não vai fazer nada? Toda essa porra aqui em baixo é tua, viu? Não vem querer bancar o desentendido! Entre o Céu e a Terra, religião ou capitalismo, fé ou dinheiro, Você divindade ou nós homens, de quem é a culpa? Em quem devo acreditar?”.
Então, subitamente, antes mesmo que a dúvida viesse de encalço para nunca mais partir, algo estranho aconteceu. Olhei pro céu e aspirei profundamente o cheiro daquela manhã de segunda-feira. O que havia de especial nela? O que me mantivera acordado velando o sono dos que amo durante toda a madrugada? Quem estaria disposto a responder qual o sentido daquilo tudo? De uma forma ou de outra, me dei conta que estava procurando por algo que seria a própria resposta, e todas as minhas dúvidas passaram devagar, como as primeiras nuvens que se dissipavam no céu alaranjado. Repentinamente senti-me pequeno, mas intensamente vivo, com uma urgência doida de ficar olhando toda a cinzenta cidade acordando, quietos e imersos em seus universos pessoais, tão grandes quanto o meu próprio. Como quem não se sente mais sozinho em um mar de interrogações, fiquei em paz com tudo aquilo, sereno e confortável por estar vivo, sentindo-me parte de uma grande conspiração que incluía até os seres mais duvidosos como eu. E todas as incertezas deixaram de ser cabíveis, e todas as respostas pareciam desnecessárias, ao menos naquele instante. Assim como o amor e o ódio podem ou não mover minha vida sem que eu os veja, apenas sentindo, eu contemplei minutos tão raros quanto intensos, sem provas, sem rastros, sem me importar.
Imediatamente peguei lápis e papel – nada de computador desta vez – e comecei a escrever a bendita (ótima essa) cartinha, a primeira para um destinatário tão influente. Exercitando o lado bizarro de uma descrença crônica e também minha sofrível letra bastão, em poucas palavras expliquei tudo o que eu amava e tudo o que eu odiava em sua criação. Entre reclamações e elogios, preferi deixar as grandes questões do Universo de lado. Não iria aborrecê-lo com isso (ele nunca responderia mesmo). No lugar do trivial, agradeci por eu ser quem eu sou, mas reclamei por não ter nascido com o dom de compor do Neil Young ou a poesia do Jim Morrison e, ainda na área musical, quis saber se algum dia eu chegarei a tocar guitarra como David Gilmor. Perguntei também porque os meus amores são (eram) tão errados e se a Angelina Jolie se empolgaria se eu lhe escrevesse uma carta também. Em um pequeno post scriptum desejei feliz aniversário ao seu filho mais ilustre e, por fim, ainda sobrou tempo para uma última pergunta: “Anjos da Guarda existem? To precisando de um...”. Dobrei o papel cuidadosamente e guardei-o dentro do envelope onde escrevi “p/ Deus – End: Céu”. Achei que isso bastaria. Quanto ao remetente, preferi deixar em branco, afinal ele é onisciente. A única dúvida era como eu faria para que a carta chegasse até sua caixa postal. Não queria passar por ridículo entrando em uma agência de correios e, mesmo que fosse possível, sairia muito dispendioso. Imagine quantos selos seriam necessários para que a carta fosse entregue em seu destino...
Da noite fez-se o dia e eu ainda na varanda, fumando o último cigarro do maço na dúvida sobre o que fazer com o envelope. De repente, observando a fumaça sair lenta da minha boca, subindo indefinidamente – o que me faz acreditar que Deus é um fumante passivo – eu tive uma idéia. Tirei o isqueiro do bolso e achei por bem queimar a carta. É claro que todas as letrinhas se transformariam em fumaça e chegariam até Ele. E assim foi feito. Curioso é que enquanto a fumaça subia calmamente em direção do céu, algo muito curioso aconteceu... Que os físicos e químicos expliquem o fenômeno: a carta queimou por completo e não sobrou cinza alguma. Tudo virou fumaça, dissipando-se pro alto. Estranho. Um pequeno milagre? Um sinal? Não sei dizer. Mas duvido que Deus não tenha recebido minha carta.
Eu continuo por aqui, a espera de uma resposta.
Sexta-feira, Outubro 24, 2003
Velho de pijama no bar
Estou inquieto. Após meses de uma espera apática, eis que me surge um novo emprego, em São Paulo, que tirará de mim o ócio criativo e as tardes serenas. Voltemos à velha rotina de despertador, ônibus fretado e almoço por quilo. A Rodovia Imigrantes, que separa Santos da capital do estado, terá mais uma vez minha companhia diária. Sem ode à vagabundagem, admito, veio em boa hora. Mas eu fico assim, meio sem sentir. É agora, neste instante, que eu devo decidir pra onde ir? Que eu devo acontecer? Me espera... Não quero riqueza, fama, glória ou sabedoria máxima. Jamais pensei em receber salário em dólar ou fazer parte da alta diretoria. Poder? Nunca me atraiu. Quero rir e, de certa forma, ter com que pagar. Da mesma forma escrevo por aqui, manso. Não pretendo uma autobiografia e nem mesmo minhas memórias póstumas. Vida despretensiosa, sim.
Existem pessoas que enxergam a felicidade como um fim, e não como um meio – o mais importante. Há também aquelas que são felizes hoje, e se arrependem por um amanhã tão mal planejado, tão errado. Eu sigo um meio termo de dar dó, mais ou menos feliz aqui para ser mais ou menos feliz ali. Hoje e amanhã... Nas palavras de Marcelo Camelo, “vivendo devagar pra não faltar amor”.
Deve ser bem por isso que eu me lembro – e invejo – o velho que ia de pijama ao bar do meu pai. Não sei onde ele está, nunca mais o vi. Mas, para mim, o velho que ia de pijama ao bar representa o único modelo de felicidade completa.
Ir ao bar é bom. Colocar pijama é bom. Mas, por motivos ainda misteriosos, instituíram que é condenável ir de pijama ao bar. O velho, porém, estava acima destes regulamentos estúpidos.
Morava na pensão ao lado do boteco. Provavelmente era sozinho na vida. Às seis horas da tarde abria a porta da pensão, dava quinze passos e sentava-se a uma das mesas de metal do bar – na verdade, um estabelecimento muito simples, daqueles que tinham torresmos na estufa e uma máquina de pinball que engolia fichas.
De pijama, pedia uma cerveja, que lhe era prontamente servida. Bebia em paz e solidão. Não o incomodavam, e ele não incomodava ninguém. Depois de algumas cervas, voltava para a pensão.
O pijama era velho como o velho. De flanela, com detalhes azuis: uma segunda pele. Estava sempre limpo, o pijama – um fato estranho; desconfio que o velho tivesse dois ou três modelos iguais. Ah, e também havia as sandálias franciscanas, com uma quilometragem que possivelmente superava o Trópico de Capricórnio.
A tarde caía e as pessoas que deixavam o trabalho passavam pelo bar. No canto, à sua mesa predileta, o velho bebia o líquido amarelo com bastante espuma. Às vezes, novos clientes o olhavam com estranheza. Mas logo se acostumavam. Nós estávamos lá, vestidos e munidos com a roupa da vida cotidiana: camisas, calças, sapatos, cintos, cuecas, blusas, lenços, carteiras, isqueiros, pastas, agendas. Falávamos de tanta coisa: trabalho, política, esporte, religião, sexo, música, literatura, piadas. O velho, não. Jamais ouvi uma palavra de sua boca. Ele vivia no silêncio completo de um tempo que não era tempo: sua vida era sono, espuma, solidão e memória. Um leve sorriso, uma certeza serena do mais simples. O conhecimento do elementar.
Um dia meu pai vendeu o bar, que foi demolido para em seu lugar erguerem um armazém do cais do porto. Na mesma época a pensão fechou as portas e nunca mais tive notícias do velho, do seu pijama e das sandálias franciscanas.
É por isso que eu não quero sair daqui, meus amigos. Tenho medo. Não quero sair desta casa, desta cidade, deste pijama, deste boteco de palavras, deste silêncio. Recuso-me a sair deste post.
Por hora, eis a minha única ambição: ficar para não desaparecer.
Quarta-feira, Outubro 22, 2003
Post vaidoso
É isso aí. Por um comentário feito por Dona Lupa, no post abaixo, fiquei sabendo que o Cartesiano é top 5 no site BlogList, o tipo de coisa que sempre passa despercebida caso não se faça uma visita regular ao endereço em questão. Surpresa! Fazendo parte da turma dos descrentes, me espanta o fato de haver realmente um responsável disposto a ler os mais de cinco mil blogs cadastrados. Após esta ligeira, porém agradável, estranheza, não pude deixar de ficar bastante feliz com indicação. Grande merda, eu sei, no máximo haverão mais algumas visitas. Mas é o reconhecimento que conta. Não que a modéstia não seja uma das minhas virtudes, pelo contrário. Nunca julguei este endereço um primor, mas faço o possível para deixar este lugar sempre "ajeitadinho". Não há dono de blog no mundo que não queira ter seus textos e idéias compartilhadas com outras pessoas (se há, é muita incoerência), e daí a buscar identificação e um certo tipo de admiração é um passo curto e inevitável. Vaidade, né? Que se dane... O sentimento sempre ganha ares pejorativos de quem desconhece o momento certo de se envaidecer.
Há um momento.
Obrigado ao pessoal do BlogList e à todos que seguem lendo, comentando, adorando ou odiando minhas palavras. O Cartesiano continua...
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