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Desconstruindo certezas e abraçando dúvidas.


segunda-feira, julho 28, 2003

Estimados leitores desse Blog, venho informar-lhes que durante os próximos três dias estarei fazendo uma pequena viagem, mais precisamente para Riviera de São Lourenço (litoral norte de São Paulo), e o site não poderá ser atualizado como gostaria. Mas sabem como é, preciso esvaziar a cabeça e o saco (ops!), mesmo que para isso tenha que esvaziar o bolso também. Ainda assim não há com que se preocupar! Logo estarei voltando com mais revelações, egotrips, cotidiano, promoções, um Corsa 0Km e fotos da Daniela Cicarelli pelada. Até lá, deixo um texto relacionado a uma viagem. Na verdade é uma idéia um tanto infame (vou viajar e coloco um texto de viagem... dã), mas tudo bem. Devia ter meus 19 anos e escrevi boa parte dentro de um ônibus. Só tenho medo de, agora com 25, ser mal compreendido. Quem já leu "O Apanhador no Campo de Centeio" (The Catcher in The Rye), do maluquete introspectivo Salinger, conseguirá compreender melhor o porque desse tom crítico e coloquial que permeia durante toda narrativa. Entendendo se tratar de uma brincadeira baseada no livro (mesmo transpirando verdade), o texto ganha um sentido muito maior. Quem diria... agora para ler esta porra de Blog são necessárias referências literárias. Ê Fabio...

Coxinha de Rodoviária

Estava na rodoviária para pegar o ônibus das 7 horas, mas não havia mais passagens. Só para 9. Tinha duas horas de espera pela frente e uma viagem de volta com quase meio dia de duração. Resolvi comprar um livro. "O Apanhador no Campo de Centeio". Sempre achei que esse livro devia ser sobre algo como colheita, gente do campo, sei lá. Um livro de época, cheio de sofrimento. Acho que eu confundia esse livro com um outro que parece ter um corvo que come os olhos de uma pessoa. Mas não é nada disso, não. É um livro bem legal. Quando criança eu o via na estante da minha casa (antes do seu sumiço) e pensava se tratar de um "clássico". Os adultos não entendem que quando dizem a uma criança que um livro é clássico, estão matando qualquer interesse que ela possa ter. Ou lindo. Eu lá vou querer ler um livro lindo? Não quero saber de coisas clássicas nem lindas, quero saber do que me deixa interessado. Acho que algum dia vou escrever um livro bem legal e colocar um nome bem banal. Nada contra títulos espertos (os óbvios demais me irritam profundamente), mas a gente sempre quer colocar o nome mais inteligente possível, e tem sempre medo de que fique besta. Pois eu vou colocar um bem besta. Ou então escrevo uma droga de livro e ponho um puta nome. É isso o que quase todo mundo faz. Com o “Apanhador”, só a viagem dirá.

Na hora de pagar, uma senhora passou na minha frente, achando que eu não perceberia. Até fingi descaso, porque ela era feia demais e gente feia sempre está com pressa. Ela comprou um livro de auto-ajuda. Coitada... Sempre fico com pena de quem compra esses livros. Sei que não devia, mas fico. Na verdade fico com raiva da sociedade que faz alguém comprar esses livros. Seus escritores e seus leitores. Estes estão tão aparvalhados com a vida que se sentem atraídos por aqueles, gente obcecada com o sucesso, preocupados em serem vencedores, não percebem os chatos que são, com suas fórmulas, mandamentos, atitudes positivas e toda essa droga. Quando não é óbvio é só chato. Eu percebi que tava ficando amargo e dei o fora.

Sentei ao lado de um velhinho. Fiquei na dúvida em puxar papo com ele, afinal é um lance deveras arriscado. Ainda mais com gente velha, que se acha tão interessante, tão conhecedora das coisas. Adoram nos contar o que faziam com nossa idade. Ou então os problemas do filho/sobrinho/neto, que se parece um pouco conosco, ou então não se parece nada conosco, e é um ótimo rapaz, ou está com muitos problemas. Mas não teve como evitar o inevitável. Encostei o livro e paguei por isso. Me deu vontade de falar “Meu chapa, eu também não gosto de ficar aqui esperando sem ter o que fazer e sem nenhum amigo, mas não precisamos aumentar nossa depressão incomodando um aos outro com essas estórias. Não tá vendo que eu tô com um livro na mão?” É claro que ele tava vendo que eu tinha um livro na mão. Mas acha que isso era problema? O mais chato era ter de prestar atenção e ficar balançando a cabeça automaticamente a cada quinze segundos para concordar com cada bobagem. Ele não estava nem conversando, não estava nem aí para mim. Só ia falando, falando, falando. Como se eu precisasse muito de seus valiosos conselhos e sua perfeita visão de mundo, onde é legal sentar ao lado de alguém e aporrinhá-lo com um falatório sem fim. Eu sei que pode ser apenas aquela solidão da terceira idade, mas é chato de todo jeito. É chato com quem não se conhece. Adoro conversar com meus avós, por exemplo. Adoro! Alí sim, estão minhas referências. Bem, pedi licença pra ir ao banheiro e fui sentar do outro lado. Ele ficou meio triste, mas o que vou fazer? Ele logo iria aporrinhar outra pessoa mesmo. Dessa vez sentei num lugar sem ninguém a menos de três cadeiras, até para não cair em tentação, e fiquei lendo sossegado.

Parei um pouco e levantei a cabeça sobre o livro, a visão um pouco desfocada. Que grande figura esse Holden Caulfield. Sujeito simpático. Eu já tinha lido mais de 50 páginas. Gosto de parar de ler às vezes para fazer outra coisa. Tipo comer algo. Aproveitei pra comprar uma coxinha. Eu sei que frituras suspeitas fazem mal e ainda por cima nem tinha tanta fome, mas podia ficar faminto mais tarde. Coxinhas de rodoviária são para mim como pessoas ocasionais: Porcarias deliciosamente inevitáveis. Não fui no banheiro, deixei pra ir em cima da hora. Voltei a sentar no lugar de antes, o velho tinha ido embora. Por que será que eles colocam o pior tipo possível de cadeira nas salas de espera? Era de plástico, uma bela porcaria, não dava pra encostar as costas nem nada. No lugar do velho de antes estava uma mulher de uns trinta anos. Bem bonita. Bem melhor. Aí até que um pouco de papo já vale mais a pena. Mas em lugares como esse só se conversa coisa sem graça, pra matar o tempo. Muito melhor ler o livro. Mas aquela mulher...

Minha relação com essa coisa de conversar é bem estranha. Tenho consciência de ser um bom conversador, mas papo furado me enche o saco. Também não gosto muito de conversas sérias. Gente tentando mostrar que é inteligente me irrita muito. Normalmente pegam no seu braço pra falar, dizem o óbvio como se fosse algo importante e sempre saem com frases feitas e provérbios disfarçados. Quanto mais cretina uma pessoa, mais ela gosta de provérbios, conversas “sérias” e frases definitivas. Eu levo a idéia “só sei que nada sei” muito a sério para poder ter opinião formada sobre algo. Não que eu odeie os provérbios, até que tem uns legais. O chato é que as coisas realmente importantes são tão simples que nem vale a pena falar delas (a não ser para os idiotas, que adoram dizer que o “importante é ser feliz” e coisas assim). Não é que eu não goste de falar sério, não. Eu falo sério todo dia. Mas prefiro muito mais fazer graça. O humor consegue ser sério sem ser chato. Pelo tipo de humor pode se conhecer uma pessoa. Os idiotas não gostam de rir de si mesmos, se ofendem, acham o riso uma coisa boba, acham que as pessoas inteligentes devem estar sempre preocupadas com problemas existenciais ou algo assim. Ou então ficam rindo das coisas mais cretinas. Como isso me deixa cansado.

Eis que, sem que eu movesse uma palha, a tal mulher resolveu puxar papo também. Não era tão chata quanto o velho e tinha uma gracinha de boca. Estava indo para o mesmo lugar que eu. Conversamos bastante, até. Fiz um esforço para não ser muito lacônico e fazer o que todos esperam que se faça em uma conversa animada. Ela me contou o que estava estudando e o que pensava em fazer, mas não daquele jeito irritante de quem se acha brilhante. Ela estava sendo sincera, dava pra ver nos seus olhos. Mas não perguntou o que eu fazia. Não porque não me achasse interessante. Foi porque ela estava mesmo preocupada consigo e queria apenas falar. Eu não ligo que não perguntem de mim, na verdade não gosto muito de falar sobre mim com pessoas que pouco conheço, fico me achando chato, ou acho que estou incomodando. Talvez eu seja autocrítico demais, ao contrário da maioria das pessoas que conversam comigo. Elas nunca se preocupam se estão falando muito, ou se não são tão interessantes quanto poderiam ser.

Enfim, chegou a hora do nosso ônibus. Mas não fomos juntos, não. Ela acabou encontrando um amigo e não precisava mais de mim. Numa boa. Fui ao banheiro e em dois minutos a tinha esquecido. Depois botei a mala no ônibus, sentei e abri o livro, pra ver se o Caulfield tinha alguma coisa pra dizer sobre conversas de rodoviária. Ao meu lado sentou-se um senhor. Não puxou conversa nem nada, apenas reclinou o banco em uma menção de dormir. Mal olhou na minha cara. Pessoas são como coxinhas, pensei. Fechei o livro e perguntei se ele também estava voltando pra Santos.



sexta-feira, julho 25, 2003

Hoje posto a última parte dos “Lamentos descartáveis...”. Lembrando que tudo isso são reliquias achadas enquando botava meu computador em ordem. É uma compilação, e acho que rebatizarei esta trilogia de “Um dia já fui deprimido e hoje quero que tudo se exploda e que meu pau cresça até o céu”. O que acham?


Máquinas (letargia) (4:05)

Máquinas, por hoje minhas únicas companheiras. Som, celular, TV, videogame e computador, tentam me alienar, me afundar ainda mais nessa letargia crônica. Palavra nova no meu paupérrimo vocabulário, só para esnobar. No Aurélio Digital (só podia ser digital):

Verbete: letargia
[Do gr. lethargía, pelo lat. lethargia.]
S. f.
1. Estado patológico observado em diversas afecções do sistema nervoso central, como encefalites, tumores, etc., caracterizado por um sono profundo e duradouro do qual só com dificuldade, e temporariamente, pode o paciente despertar.
2. Estado de insensibilidade característico do transe mediúnico.
3. Fig. Sono profundo.
4. Fig. Desinteresse, indiferença, apatia.
5. Fig. Estado de abatimento moral ou físico; depressão.
6. Falta de ação; inércia, torpor.
7. Vida latente.

[Sin. ger.: letargo.]

Estou parado no tempo, estacionado, congelado. Sem vontade de sair, sem vontade de trabalhar. Mas ficarei bem, acredite. Você não está aqui, mas tenho TV a cabo.


Máquinas II (em off) (4:53)

O celular acabou de tocar, parece que finalmente alguém resolveu dar um sinal de vida. Me ocorreu a óbvia idéia de atendê-lo, mas acabei por desistir. Não quero que ninguém ouça minhas desculpas por não ter saído de casa hoje. Eu ou eles, ninguém precisa realmente disso.

Cem posições na memória desse celular. Cem nomes ocupando cada uma delas. Hoje a noite são como cem fantasmas, todos eles rindo de mim. Outros tantos nomes povoam meu computador, acessíveis a apenas alguns cliques. Estão me desafiando a mostrar-lhes minha secreta fragilidade. Não conseguirão!

Está decidido, até que mude meu estado de espírito não estarei para mais ninguém. Não atenderei telefonemas e muito menos amigos virtuais. Imagine, ser julgado por pessoas que muitas vezes nem conheço? Nenhum sinal analógico vai me ouvir chorar, nenhum sinal digital vai ser complacente, nenhum amontoado de bits apontará o dedo me dizendo o certo ou o errado. Vou permanecer offline, inclusive para a simpatia.


Máquinas III (piloto automático) (05:14)

Está chovendo bastante e, não sei porque, tenho medo de trovão. Pode rir que eu não ligo. Na verdade nem chega a ser um trauma de infância, mas algo sem explicação mesmo. Vi na previsão do tempo que se trata de uma frente fria vinda da Argentina. Despencou a temperatura para 16º C, trouxe vento, trouxe chuva, menos o “sossego” que eu precisava.

Não pensei duas vezes quando disse que você é uma pessoa sem tempo para outras pessoas. Foda-se, aceite isso de uma vez. Pode ser clichê, mas nunca deixará de ser verdade. Veja o meu caso. Uma metamorfose brilha no êxito de me transformar em um robô a cada dia que passa. Viver como quem faz uma oração sem fé, parafraseando Greg Graffin (se você desconhece, shame on you!), já virou uma rotina dentro de outra rotina. Estou no limite.

Engraçado. Sabe que, enquanto escrevo, ondas sonoras chegam para me reconfortar ou mesmo me atordoar. Mais um truque dessas máquinas... O caso é que há alguns minutos estava tocando “Forever Young” no rádio. Sabe aquela musiquinha torpe dos anos 80? "forever young, I wanna be forever young...". Nem sei se o título da música confere (concluí pela insistencia do refrão), e também desconheço nome da banda. Pra falar a verdade isso pouco importa. Apenas não deixa de ser uma ironia. Jovem ou não, eu só queria que essa porra valesse a pena, mesmo acabando amanhã. Do you really wanna be forever?

...

Você ou um pouco de sono? Por hora o que poderia me ajudar mais? Bem, a chuva parou e eu nem tinha percebido, se isso atende qualquer dúvida.

Às 05:34 power off, shut down, boa noite.





quinta-feira, julho 24, 2003

Dando continuidade aos meus achados arqueológicos, deixo com vocês outro fragmento que faz parte da série de textos que eu comentei no último post. Ler coisas como essa, de 3 anos atrás, me fazem compreender porque escrever é tão gratificante. É a prova documentada sobre quem eu fui, e a preciosa dica sobre quem eu quero ser. Algo que nada irá apagar ou mesmo pagar...


Consumo próprio: 6mg (2:07)

Eu devo mesmo estar deprimido só que simplesmente não percebi. Mas isso também é um pouco difícil. Ser deprimido é completamente diferente de estar deprimido, e eu já deveria saber disso faz tempo. São tantas as patologias emocionais com que me acostumei... Já ouviu falar de saudade crônica? Pois é, eu sofro dessa síndorme e tenho consciência disso. Pra falar a verdade eu sinto saudade de tanta coisa... Ultimamente tenho até evitado ver minhas fotos antigas. Por culpa dessa maldita rotina de responsabilidades equivocadas e sentimentos descartáveis, invariavelmente resgatar o passado se torna uma tarefa dolorosa e inevitável. Aposto que reclamar de barriga cheia é o que diriam os “superfelizes” sobre este discurso, afinal, tenho o que comer, tenho onde dormir e tenho coisas supérfulas. Mas não é o suficiente, não mesmo. Preciso de conforto emocional, não somente material. Preciso ter perseverança, não saudade.

Mas não é porque minha veia loser vez por outra fica evidenciada que eu não saiba conviver com isso sem extremar tais sentimentos. Seria um desiquilibrado se assim o fosse. Nunca pensei em me matar por exemplo (imaginar sim, considerar nunca!). Aliás, sou uma pessoa muito divertida e educada. Quando fico triste (o que não é um hobby, fique claro), sofro dobrado por não achar alguém com quem dividir isso. Pegue por exemplo esta noite. Infelizmente nem todos que me cercam entendem que ficar triste faz parte da vida, que ela nem sempre é boa, etc, etc. As pessoas, de um modo geral, temem enfrentar elas próprias os seus medos, aceitar suas limitações. Obviamente porque isso traz insegurança, impotencia, frustração. É normal relutar em encarar a realidade de peito aberto. Da minha parte tento achar a verdade em tudo, porém admito não ser uma tarefa das mais simples. Queria eu ter ao meu lado um exercito de pessoas lúcidas. Mas ser lúcido também pode ser muito, mas muito difícil. Ainda tenho alguns raros amigos com quem celebro a tristeza com glamour muitas vezes. Mas gente que acha que o mundo é ótimo e que nada de errado está acontecendo, tô fora! Prefiro rir das desgraças, saber o que acontece nos quatro cantos do planeta e dividir melancolia de madrugada. Quero ser um romântico que sofre, ler “A Montanha Mágica”, ouvir “Footsteps” e assitir “Imensidão Azul”. Gosto mesmo é de estar num boteco no meio da matina, gritando absurdos inteligentes com amigos que também sabem que a vida não é feita de algodão doce. E no final saber que tudo isso ainda pode ser divertido, enfim!

Na verdade nem sei bem porque estendi tanto este assunto. Apenas vi uma bula de Lexotan (forte calmante e anti-depressivo) perdida na da mesa da cozinha. Minha mãe... Sem julgamentos precipitados, lembrei das pessoas que mascaram seus problemas com uma caixinha de traja preta. Não é o meu caso, esclareço desde já. Faço resistência ao uso de remédios e os tomo apenas em última instância. Porém, paradoxalmente, desenvolvi uma espécie de facínio por esse mundo de drogas quase lícitas. O motivo? Trabalho no CPD de uma rede de drogarias, logo é um assunto muito presente. Aqueles psicotrópicos com nomes absurdos, para doenças que muitas vezes você nunca ouviu falar, e custando o dinheiro que muitas vezes você não pode pagar, são um oasis para a curiosidade. E foi justamente por curiosidade que eu estava lendo a bula. Além do que, qualquer coisa está servindo para fazer o tempo passar mais depressa. Junkies de plantão, aí vão os melhores momentos:

Indicações:
Ansiedade, tensão e outras queixas somáticas ou psicológicas associadas à síndrome de ansiedade. Uso adjuvante no tratamento de ansiedade e agitação associados a transtornos psiquiátricos, como transtornos do humor e esquizofrenia. Os benzodiazepínicos são indicados apenas quando o transtorno submete o indivíduo a extremo desconforto, é grave ou incapacitante. Em doses baixas, Lexotan® (Bromazepam) reduz seletivamente a tensão e a ansiedade; em doses elevadas, tem efeito sedativo e relaxante muscular.

Precauções gerais:
Os benzodiazepínicos não devem ser utilizados isoladamente para tratar depressão ou ansiedade associada à depressão (suicídio pode ser precipitado nesses pacientes). Os benzodiazepínicos não são recomendados para o tratamento primário de transtorno psicótico. O uso de benzodiazepínicos e agentes similares pode levar ao desenvolvimento de dependência física e psicológica desses fármacos. O risco aumenta com a dose e duração do tratamento; também é maior em pacientes predispostos, com história de abuso de álcool ou drogas. Se houver desenvolvimento de dependência, a interrupção do tratamento será acompanhada de sintomas de abstinência. Estes podem consistir em cefaléia, mialgia, extrema ansiedade, tensão, inquietação, confusão mental e irritabilidade. Em casos graves, os sintomas a seguir podem ocorrer: desrealização, despersonalização, hiperacusia, parestesias em extremidades, hipersensibilidade a luz, ruídos ou contato físico, alucinações, convulsões ou amnésia anterógrada.

Reações Adversas:
Lexotan® (Bromazepam) é bem tolerado, em doses terapêuticas. Os seguintes efeitos indesejáveis podem ocorrer: fadiga, sonolência, redução da força muscular, embotamento emocional, redução da atenção, confusão mental, cefaléia, tontura, ataxia ou diplopia. Distúrbios gastrointestinais, alterações da libido e reações cutâneas têm sido relatados ocasionalmente. Depressão preexistente pode se manifestar durante o uso de benzodiazepínicos. Reações paradoxais como inquietação, agitação, agressividade, delírios, pesadelos, alucinações, comportamento inadequado e outros efeitos adversos comportamentais podem ocorrer quando se utilizam benzodiazepínicos ou agentes similares. Como com outros benzodiazepínicos, superdosagem isolada, intencional ou acidental, de Lexotanâ (Bromazepam) raramente acarreta risco de vida, exceto quando associada a outros depressores do sistema nervoso central (incluindo álcool). Superdosagem de benzodiazepínicos em geral se manifesta em graus diversos de depressão, variando da sonolência ao coma. Doses mais elevadas, especialmente associadas a outras substâncias de ação central, podem resultar em ataxia, hipotonia, hipotensão, depressão respiratória, raramente coma e, muito raramente, morte.


Se você leu até o fim, entende porque essas 6 miligramas de paz artificial dentro de cada comprimido não fariam nada por mim além do que eu mesmo poderia fazer. Se é para ganhar uma dependência a mais, seja ela química ou psicológica, eu fico com minha saudade, obrigado! Lamento apenas que ela não acompanhe uma bula...




quarta-feira, julho 23, 2003

Hoje acordei com um pensamento martelando em minha cabeça: sou desorganizado. “Pra caralho” eu diria. Levantando a lista de coisas que preciso botar em ordem, conseguimos passear por assuntos que vão desde as gavetas do meu armário até minha vida propriamente dita. É claro que a pequena “obra literária” de Fabio Loureiro não foge à regra. São textos e mais textos, perdidos em arquivos “txt” por todo meu computador, no fundo dos meus cadernos de faculdade e até em portas de banheiros públicos (isso eu não tenho certeza, mas é clichê).

Na tentativa de começar a me organizar neste aspecto, garimpei o “lado B” de tudo que já descrevi e achei um texto muito interessante, pomposamente chamado por mim de “Lamentos descartáveis para uma noite de chuva – Vol. II” (o volume I se perdeu, claro...). Na verdade é um conjunto de textos, datados de Julho de 2000, que curiosamente funcionam como um ensaio para um Blog: Em noites de insônia, eu passava madrugadas inteiras discorrendo sobre assuntos diversos, dividindo-os apenas pela hora em que eram escritos. Mais curioso ainda é o fato de, na época, eu nem saber direito o que é um Blog. A título de curiosidade, posto aqui o fragmento que mais gosto...


A Montanha (3:47)

Existe um quadro pendurado na parede do meu quarto, um bem antigo, que faz parte da “decoração” desde que nasci. Uma tela já desbotada, retratando um pequeno acampamento de alpinistas no sopé da montanha que surge em segundo plano. Das quatro pessoas que formam o grupo, três estão sentadas em volta de uma fogueira, formando uma pequena roda, enquanto outra, trazendo consigo uma volumosa mochila, permanece em pé, observando a paisagem que o desafia. Gigante acinzentada com o topo alvejado pela neve, imponente e inacessível, a montanha parece ser a única coisa importante na vida daquele obcecado alpinista. Claro que, por uma simples questão de sensibilidade, ele acaba se tornando o personagem que mais desperta a curiosidade de quem observa o quadro. Talvez por estar de costas e ser o único a não revelar o rosto, quem sabe. Mas é desconfortante pensar que durante toda a eternidade aquela pessoa permanecerá ali, estática, contemplando a imponência da montanha como quem se frustra por saber que, não importa o quanto se esforce, jamais vencerá o desafio.

A menos de uma hora eu estava olhando para o tal quadro, relevando tais possibilidades e, porque não, brincando de estar no lugar daquele alpinista. Imagine só, ter que escalar uma montanha como aquela mochila pesando nas costas. Seria bastante trabalhoso. Se eu ainda conseguisse traçar um psicológico positivo para cada um de meus três companheiros, diria que ajuda para alcançar o cume não seria problema. Mas minha incrível percepção desconfiada – sobre tudo e todos – acabou por abrir um leque de possibilidades sobre a boa vontade daquelas pessoas. Senão vejamos... A primeira poderia ser do tipo que nem me conhece, portanto não me ajudaria. A segunda seria aquela que até gostaria de colaborar mas, assim como eu, também carrega sua mochila. A última, mais reconfortante, dividiria o peso comigo e me acompanharia rumo ao topo. Pensando bem, qualquer uma delas serviria para me ajudar nesta noite, juro mesmo. Mas neste momento não existe vida por aqui. Ninguém para dizer "foda-se, se vira!", ninguém para me dar uma desculpa barata, ninguém para ser solidário. Deve até ser por isso que estou escrevendo. O faço geralmente quando me encontro nestas condições. Na verdade nem existe uma montanha para subir, estou apenas no meu quarto. Também não trago uma pesada mochila nas costas. Mas sei que preciso chegar lá, e existe algo que me impede mais do que qualquer fardo.

Não conheço minha montanha, muito menos minha mochila. E em dias como esse, quando meu pensamento percorre rumos incompreensíveis até para eu mesmo, que eu gostaria de ser aquela pessoa feita de tinta óleo.




segunda-feira, julho 21, 2003

Da série "Diálogos Inesquecíveis da Minha Infância"...

(Eu) Tio, me vê um pastel de queijo?
(Tio) Só um minutcho. Vai beber alguma coisa, fio?
(Eu) Vou. Querooooo... um caldo-de-cana!
(Tio) E você?
(Gil) Um pastel de palmito.
(Tio) Vai beber caldo também?
(Gil) Vou. Mas quero o meu bem docinho, tá?



sexta-feira, julho 18, 2003

Ontem de madrugada, enquanto brincava de esconde-esconde com o sono e forrava o buxo com Salgadinhos Torcida, uma grata surpresa foi me dada ao ver que estava passando o clássico filme/documentário dos Beatles, "A Hard Day's Night", no canal a cabo A&E Mundo, intercalado com vários depoimentos de amiguinhos íntimos dos "Fab Four" (que termo tosco).

É bem verdade que eu sempre gostei muito da banda, mas nunca fui um "beatlemaníaco" (e esse então?) obsessivo, do tipo que sabe até a cor da cueca que George Harrison usava no dia em que compôs Here Comes The Sun. Só sei que os caras tocaram o puteiro enquanto puderam, afinal, fumar um baseado em um dos trocentos banheiros do Palácio de Buckingham não é para qualquer um. Acho que nem mesmo o Jim Morrison intoxicado com cogumelos de Matchu-Pitchu teria essa presença de espírito. Mas entre as histórias mais curiosas, a película flagrou um momento impagável no dia em que os "Quatro Rapazes de Liverpool" (parece que temos um vencedor) pisaram nos EUA pela primeira vez. Em uma coletiva que mais parecia as comemorações de 4 de Julho, um jornalista do NY Times levou essa pra casa...

- Como vocês chegaram à América?
- Viramos à esquerda depois da Groenlândia.

Ele ficou com um sorriso amarelo, e eu com um sorriso sujo de salgadinhos entre os dentes.




quinta-feira, julho 17, 2003

Ultra Som

Hoje foi dia de fisioterapia. Rotina. Decorrido um mês da cirurgia que eu sofri na coluna, quando o médico extirpou uma hérnia de disco, algumas séries de alongamentos lombares (cruzes!) e aparelhos específicos são necessários para que eu deixe de sentir essa maldita dor. Então tá.

Entre os passos da via crucis da qual sou submetido diariamente, existe um aparelho chamado ultra-som. Os procedimentos são bem simples. Eu deito de bruços e, após aplicar um gel condutor na região acima do cofrinho, o fisioterapeuta passa no local uma espécie de estetoscópio que emite ondas-curtas com propriedades antiinflamatórias. É mais ou menos o mesmo princípio do forno micro-ondas, agindo de dentro para fora.

Cada seção demora de 15 a 20 minutos, e é claro que trancado em um cubículo com a bunda virada para cima, só você e o fisioterapeuta, uma estranha identificação acaba ocorrendo, diferente do que se ele estivesse cortando o seu cabelo, por exemplo (não vá pensar em putaria, heim!). Imagine estar acompanhado de um completo desconhecido, em um elevador que demora quase vinte minutos para chegar em qualquer destino. Detalhe cabuloso: você está praticamente nu. O que você faria? Relevando a possibilidade de fazer sexo (por motivos diversos que variam de fidelidade, ética profissional e gosto pessoal), conversas sobre fenômenos meteorológicos como o "el ninõ" acabam sendo mais reconfortantes do que fingir que o outro não está ali. O insustentável silêncio é mais incômodo do que prosear superficialidades. Ao menos neste caso.

Voltando a fisioterapia propriamente dita, existe um rodízio de profissionais que estão ali para lhe atender. E não sei se é pura coincidência de horários ou se os hormônios alheios entram em ebulição apenas com minha magrela presença, mas sempre acabo sendo atendido pela mesma pessoa, com raras exceções. Ângela, 36 anos, casada, um filho de 15 e sonhos bem desgastados. De todas pessoas que já me atenderam, facilmente foi com ela que eu mais conversei, vencendo até a barreira do terceiro dia. Sabe como funciona. Na primeira seção é normal conversar sobre a doença em si e o que me levou a adquiri-la. Na segunda eu entrego os detalhes sórdidos da cirurgia. E na terceira... Bem, na terceira... Silêncio. Mais eis que ela foi além, e agora, depois do oitavo dia, discutimos coisas “relevantes” como o “caso Silvio Santos”, a atual situação do Peixão no Campeonato Brasileiro e até seu casamento. Intimidade artificial e passageira, mas intimidade, enfim.

Hoje ela me contou detalhes sobre seu emprego. Sua função era apenas aquela, já que a hierarquia profissional no hospital, principalmente naquela ala, era bastante rígida. Eu já era o seu décimo primeiro paciente do dia, e depois ainda teria mais uns trinta pela frente, em uma jornada de oito horas diárias. Oito horas fazendo apenas aquilo. Na minha cabeça formei um triste panorama sobre sua vida. Era para isso que ela acordava cedo todas as manhãs? Era para tão somente isso que ela passou cinco anos em uma faculdade, fazendo algo que, de certa forma, até um macaco amestrado seria capaz? Não que eu me sentisse superior, nada disso. Mas de repente senti-me confortável com minhas habilidades de programador web, mesmo sendo algo infinitamente menos excitante do que ser um cinegrafista do Discovery Channel, por exemplo. Meu cotidiano profissional costumava ser muito mais desafiador e variado que o entediante e imutável vai-e-vem de um estetoscópio super sônico. “A vida é bem mais do que isso”, e dei o assunto por encerrado.

Mas sempre há um porém, e hoje, ao deixar o hospital, percebi algo extremamente óbvio. Todos os dias eu entrava naquela sala mancando e cheio de dores para depois sair de lá andando e aliviado. “Era para isso que ela acordava cedo todas as manhãs”. Senti-me pequeno tal qual um protozoário, e minha vontade era dar meia volta e lhe pedir desculpas por um julgamento tão fácil e leviano. Mas lá foi o rei da mesquinharia, andando sem dor até o carro que o levaria de volta pra casa.

Merda, quem pede desculpas por seus pensamentos, não é mesmo? Nem faz muito sentido a quem recebe. Mas amanhã eu já sei o que vou fazer. Caso seja atendido por ela, mais uma vez, vamos conversar assuntos aleatórios e futilidades que encurtem aqueles vinte minutos de convivência. Depois, quando a seção acabar, vou lhe dizer o mesmo “obrigado” de todos os dias. A diferença é que desta vez não vai ser um agradecimento automático, que minha educação me faz proferir quase por osmose. Vai sim, ser um daqueles bem verdadeiros, que demonstre gratitude àquela profissional que diariamente colabora para minha recuperação. E quem sabe isso me faça refletir um pouco mais sobre o que eu quero da minha vida daqui pra frente.



quarta-feira, julho 16, 2003

Um dia né, foi mais ou menos assim na hora do almoço. Tipo...

- Tu leu o e-mail com a piada da puta que tinha duas bucetas?
- Não.
- Mas Júnior mandou pra todo mundo do trabalho!
- Tô ligado. Mas não sei se você sabe, sou evangélico, então eu pedi pro pessoal do trampo não me mandar piadas desse tipo.
- Ah...
- Mas é boa a piada? Contaê!!!



terça-feira, julho 15, 2003

Fábula Moderna

Houve uma época em minha vida em que fiquei acometido pelo medo de monstros. Na verdade um monstro só. Não do tipo que puxa nossos pés enquanto dormimos, não senhores. Mas daquele que tece ameaças apoiadas em nossas fraquezas, cospe fogo, ri de nossas misérias e nos mostra o quão ridículos podemos ser enquanto a esperança é tudo o que nos resta. Tamanho tipo de maldade chega a ser tão obscena que descarto aqui qualquer comentário mais explícito. Mas isso pouco importa. O fato é que meu medo era tão supersticioso que provas dessa ruindade eu simplesmente não possuía. Apenas uma certeza igualmente supersticiosa de que ele não me queria bem, e isso bastava. Fazia pouco tempo que essa criatura havia surgido em minha vida e eu já deixava de duvidar que a felicidade do meu reino era apenas uma utopia sonhadora. Ele dizia de que um dia, ah... Um dia... Eu é que não esperaria por esse dia.

Primeiro procurei nas minhas coisas algo que eu pudesse usar contra ele. Um punhal ou uma palavra talvez. Mas eu nada tinha, nada podia. Então pedi que meus escudeiros cuidassem da ameaça em meu lugar, mas eis que a lealdade foi sucumbida pelo terror, e eles fugiram sem honra. Por último busquei conforto em alguns conselheiros, que já não conseguiam proferir uma única palavra que não estivesse contaminada pelo medo que os assolava.

Sozinho, meu pavor foi crescendo até beirar o insuportável e, com medo de ser atacado na primeira esquina em que nos encontrássemos, tranquei minha matrícula na faculdade e pedi férias no trabalho. Tudo para não mais sair do castelo que me mantinha protegido. Desfiz-me do carro, cavalo e carruagem para conseguir o dinheiro com o qual estocaria suprimentos na dispensa. Depois cortei o telefone e atirei meu computador do alto de uma torre, assim não poderia ser apanhado por seus telefonemas e e-mails. Cheguei até ao absurdo de colocar um friso embaixo da porta – trancada a sete chaves mágicas – para que suas cartas não pudessem entrar em minha sala. Através da única e minúscula fresta entre as tábuas pregadas nas janelas eu conseguia saber se era dia ou noite, já que o tempo decorrido desde meu isolamento era tamanho que as pilhas do meu relógio precisavam ser trocadas. Era também por essa fresta que o monstro acenava insanamente do lado de fora, com um encantador sorriso sádico que me recordava diariamente o porque daquilo tudo.

É claro a situação foi se tornando insustentável. Percebi que minhas provisões durariam no máximo quatro ou cinco semanas, que a TV a cabo havia sido cortada por falta de pagamento e que a popularidade entre meus súditos não poderia estar assim tão boa, dado o peso de tamanha covardia. Além disso o inverno se aproximava, e me preocupava o fato de não haver mais lenha ardendo na lareira e o chuveiro quente estar queimado. E o dia em que a falta de amor transbordou o meu limite, percebi que a única solução sensata a ser tomada seria eu mesmo enfrentar a besta. Sozinho. Era o que ela queria desde sempre.



Passei meus últimos dias dentro daquele castelo úmido, destilando meu ódio até uma pureza bizarramente encantadora, fortalecendo meus músculos atrofiados pela bondade de uma vida sem esforços e fechando meu corpo contra a sombra de uma derrota desonrosa. Afiei minha espada e experimentei-a em minhas próprias cicatrizes, para ter certeza absoluta de que poderia fazê-lo sentir a mesma dor que me afligiu durante tanto tempo. Li alguns livros que deixariam minha mente sã para o momento, imune a qualquer luxúria. Raspei a longa barba, trajei as vestimentas adequadas, e mesmo que meus olhos estivessem fechados por estarem desacostumados ao Sol, meu coração podia contar sobre o novo homem que surgia diante daquela ponte elevadiça. Um bravo guerreiro com o poder de paralisar um monstro apenas com sua renovada presença. Alguém que poderia fazer a criatura chorar de arrependimento por tanto sofrimento causado. E, finalmente, a pessoa que poderia sangrá-lo até a morte, apenas com a contundência de suas palavras.

Sim eu estava pronto, mas ao chegar na civilização não podia contar com tamanha decepção, nem mesmo em meus piores pesadelos. Para minha surpresa, no mundo exterior não havia mais sofrimento. No lugar do monstro, pessoas com semblantes tranquilos, amando, vivendo suas vidas de uma forma que há tempos havia esquecido como se faz. Eu procurei em cada canto, cada esquina do vilarejo, uma evidência talvez, mas até o idioma falado por aquelas pessoas era por mim irreconhecível. Estranhamente aquela harmonia toda me incomodava de tal forma que eu já não me sentia mais em casa. Eu era puro ódio e vingança, e aqueles nobres sentimentos de compaixão estavam completamente deslocados de minha nova realidade.

Enquanto a confusão fazia lar em minha mente, gritos que denunciavam um pânico sem precedentes se encarregaram de levá-la para algum lugar distante. Ao fundo, muitas pessoas corriam para suas casas, e outras apenas choravam em pânico, paralisadas por um terror que eu poderia até classificar como amigável. Uma língua que eu conseguia compreender, enfim. Não me restavam dúvidas de que o monstro havia voltado. Corri desesperadamente na direção dos gritos, mas quanto mais tentava me aproximar de alguém, mais distante ficávamos um do outro. No meio da confusão, até meus leais companheiros pareciam me desconhecer ou não entender as coisas que eu gritava em desespero. Os automóveis abandonavam o reino em disparada, e as respostas de que eu tanto precisava pareciam ficar igualmente distantes. Quando a última pessoa fugiu montada em seu cavalo, a visão ampla do lugar permitiu-me constatar o que parecia impossível de aceitar: realmente nenhum monstro havia passado por ali.

Voltei para o castelo desgostoso, tentando entender o que afinal havia acontecido. Poderia o monstro, agora, estar invisível? Ou será que ele adquiriu o poder de voar? Sim, lembrei-me de não ter olhado para o céu durante aquela confusão. Tranquei-me no quarto com estes pensamentos, procurando respostas, inquieto e impotente por não saber o que fazer com tanta força, tanta mágoa, tanto ódio. Afinal seria mesmo verdade que o monstro havia abandonado meu reino e eu estava livre para viver novamente? Em paz? Mas o que era paz? Foi quando acendi o lampião que repousava ao lado da cama e não pude acreditar na sombra do meu corpo projetada na parede. Tirei a roupa e me apressei pelos corredores do castelo, procurando o espelho que, se um dia alimentou minha vaidade, finalmente me traria a desgostosa resposta. Mal podia imaginar que naquele momento o monstro era eu.


(Fabio “Macarena” há tempos curou sua monstruosidade, mas ainda dorme com os pés cobertos.)




segunda-feira, julho 14, 2003

Maledicências

“Meu, tu é chato”. Foi mais ou menos assim que ontem fui criticado por uma prática que eu chamo irresponsavelmente de "maledicência". Digo irresponsavelmente por se tratar de um termo perigoso, que facilmente pode ser associado à fofoca, crítica destrutiva e outras formas menos nobres de se fazer uso da palavra falada ou escrita. Neste aspecto meu lance é muito mais tranquilo, ainda que inquietante. Tudo acaba se resumindo a uma espécie de fobia cultivada por tudo que me é imposto, TENTA interferir de alguma forma em minha vida ou simplesmente vai contra os meus gostos pessoais. E aliado ao fato de eu não ser de aceitar as coisas de bate-pronto, acabo fazendo dúzias de vítimas com minhas análises pejorativas, que não tem finalidade alguma senão formar conceitos na minha cabeça para que eu saiba onde estou pisando e entenda melhor o mundo a minha volta. Faço isso para me proteger, reafirmar meus parâmetros, afiar meu discernimento, enfim, as explicações vão longe. Às vezes é só pura brincadeira. Mas digamos que eu extrapolo e até chego a distorcer certos eventos. Senso crítico elevado à nona potência. É certo que vão generalizar dizendo que apenas pessoas com necessidade de auto-afirmação ou complexo de inferioridade possuem tal tendência, mas sei que este não é o meu caso. Não gosto de depreciar pessoas ou coisas pelo simples prazer de destruí-las, muito menos me sinto acima do bem e do mau para fazê-lo, fique claro.

...

Os casos mais sérios, do tipo “show no mercy”, podem variar desde o motivo que leva o filho da puta do síndico do meu prédio a sair de casa e deixar o carro dele na frente do meu*, até a porcentagem de nossos salários que vão encher o bolso roto da previdência. Ok, você até irá dizer que em se tratando de casos como estes eu estou absolutamente certo, e provavelmente estarei mesmo. Mas eu não me satisfaço com pouco. Existem aqueles fatos que não me dizem respeito, mas é simplesmente irresistível lançar um olhar crítico sobre tais. Religião ou o CD do Jorge Vercilo são dois bons exemplos disso, até porque não sou forçado a gostar de nenhum deles, mesmo que o sistema (ah não, ele falou sistema!) tente me convencer diariamente de que minha vida mudará – geralmente para melhor – se eu experimentá-los. “Agora sim Fabião, vai com calma!” Calma? Aí estão ambos, cobrando o dízimo de alguns conhecidos ou emanando do som da minha vizinha (no volume 99) enquanto escrevo este post. Sinto-me indiretamente prejudicado. E o aspecto final de tudo isso deságua nas banalidades mais inofensivas que meu cotidiano consegue gerar: as roupas justas da mulher obesa que passa diariamente na minha rua, as revistas de merda da sala de espera do meu médico, o adesivo “nóis capota mas num breca” que enfeita o pára-choque de certas pessoas, ou mesmo o modo como meu ex-patrão atende ao telefone (simplesmente não diz nada). Tudo acaba se tornando objeto de crítica e motivo para uma boa maledicência, mesmo não me prejudicando de forma alguma. Foda.

E se alguém acha que até aqui eu me sinto arrependido com tudo isso, engana-se redondamente (aliás, de onde veio essa expressão idiota?). Concordando ou não, razões eu tenho de sobra, mesmo que forjadas. Todos temos. Não tenho vergonha de admitir isso com uma áurea prepotente, pois de maneira alguma faria um discurso rançoso sobre o assunto, neste blog ou em qualquer outro lugar. O problema é que invariavelmente tendo a compartilhar tais revoltas com pessoas próximas, e se minhas insatisfações não viessem sempre envoltas de um costumeiro bom-humor eu seria taxado – com razão – de rabugento, that´s the point. “Meu, tu é chato”. Simples assim...

Acredite que nada disso é proposital. Não forço um discurso light e risonho no intuito consciente de disfarçar qualquer comentário ranzinza, ainda que o que sobre seja verdadeiro. Isso me preocupa. Senso crítico é bom, e no meu planetinha B612 certas pessoas não entram e certas coisas não podem acontecer. Só tenho medo de um dia perder a medida de tais coisas (algo óbvio com a idade) e tornar esse planeta insuportavelmente elitista. Talvez precise só de um pouco menos de contundência, nada mais. Além do que, se eu fosse rabugento mesmo desligaria o computador neste exato momento, desceria um lance de escadas e tocaria a campanhia da minha vizinha pedindo para que ela encarecidamente jogue o CD do Jorginho no lixo ou se mate. Não vou fazer isso. No máximo tocarei o disquinho do Hives no talo por pura pirraça. Sou da paz e "nada vai me fazer desistir do amor"...


*do meu = da minha mãe :)




Pois é, finalmente tirei o tal blog do armário. Enquanto continuo vetado pelo departamento médico, tiro proveito do marasmo que assola minha vida para compartilhar por aqui minhas pérolas mundanas. E contrariando a regra (!?) de que o primeiro post deve ser marcante - para que se um dia eu vire uma lenda ele faça jus à minha fama - eu fico com a simplicidade de quem não tem porra nenhuma a dizer, ao menos neste momento. Isso mesmo, não vai ser nada demais não... Aperta aí Ctrl+D no seu teclado. Foi? Pronto, agora eu sou um dos seus favoritos. Minha vida te diz respeito! E se quer saber, tá tarde e eu vou dormir...



Nenhum animal foi ferido na confecção deste Blog.
- melhor visualizado com os olhos -