Desconstruindo certezas e abraçando dúvidas.


Sexta-feira, Agosto 29, 2003

Além, muito além do Cidadão Kane...

Existe um certo filme que é unanimidade quando o assunto é melhores de todos os tempos. Figurando quase sempre nas primeiras colocações das famigeradas listinhas de "Filmes do Século" que assolaram a Internet na virada do milênio, a película "Cidadão Kane" (Citizen Kane, 1941), dirigida pelo, então, jovem Orson Welles, é para muitos a obra definitiva do cinema. Esqueçam os cretinos intelectualóides que consideram "Central do Brasil" um filme precioso (é bom e só), ou acham brilhantismo nas palavras de Caetano Veloso quando ele rima eta com Tieta. "Cidadão Kane" é um filme para todos. Todos que não possuem uma mente alienada. Todos que procuram enxergar além da óbvia - e familiar - história de Charles Foster Kane, um magnata que possuía um certo monopólio dos meios de comunicação mundial e desta forma manipulava a informação como bem entendesse. A narrativa inovou ao empregar um ritmo jornalístico inédito e sem linearidade, com cortes de câmera inovadores e zoom´s inesperados. O roteiro foi totalmente baseado na vida de William Randolph Hearst, um milionário americano dono de TODOS os principais meio de comunicação da América no pós-guerra. Randolph chegou a ponto de obrigar críticos a publicarem resenhas negativas sobre o filme e oferecer 800 mil dólares para a destruição dos negativos. Como quem possui a informação possui tudo, a filme foi um fracasso na época e, como muitas obras primas, só foi reconhecido tempos depois. Sintomático, não? E olha que estamos falando de uma época onde alienação de massas era algo muito mais prático de se fazer, um mundo onde a informação levava mais tempo para se propagar, porém mais tempo ainda para ser contestada ou contradita (olha só o que você está fazendo na Internet agora mesmo...). Mas como foi a história no Brasil? Familiar, no mínimo. Há dias da morte de Roberto Marinho, o William Randolph brasileiro, um rançoso deja-vu toma conta da contra-cultura em geral, mais precisamente pela beatificação sofrida por ele nos telejornais de sua própria emissora.



Roberto Marinho obteve sua primeira concessão de TV em 1957, do presidente Juscelino Kubitscheck, cujo governo ele apoiava, e a segunda do presidente João Goulart, cujo governo ele ajudou a derrubar. Em 1962 assinou um contrato de colaboração entra as organizações Globo (então apenas um jornal) e o grupo Time-Life. O acordo parecia ir contra a lei brasileira, na medida em que dava a uma empresa estrangeira interesses em uma empresa nacional de comunicações, em todo caso... A TV Globo foi ao ar no Rio pela primeira vez em 26 de Abril de 1965, pouco mais de um ano após o golpe militar. Os primeiros oito meses foram um fracasso evidente e então o playboy Walter Clark, à época com 29 anos, foi contratado para dirigir a emissora. Foi ele o arquiteto do incrível sucesso da Globo (e mais tarde, foi "queimado" por conta dos ciúmes de próprio Roberto Marinho, que não admitia ninguém na administração da emissora que fosse mais famoso que ele). Após investigações parlamentares, concluindo que o acordo Time-Life e Globo eram ilegais, a parceria foi dissolvida em 1969. Roberto Marinho ficou com total controle da TV Globo, enquanto suas concorrentes Tupi e Excelsior continuaram seu lento declínio. Anos depois a Globo centralizou todas as suas produções no Rio de janeiro após o famoso incêndio que destruiu suas instalações em São Paulo. O ato foi descaradamente criminoso, propositalmente armado para dar um golpe na seguradora. O providencial e bem-vindo dinheiro do seguro foi o impulso decisivo para a construção de uma poderosa rede, com o apoio do regime. A Globo se favoreceu do período conhecido como "Milagre Brasileiro", onde o país cresceu cinquenta anos em cinco. Um montante considerável de dinheiro (da ordem de trilhões) fora despejado no mercado para que fossem construídas estradas, instaladas fábricas automotivas e, é claro, redes de televisão modernas. Tal período foi responsável pela enorme dívida externa que o Brasil acumulou durante os anos.

A Excelsior havia sido a única empresa de televisão a se opor ao golpe militar de 1964 e os militares não se esqueceram disso. Em 1970 o governo cancelou sua concessão. A censura era de foder. Qualquer reportagem negativista era proibida. Qualquer crítica persistente também. A lista de assuntos proibidos era imensa. Às vezes uma ordem para suspender a publicação de uma notícia chegava antes dela acontecer. Por exemplo: “O senhor está proibido de noticiar um sequestro que acontecerá amanhã em Curitiba...”. A TV Globo muitas vezes ia além do que era requisitado, transformando pessoas em não pessoas. Houve um caso em 1981, quando uma bomba explodiu em um carro no estacionamento de um centro de convenções com cerca de vinte mil pessoas. Os militares disseram que a bomba havia sido colocada por extremistas de esquerda, mas a explosão foi comprovadamente no colo de um soldado, que morreu dentro do carro de um outro militar. Na primeira edição do noticiário da Globo via-se claramente uma outra bomba, não detonada, dentro do carro. Quando a notícia foi ao ar novamente, a segunda bomba havia desaparecido na edição. Para sempre. Em 1972 o então presidente Médici inaugurou a televisão em cores em um grande festival, dizendo: “Sinto-me feliz todas as noites quando assisto o noticiário” ”Por quê?” “Porque no noticiário da TV Globo o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz. É como tomar um calmante após um dia de trabalho!”. Nem mesmo jornalistas foram poupados. Em 1975, Wladimir Herzog, chefe do jornalismo da TV Cultura de São Paulo, foi preso, tendo morrido horas depois em um quartel. Ele havia sido torturado e assassinado. A polícia divulgou uma foto, tentando convencer a opinião pública de que ele havia se suicidado. Durante as duas décadas da ditadura militar no Brasil, Roberto Marinho ficou riquíssimo e era talvez o civil mais poderoso do país.

Mas Robertinho era um vira-casacas. Ele ia de encontro ao poder, sempre. Continuando sua proteção ao Regime Militar, a imensa passeata em prol das "Diretas Já", na Praça da Sé, foi noticiada pela Globo como sendo apenas uma "festa popular" (usando a desculpa de ser aniversário da capital paulista), para que as pessoas continuassem a ignorar o movimento. Mas na iminência da volta de um presidente civil ao comando do país, Roberto Marinho, de forma incrível, apóia o candidato Tancredo Neves, um velho e respeitado estadista, membro da oposição à ditadura militar.

Com o fim do regime, seu domínio cresceu ainda mais, além de qualquer regulamentação ou controle. A Globo se prevaleceu das dificuldades da NEC do Brasil, que foram criadas pelo, então, ministro das Comunicações, ACM. Ele suspendeu os pagamentos e encomendas à NEC, que praticamente vivia do que fazia para o governo. Sem essas encomendas e pagamentos, a NEC valia muito pouco, e por isso mesmo a Globo pagou menos de um milhão de dólares pela NEC - uma pechincha. Mas, logo em seguida, ACM restabeleceu os pagamentos e as encomendas – que eram a razão de ser da NEC – ela rapidamente passou a valer, segundo uma avaliação dos próprios japoneses, 350 milhões de dólares. Mas toda essa bondade por parte de ACM não ficou sem ser recompensada. Roberto Marinho era um homem honrado. Em 1987, em uma atitude unilateral inédita, ele encerrou o contrato da TV Aratu (filiada à TV Globo há 18 anos), em Salvador, Bahia, o que ocasionou uma queda de 80% na arrecadação daquela repetidora. A nova emissora escolhida para repetir os sinais da Globo foi a TV Bahia, controlada por associados e parentes de ACM, que tinha intenções de voltar a governar a Bahia.

Durante o governo Sarney ficou difícil para a Globo mostrar sua independência. A ditadura militar havia acabado e a emissora custava a recuperar uma imagem de jornalismo independente. Os telejornais não podiam mais ignorar os protestos sociais. Algumas manifestações contra o governo foram apresentadas, mas utilizando uma maneira toda especial de apresentar os fatos. A Globo abria o jornal com o locutor dizendo: “Índice mensal da inflação foi de 40%. Caderneta de Poupança vai render 40%”. Quer dizer, ela tirava o peso negativo do índice da inflação, e transformava em uma coisa positiva. Logo, os jornais da Globo iriam adquirir extrema maestria para maquiar os fatos da realidade nacional, em especial quando isso é de seu interesse político e financeiro, no contexto de superficialidade que marca, por exemplo, as edições do Jornal Nacional, carro chefe do telejornalismo global. Em muitas ocasiões a edição utilizava técnicas de mensagem subliminar semelhantes àquelas da propaganda nazista: Querendo eleger Fernado Collor como presidente, a qualquer custo, o Jornal Nacional intercalava as notícias sobre o seu dia com temas amenos, como variedades e esportes, enquanto no bloco em que era apresentado o dia de Lula, as notícias eram pesadas, abordando assassinatos, tráfico de drogas e inflação. Não podemos esquecer a vergonhosa edição do último debate eleitoral entre os candidatos, onde as palavras de Collor foram enaltecidas, e as de Lula maliciosamente editadas. E pensar que o mesmo Fernando Collor perdera o cargo de presidente após uma revolta popular incitada pela própria Globo com sua mini-série Anos Rebeldes (mostrando os fatos que tanto omitiu à época do regime).

...

Concluindo, a vida imita a arte, que imita a vida, que imita a arte novamente. No início da década de 90, o canal BBC de Londres, temendo as sabidas intenções da Globo em penetrar nos meios de comunicação europeus, produziu um documentário denunciando todas estas escrotices e mais um pouco. E, apesar de ser uma produção com intenções suspeitas, seu conteúdo é deveras verdadeiro e embasado. O documentário recebeu o apropriado nome de "Brazil, Beyond Citizen Kane" (Brasil, Além do Cidadão Kane) e foi exibido apenas duas vezes na Mostra de Cinema de São Paulo, sendo logo proibido pelo, então, governador Fleury, que julgou a fita ofensiva. A própria BBC exibiu o documentário em canal aberto somente após diversas batalhas judiciais promovidas pela Globo. Banido eternamente, o documentário ficou conhecido apenas entre os estudantes de jornalismo. Eu mesmo havia assistido a copia da cópia da cópia em umas das minhas aulas de filosofia do terceiro colegial (que hoje devem ter sido substituídas por aulas de funk carioca). Obra do impagável professor Tex Jones - nome de batismo! Mas graças a Internet (ah, os meios de comunicação livres), e a algumas pessoas conscientes, o documentário está inteiramente disponível neste link:


http://caid.sites.uol.com.br/index_citizenkane.htm


São quatro arquivos no formato Div-X ;). A imagem e o som não estão muito bons, pois o conteúdo foi "ripado" de um VHS bem antigo. Porém dá para assistir tranquilamente. As instruções de como proceder se encontram na própria página. Simples demais. Baixe os arquivos, assista, grave CD´s e mostre aos seus amigos. Espalhe o link para sua lista de e-mails ou divulgue em seu blog. Não é campanha, não é revolta. É uma clara oportunidade de mudar a opinião sobre aquilo que te aliena ou, melhor ainda, esquecer desse ódio pueril e ter FINALMENTE algum embasamento para criticar. Mesmo às avessas, cada um de nós também pode ser um Cidadão Kane.

Nota: Quanto ao filme, está disponível na esquina de sua casa...




Quinta-feira, Agosto 28, 2003

Então, um dia, de tanto escrever, achei que sabia fazer poemas. Não, melhor explicar isso direito. Um dia, quando estava com a cabeça muito cheia para escrever coisas complexas e cordenar meu turbilhão de idéias que seguem um padrão "tudoaomesmotempoagora", comecei a jogar palavras soltas, sem métrica, formando idéias concisas e APARENTEMENTE malacabadas. Foi assim, meio sem querer, que eu fiz o primeiro poema. Esse daí escrevi roubando alguns minutos de trabalho, quando só um tiro na testa conseguiria amenizar a dor causada pela minha falecida (mas eterna filha da puta) hérnia de disco. Muito do que está escrito é pessoal - claro - e altamente ocasional, ainda que sobre um sentimento indelével. Aliás, quem sou eu para explicar o que não se deve (muito menos se pode) explicar. Here we go....


Engano

E enquanto o tempo não passa,
eu fico nessa bobeira infantil,
sonhando em derrubar tudo que estiver fora do meu alcance,
em cima da estante,
longe do meu domínio,
pequeno, mas só meu.
E enquanto o tempo não passa,
faço planos para ele passar...
Rasgo o veludo azul,
e em seu lugar costuro remendos bons,
coisas que só eu vou entender,
nem adianta tentar.
E enquanto o tempo não passa,
enquanto melhor eu não faça,
enquanto durar essa dor chata,
penso em encurtar muitas distâncias.
Vou mudar de casa, de modos, de idade...
Jogar quase tudo fora,
mesmo que não exista um saco de lixo tão grande.
Aqui nada me serve,
apenas esboços mal acabados de uma vida bem vivida.
Um copo de plástico,
um lápis apontado,
alguns livros difíceis;
Enquanto o tempo não passa,
eles ditam tudo o que eu necessito...
Aceito.
Finjo que estou feliz aqui e alí...
Aceitam.
Toda essa arte,
a minha, a deles...
Tudo isso cansa demais.
Se ao menos eu escapasse desta cela,
dedicaria tal arte somente a quem merece.
Até porque as grades não possuem trancas, apodreceram.
Mas cadê a coragem? Já não existe coragem.
Enquanto o tempo não passa,
ela se esconde, morre.
Restou apenas uma ponta de orgulho,
onde me equilibro dificultosamente,
para ver impotente,
o caminho por onde eu vim.
A passos curtos, sempre...
Porque os largos também cansam demais, dor demais.
Conforto de vida curta.
Vai ser difícil voltar.
O atalho que era estreito,
porque eu nunca soube obedecer,
agora não leva a lugar algum,
porque não consigo escolher.
Espero.
E se for tudo mentira?
Não deve ser nada tão sério, quem saberia?
Faz tanto tempo que me privei de certos valores,
que certo e errado viraram uma coisa só.
Não me supreenderia, então, ser este mais um dos meus grandes enganos,
achar que por todo esse tempo,
tenho vivido enganado.
A saber, se eu pudesse escolher,
entre tais dúvidas e todas as respostas cabíveis,
ficaria somente com as dúvidas.
É melhor que assim seja...
Vai que qualquer dia desses,
enquanto o tempo não passa,
eu perceba angustiadamente,
que ele já passou.



Quarta-feira, Agosto 27, 2003

Em algum lugar deste blog eu já falei sobre saudade...

Girassóis

“Caminho por um lugar estranho, ao mesmo tempo em que viro as costas para meus pais. Nunca havia saído debaixo de seus cuidados e agora, pela primeira vez, estou sozinho. Me sinto desconfortável. Uma mulher, muito simpática e sorridente, segura minha mão para atravessarmos o pátio da velha casa azul que surge diante dos meus olhos. Olhos desconfiados. Ao fundo deste pátio existe uma enorme sala e, muito provavelmente, é pra lá que ela está me levando. Já consigo até mesmo dar forma ao murmurinho que ecoa da porta entreaberta. Muitas crianças estão ali dentro, não restam dúvidas. Conforme me faço presente todas elas parecem me observar com a mesma curiosidade com a qual as observo. Preciso chorar urgentemente, mas seguro o ímpeto o máximo que posso. A mulher pede que eu escolha um lugar para sentar - qualquer cadeira sobrando em volta de uma mesa bem comprida, de fórmica preta, onde outros dois meninos já estão acomodados. Eles me olham com cara de despeito, mas logo retornam suas atenções para uma ambulância de brinquedo, que percorre toda a extensão da mesa emitindo uma sirene bem barulhenta. Preciso dessa ambulância.”

O que acabei de descrever é a lembrança mais antiga que eu tenho guardada na memória. O lugar estranho é a “Escola Primária Ateneu Brasília”. A mulher, a saudosa tia Ângela. Era meu primeiro dia de aula no maternal e, apesar de ser uma recordação com mais de vinte anos, tudo é muito nítido, recente como o sanduíche de omelete (!) que estou arrotando. São imagens perdidas, misturadas em meio tantas outras recordações no arquivo que trata de FELICIDADE. Tem muita coisa boa por lá - algumas bem mais legais que essa - precisa ver. Mas... Mas... Evito ficar fuçando esse lugar. Já aprendi. Existem muitas angústias escondidas, matreiras, esperando apenas uma oportunidade para me fazerem mal. Um efeito colateral, que transforma a euforia de um momento na ruína de um dia intero. Então eu simplesmente deixo pra lá, repetindo o clichê de que são apenas "bons tempos que não voltam mais".

É o preço que eu pago por esse maldito saudosismo. Saudade de tudo mesmo. Do aviãozinho azul e branco, de jogar botão na escadaria, de xingar o Sr. Reis bem alto e depois me esconder... Tanta coisa. Engraçado como toda essa nostalgia virou cult nos dias de hoje, desde o famigerado revival da "infância 80" (que nem eu mais estou suportando) até as conversas de bebedouro. De repente meu passado invadiu a televisão, a moda, meus e-mails. Claro, meus amigos também. É como se fosse uma alucinação coletiva, sei lá, parece que todos estamos passando pela mesma fase. Vai ver é coisa de quem já passou dos vinte e tantos. Vai ver que, quanto mais o tempo passa, mais consistente o passado fica para que possamos nos apoiar emocionalmente nele. Ás vezes nem precisamos ir tão longe. Bons momentos do ano passado também sossegam o espírito. Uma fórmula bem simples: Junte um ou mais companheiros (dos bons), reúna-se com eles para tomar uma cerveja em um boteco-teco bem fuleiro e "voila". Bastam alguns minutos falando sobre o quanto nossas vidas são miseráveis e ordinárias hoje em dia que a viagem ao passado está garantida! Efeito rápido com alívio imediato, mas que acarreta sérios danos ao sentimento de perseverança de cada um, caso a exposição seja prolongada. Será que vale a pena? Eu imagino o que vai ser daqui pra frente, quando a crise do "e agora?" passar. Acho que no fim das contas vamos acabar lembrando da época que lembrávamos. Ou, se você quiser, posso dizer isso de forma mais inteligente: "Se o presente de ontem é o passado feliz de hoje, o que vai ser do passado de amanhã, se hoje vivemos apenas de lembranças?".

Isso não significa que no passado não tínhamos nossas dificuldades. Quando crescemos achamos que os problemas das crianças (e até aqueles da adolescência) são irrelevantes, e talvez até por isso tenhamos saudade dessa época. O que não percebemos é que todo problema nasce da incapacidade de contornar uma situação. Ora, isso torna o problema de uma criança igual ao de um adulto. A solução é igualmente proporcional à dificuldade de alcançá-la. Problema é problema, não importa em que idade. Por outro lado, e tentando ser menos emocional, li que nosso cérebro tende a amenizar coisas tristes e enaltecer as felizes em nossa consciência sobre o passado. Isso funciona como uma espécie de defesa natural (desta vez do inconsciente) para preservar nossa memória sempre saudável. É uma explicação científica bastante plausível. Lembro-me de que há alguns anos fomos visitar a casa onde minha mãe passou a infância, um lugar que ela não via desde criança. Na frente desta casa havia um jardim de girassóis, que fora conservado até hoje. Após olhar fixamente para eles durante alguns minutos, minha mãe, que já não conseguia esconder a surpresa, disse que por todo estes anos imaginava os girassóis bem maiores do que eles realmente eram.

É parte de se estar vivo. No fundo todos nós temos alguns destes girassóis na memória.




Segunda-feira, Agosto 25, 2003

Post sério sobre morte

Por diversas vezes ocorreu-me o pensamento de como seria se eu resolvesse me matar. Veja bem, pensar sim, considerar nunca. Antes que eu seja mal interpretado, melhor deixar claro o que isto representa. Ora, a idade da inocência já passou, e você ainda tem medo de falar sobre isso? Da minha parte penso apenas porque me agrada a idéia de divagar sobre os assuntos que eu bem entender, sem preconceitos e, ao mesmo tempo, exercitar a única liberdade que realmente tenho. Penso até para testar minha moral, o prazo de validade dos meus conceitos, para julgar o (meu) certo e o (meu) errado com pelo menos alguma lucidez. Convenhamos, é o tipo de conversa franca que não se pode ter com qualquer um. Talvez seja apenas a curiosidade mórbida de entender os malfadados que tomaram tal atitude. Talvez seja só diversão, quem sabe? Quando penso em me matar não existe culpa ou angústia, sério. Mas há quem ainda se choque, ache absurdo, aponte o dedo como quem reza para afugentar tais idéias. Sempre haverá aqueles que colocam tudo na mesma balança, sem critério e sem respeito. Pessoas que carregam a certeza de serem fortes, afirmando que só os fracos de espírito atentam contra suas próprias vidas, quando na verdade têm medo de enfrentarem até a si próprios - algo que todas as pessoas que desistiram de viver fizeram antes de qualquer coisa. Quero ver coragem para ter esse autoconfronto. E para evitar sofrer um pré-julgamento, daqueles bem fáceis, vou logo dizendo que não, isto não é uma ode àqueles que chegaram às vias de fato. Contrariando meu ódio para com os livros de auto-ajuda, acredito que sempre há um caminho melhor. E mesmo que alguns pulem de janelas, puxem o gatilho ou atravessem a rua sem cautela, não quer dizer que resistimos e sobrevivemos atestando nossa sanidade. Aquelas foram pessoas que aceitaram sua derrota porque seus demônios foram mais fortes. Particularmente, quando eu penso nisso tudo, estou apenas exorcizando os meus. Não como quem se purifica de toda essa “sujeira”, mas como quem compreende que existem pessoas que não lutaram com todas as suas forças, por um motivo que a nenhum de nós cabe, e muito menos podemos, explicar.

Mas, como eu deixei claro, não me permito seguir adiante. Porque há sempre algo faltando, e dar o fora daqui antes do tempo não é uma idéia das mais espertas. Existe sempre aquela viagem, aquela pessoa, aquele encontro espiritual (oh!), aquele bem material e tantas outras coisas que ainda não figuraram na minha vida. Falta sempre aquele filho... Se eu parar pra pensar, acredito que até minha despedaçada educação católica também deve dar alguma ajuda, mandando anjinhos doutrinadores sussurrarem no pé d’ouvido que o meu destino será morar com o “canho-do-pé-preto” caso cometa tamanha heresia. Tudo bem que conscientemente isso não seja um apelo que eu possa considerar válido, muito menos racional. Nunca fui um grande aceitador de dogmas e há tempos abandonei a religião (não confunda agnóstico com ateu), mas enquanto minha vida simplesmente não “acontece”, eu vou resistindo por aqui.

Até que alguém muito, muito próximo, minha mãe para ser mais específico, chegou com a novidade semana passada. Um apelo confuso, mas lúcido, dizendo que tinha sido desafortunada com alguns pensamentos estranhos.

- Como assim, mãe?

- Não sei direito, filho. Vontade de desistir de tudo, desligar o botão.

Sabe quando a maior das ansiedades invade o seu corpo em questão de segundos, sem que haja tempo para qualquer reação coerente? Como se alguém enfiasse um enorme aspirador pela sua goela, trazendo o coração para a boca e virando seu estômago ao avesso? Puta merda, puta merda. Me vi perdido, enquanto minha mãe, mesmo sem querer, despedaçava meu mundo em milhares de pedaços miúdos, menores até que a sua voz. Eu precisava achar a palavra certa para aquele momento. Eu nunca tenho. Com minha mãe, nunca tenho.

- Besteira, mãe, deve ser a menopausa, esses lances de serotonina, sabe como é!

Apenas isso, como se ela acabasse de me falar a maior das banalidades. Minha mãe, um dos pilares da minha educação, ruindo diante dos meus olhos enquanto eu praticamente emudecia. Se eu fosse mais novo diria “E pode, mãe?”. Mas há tempos não sou mais uma criança que recorre aos pais para que resolvam seus problemas pessoais (minha dependência é puramente comodista). Além disso, era ela quem agora pedia minha ajuda.

Foi dormir, apoiada em um ou dois psicotrópicos, e me deixou desesperadamente conversando com a morte. Primeiro tentei acreditar que não havia qualquer razão para ela ter pensamentos deste tipo, mas, dada minha condição, sou absolutamente incapaz de entendê-la. Meu mundinho “oba-oba” de amigos, brinquedos caros, computadores e sonhos ainda não alcançados, quase sobrepujam seu mundo "já resolvido" como presumia minha mente imatura. Quase desmerecem suas tentativas como se não houvesse mais tempo para nada. O que vai ser daqui pra frente, já que suas escolhas foram feitas há muito tempo? Mesmo sendo verdade que a menopausa colabore para que ela releve essa possibilidade, é foda não ter vivido do jeito que sempre se quis. Ela tinha alguma razão, mesmo que eu fosse incapaz de compreendê-la. Sei apenas que pais são uma instituição, e se minha mãe pensava em um fim prático para sua vida, talvez eu não fosse tão estranho assim. Meus pensamentos sobre a morte não mais pareciam levianos. Quase naturais, diria. Às vezes conduzo meu raciocínio por caminhos incrivelmente cretinos e egoístas, mas quem irá dizer que não tenho razão? Além de experiências próprias, baseamos nossas atitudes em referencias, indicadores e modelos. Se o Lula decretar que é de lei andar pelado no verão, assim o faria se me desse vontade. É só dizer que pode. Sobre suicídio (sim, era esta a palavra que eu estava evitando desde o começo) minha mãe acabara de dizer que pode. Mas nem por isso simpatizo com a idéia. Por sinal, se é assim tudo tão genético, talvez estivesse aí a paz que eu precisava. “Pensar sim, considerar nunca”. Com certeza compartilhávamos da mesma opinião. Além disso, minha mãe também acredita que “sempre existe aquele filho...”. Não posso mais pensar em desligar o botão. Quem vai cuidar para que ela não desligue o dela? A vida funciona assim. Vivemos com os outros e pelos outros.

- Boa noite filho, até amanhã.

- Até amanhã, mãe.




Sábado, Agosto 23, 2003

Desencontros

-E se eu te dissesse que não existe nada do outro lado do muro. Você pagaria pra ver?

Pagou e foi.

-Espere um pouco - disse ele - realmente não existe nada por lá! - sabendo que o muro tinha apenas um lado.

Mas ela seguiu em frente, e voltou apenas pra contar o que viu. Gostou.

- Ah é? Porque não aproveita e fica por lá de vez, então?

E foi o que ela fez, desejando apenas que ele não acreditasse tanto nas mentiras que ela lhe contava.



Sexta-feira, Agosto 22, 2003

Como se eu devesse alguma satisfação...

Alguém já deve ter percebido que eu evito postar coisas de "outras pessoas" neste blog, e pra falar a verdade nem tenho um motivo especial para tal. Apesar de eu ser um maldito porco facista, egocentrico como o Pequeno Príncipe e me achar o centro do mundo, ou melhor, do Universo (ok, tudo brincadeira), evito abrir mão do que é de minha autoria justamente por achar que tenho muito a dizer. Incrível! Sempre que eu chego na frente deste computador me julgo apto a desenvolver posts interessantíssimos, mesmo que no fundo se tratem de uma bela de fedida merda. Mas existem textos de outrem (humf!) que você lê e... e... Bom, leiam!
...









(espaço em branco dedicado à necessária mudança de humor para um bom entendimento do texto a seguir)










...

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos,
e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.

E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.

A tomar o café correndo porque está atrasado.

A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.

A comer sanduíche porque não dá para almoçar.

A sair do trabalho porque já é noite.

A cochilar no ônibus porque está cansado.

A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.

A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.

E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro,
para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando
uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.

Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.

Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.

E se no fim de semana não há muito o que fazer,
a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta e que, de tanto se acostumar,
se perde de si mesma...

(Clarice Lispector)



Quarta-feira, Agosto 20, 2003

Câncer

Sábado último foi o tal McDia Feliz. Sabe como é, a benfeitoria anual da rede McDonalds onde todo o lucro da venda de BigMac´s neste dia é revertida em prol das crianças com câncer. E talvez você tenha praticado a “boa ação” comparecendo, ou pelo menos aplaudiu a iniciativa.

Eu não!

Não sei dizer ao certo quando comecei a dedicar um punhado do meu ódio renovável ao McDonald´s. Aliás, nem consigo dizer ao certo quando isso passou a contar com fundamentos honestos, até porque, no começo, tudo é festa. A gente odeia por odiar, odeia sem se informar. Odeia porque o outro odeia também, e odeia porque na adolescência é bem legal odiar. Ah sim, eu devia ter uns 16 anos. Ficava com uma menina que tinha um irmão mais velho, anarquista, e não sei se o maluco viu algum potencial embaixo dos meus cabelos alvoroçados, mas é verdade que ele passou a me entupir de livros e preceitos anárquicos, dos mais variados. Da vertente libertária, passando pelos dez mandamentos da bandeira negra, toda aquela novidade chegou para fazer um estrago benéfico, como uma foice afiada nos meus conceitos pueris, até então sólidos e visionários como um pudim de leite. Então ta. Grandes corporações são o câncer dos países pobres, logo eu “precisava” odiar o McDonald´s. E foi assim, meio “nas coxas” que a empreitada começou.

Depois veio a causa animal que, diga-se de passagem, me sensibiliza até hoje. Ta certo, sou um carnívoro hipócrita, pouco satisfeito com esta condição, mas fraco demais – por enquanto – para dar um basta e aderir ao veganismo. Mas enquanto consumidor de bifes mal passados, repudio qualquer tratamento antiético aos animais. Morrer para servir de alimento é uma coisa. Morrer de forma cruel, ou pior, viver sem um mínimo de dignidade, é outra completamente diferente. Existem diversos sites competentes, de organizações sérias, prontos para lhe informar. São documentações, relatos, vídeos e cópias de processos (não são poucos), delatando o nazismo animal de forma crua e verdadeira. Nas fazendas e criadouros do McDonald´s, os animais são criados intensivamente, “desfrutando” vidas miseráveis do nascimento ao abate. Impedindo acesso ao ar fresco e à luz solar, bem como tolhendo a liberdade de movimentos, as chamadas “factory farming” possuem como único interesse o lucro, sem se importar com o sofrimento animal. O processo de abate é completamente industrial, não precisa ser gênio para perceber isso. Ou no alto de sua ingenuidade você acha que a rede paga milhões de funcionários para dar uma marretada no meio dos chifres dos bois, e ainda assim conseguir atender a alta demanda de carne. O processo industrial é doloroso, e os que resistem são aturdidos quase sempre de maneira pouco eficaz, fazendo com que estes sejam degolados ainda plenamente conscientes. Foda!



Aí eu ganhei mais idade e alguns pêlos extras na cara, e entrei na onda de querer fazer alguma coisa pela minha magreza crônica. Claro, na academia aprendemos muitas, mas muitas futilidades, que acabam substituindo valores outrora mais importantes. Mas a geração saúde tem lá alguma razão. Sobre o McDonald´s, nem vou entrar no mérito da comida ser uma merda, até porque qualquer pessoa com um mínimo discernimento nutricional e algumas aulas de biologia no segundo grau sabe que aquilo é um acúmulo de gorduras saturadas e conservantes, sem fibras ou quaisquer vitaminas. Quando a grande maioria das meninas enxergam um sanduíche como causador mor dos famigerados “pneusinhos”, melhor seria relevar o fato de eles foderem teus rins, coração e até sua pele. Contudo também não vou ser infantil a ponto de culpar apenas os BigMac´s pelo elevado índice de câncer no mundo. Quem sou eu para falar algo, ainda mais sendo fumante. Mas mesmo seguindo um pensamento de que toda verdade pode ser contradita, convenhamos que algumas são bem difíceis.

Aí a gente continua andando, esperando que seja pra frente, e começa a se preocupar, ou pelo menos questionar, causas mais sociais. É claro que o anarquismo ainda tem a ver com tudo isso, mas diferente de uma utopia que eu vejo como certa, mas ainda assim utópica, o caso aqui é muito mais palatável. Você já trabalhou ou conhece alguém que já tenha prestado seus serviços como McEscravo Feliz? Ao usar uma miríade de táticas legais e ilegais, o McDonald´s assegura os menores salários possíveis, sem sindicalização, horas extras ou qualquer outro direito trabalhista. E ai de quem lutar contra tudo isso. A rotatividade é enorme, e o número de empregados por loja nunca é adequado, forçando os poucos que restam a fazer um trabalho sobrecarregado de forma rápida e vulnerável a acidentes. A competição entre os trabalhadores também é incentivada - reflexo cristalino do estilo de vida americano (American Way of Life é o caralho!). Tudo isso assegura que as margens de lucro sejam maximizadas, onde poucos tornam-se obscenamente ricos, enquanto quem faz todo o trabalho sobrevive com um salário mínimo. E somando tudo isso, você duvida que pelo menos 2 entre 10 sanduíches feitos em uma filial saiam da cozinha devidamente escarrados por algum funcionário de saco cheio, escravizado no calor insuportável de uma chapa para ganhar em um mês o que muitos conseguem gastar em apenas um fim de semana? Dois hamburguers, alface, queijo, molho especial, cebola, picles e catarro, num pão com gergelim. E definitivamente eu não estou brincando. Apenas pense.

E qual o segredo do sucesso? Ora, o combustível infindável das mega-corporações – apresentando a pobreza. Enquanto milhões de pessoas morrem de fome, vastas áreas de terra em países miseráveis e/ou subdesenvolvidos (cof, cof...) são usadas para pastagem de gado ou para cultivar cereais que irão alimentar animais, que por sua vez serão comidos em países abastados. Cabe aqui um adentro. Países pobres, subdesenvolvidos e burros, que desperdiçam suas terras em prol de um mercantilismo avesso e estúpido. Senão vejamos. O McDonald´s promove produtos à base de carne, claro, encorajando as pessoas a comerem o produto mais frequentemente, o que leva ao desperdício de mais e mais reservas de alimento. Para que apenas cem cabeças de gado pastem, são necessárias hectares equivalentes a cinco estádios de futebol, que obviamente deixam de ser cultivados. Fora a porcentagem de produção externa, destinada à engorda do próprio gado. De 145 milhões de toneladas de cereais utilizados para alimentar bois e vacas, são produzidas apenas 21 milhões de toneladas de carne e derivados. Com uma dieta vegetariana a Grã Bretanha, por exemplo, poderia ser facilmente auto-suficiente em sua comida. Isso sim é grave.

E o tal desperdício? Também é inerente... Não é segredo pra ninguém que se em 15 minutos nenhum cliente compra a comida, tudo é jogado fora. É o sistema mais eficiente (!) do planeta em termos de lanchonete. Fast-food levada ao pé da letra, tão fast que periga ir pro lixo caso a demanda não seja atendida. Obviamente que o raciocínio mais coerente seria doar todo esse alimento. Mas não é bem assim. Imagine todas as crianças de uma instituição de caridade espumando pela boca, contorcendo seus corpinhos apenas por terem ingerido McChinken´s requentados, impregnados de salmonela. Pagar a conta por cada processo deste tipo seria mais desconfortante do que deitar a cabeça no travesseiro sabendo que o “excesso” será devorado por urubus em qualquer lixão próximo. Ou até por crianças idênticas àquelas citadas, porém de forma não-oficial. Eu sei, é complicado. E antes que qualquer advogadosinho recém-formado venha dizer que com isso a companhia se livra de processos e medidas judiciais severas, eu digo que o furico é mais em baixo. Será tão difícil mudar o método de trabalho e ainda assim continuar eficiente? Até porque, principalmente em horários de pico, filas existem de qualquer forma. Então porquê não empregar mais pessoal, de modo que seja preparado apenas o necessário? Porquê não inventar uma logística que impeça que animais sejam mortos apenas para ir direto da chapa ao cesto de lixo? Mas bendito seja o capitalismo, e quem concorda diz amém.

Falando nisso, quase 10 paus um “número”? É mesmo? Minha namorada contou-me outro dia e eu desacreditei (aliás, nunca fomos ao McDonald´s juntos, é melhor ficar esperto...). Quem sem sã consciência não se sente lesado? Pior que se ainda fossem poucos... Até quem é freguês acha um absurdo. Mas continua voltando, sempre. A mágica do marketing, da lavagem cerebral, de aderir ao maior e mais duradouro hype da história, querendo ser cool, ou simplesmente condicionado desde criança, como um cachorrinho na sua ração preferida. Sim, crianças são alvos fáceis, e o Ronald McDonald sabe disso. Até distribui brinquedos, tão legal que ele é. Daí crescemos, e mesmo sabendo das duvidosas práticas trabalhistas, mesmo sabendo que a rede fere a causa animal, mesmo se lixando para o impacto ambiental destrutivo e o enorme desperdício de comida, a grande maioria das pessoas defendem a companhia como defenderiam suas próprias mães. DIGO ISSO COM A PROPRIEDADE DE QUEM JÁ SE CANSOU DE DISCUTIR O PROBLEMA. Eles simplesmente não se importam em pagar caro, e se o sanduíche dentro daquelas caixinhas não é tão bonito e tão grande quando aquele estampado nos anúncios. Eles não reclamam se o copo de coca-cola vem com aquela tampa esperta, não para impedir que o conteúdo seja derrubado, mas para disfarçar a obscena quantidade de gelo substituindo abundantes mililitros de refrigerante. Eles não se importam de se sentar em incômodas cadeiras de madeira ou naqueles infelizes bancos de fibra, feitos propositalmente daquela forma para o cliente sentir-se desconfortável e inconscientemente abandonar o local após ter comido seu lanche, para conversar com seus amigos em outro lugar e garantir assentos livres para a alta rotatividade da loja.

Mas tudo bem, eu não sou tão ruim assim. Assumo as calúnias e boatarias, como os famigerados monstros, frutos de manipulação genética, da qual sairia a matéria prima para produzir os hamburguers da franquia. Vultos sem patas e sem cornos, alimentados por tubos ligados ao estômago. Os tais seres sem olhos e sem ossos (apenas cartilagens mal desenvolvidas), foram o estandarte da luta contra o McDonald´s por quase duas décadas. Uma pena. Lendas como essa, que servem para os xiitas apoiarem suas críticas, também servem para os McSeguidores provarem que os álibis usados por quem protesta são tão ridículos quanto o próprio Ronald McDonald. Motivos inteligentes e nobres não faltam, lembremos disso.

Teoria da Hipocrisia

Revertendo publicidade. Pegue o lucro líquido anual de toda a rede McDonald´s e diminua os lucros da das vendas de BigMac´s (apenas) em um único e miserável dia - onde provavelmente há um aumento no consumo de refrigerantes, fritas, sundaes, etc. Detalhe: os impostos cobrados sobre cada unidade não entram na doação, isto é, são retidos (está no cartaz do McDia Feliz, em letras pequenas, claro). Deduz-se impostos anuais pela filantropia praticada, arrecada-se em publicidade positiva, e o que temos não representa 0.1% de prejuízo ao fechar o ano fiscal da firma. Sabe aquele 1 real (diluído em moedas) que você fatalmente distribui para flanelinhas e o pedinte do cruzamento que separa o caminho da sua casa para a faculdade? Faça as contas da porcentagem de seu salário que este valor representa e veja – surpreso – que, por mês, você proporcionalmente ajuda mais que o McDonald´s em um ano inteiro.

“Mas vamos lá comer um BigMac! A renda será totalmente revertida para as criancinhas vítimas de câncer!" É no mínimo irônico que a mesma empresa responsável por estimular maus hábitos alimentares em crianças, e por vender inúmeros alimentos que aumentam o risco ao câncer, faça uma campanha dessas. E as pessoas ingenuamente acreditam que estão comendo um hambúrguer por uma boa causa! Se você quer ajudar crianças com câncer, entre em contato com uma instituição e o faça diretamente. Mas é tão mais prático ajudar comendo um lanche não é mesmo? Ainda mais aquele preferido.

...

Concluindo.
Este é provavelmente o maior e mais lúcido texto que eu já escrevi sobre o assunto. E o mais despretensioso também, acredite se quiser. Porque eu estou de saco cheio e não quero mais mudar o mundo (deve ser a idade). Não quero mais em minha vida incitar a miniatura de uma revolta popular, muito menos tenho em mãos a verdade absoluta. Ofereci apenas meu ponto de vista e alguns fatos irrevogáveis, para que alguém, talvez, reflita sobre o que considerava inabalável. Contudo, sempre haverá aqueles que hesitam repensar suas escolhas, pela comodidade de aceitar apenas o que lhes convém. Caprichos e pequenos luxos, a que preço? Olham ao seu redor e vêem amigos, pais, namorada(o), todos com uma opinião igual a sua e, portanto, errado deve estar o cara do blog. Mas já dizia o poetinha, toda unanimidade é burra, e se escrevi tudo isso é porque não aceito a condição de seguir o “comportamento de rebanho” (quanta ironia). Se você concorda com cada uma das linhas acima, ótimo. Mas cuidado! Se também acha que juntos talvez possamos derrotar este gigante, eu digo com toda minha provável sensatez que não, não vamos. Não se trata apenas de um boicote (de essência infantil) contra uma corporação americana. Você não é um Jedi em potencial, pronto para falir este império. Apenas o faça por você mesmo. É tudo sobre personalidade e a pessoa que escolhemos ser. Questão de valores, meus amigos, questão de valores...



Terça-feira, Agosto 19, 2003

"E por mais que você esqueça, nós não estamos dentro de um filme. Eu sei que posso seguir a corrente e dizer que nada mais importa, apenas seguir brincando em linha reta, tal qual soldadinhos enfileirados... Me apaixonando mas ficando fora do amor, vivendo algo doce mas que pode ser descartado. Mas eu quero algo bom para morrer por ele, e tornar belo meu ato de viver. Eu quero um novo erro; Perder é melhor do que hesitar. Você pode realmente não acreditar no que se passa pela sua cabeça... Só não diga que isso não tem a menor importância, que eu ainda posso continuar seguindo a corrente."

(tradução livre de Go With The Flow, do Queens of The Stone Age)



Segunda-feira, Agosto 18, 2003

Da série “Coisas que me emputessem...”

Você está em um ponto de ônibus. Um bem cheio. Muitos coletivos encostam, porém apenas para deixar algumas pessoas. Outros, literalmente, passam lotados, obviamente porque não interessou a ninguém uma parada. Munido de enorme perspicácia, você rapidamente deduz que todas aquelas pessoas estão esperando por um mesmo ônibus, "aquele", que quando observado atenciosamente lhe faz ter pena das sardinhas que o seu bichano come diariamente.

O tempo vai passando de forma cruel e então, finalmente, ele surge... Um bólido celestial enviado por Deus, um alento tardio para toda aquela angústia acumulada em oito horas de trabalho e um “plus” ainda mais significante: A vontade de chegar em casa para desfrutar seu cotidiano mundano - que inclui ouvir aquela coletânea nova do Biafra, assistir Titanic dublado na FOX , se masturbar, comer pão com manteiga molhado no Nescau e outras pitoresquices.

Um passageiro faz sinal para o ônibus que, automaticamente, reduz a velocidade e aciona a seta para confirmar a parada. Você caminha apreensivo para a borda da calçada, afim de garantir um lugar mais aconchegante no meio daquele aperto. Mas eis que, para seu espanto, uma pessoa repete o mesmo sinal que o outro passageiro já havia feito, e mais outra, e mais outra, até que, em uma reação em cadeia, todas as pessoas que esperavam por aquele ônibus fazem a mesmíssima requisição de parada que o motorista já entendera há tempos. Automatizadas, condicionadas à uma cretinisse absurda, sem qualquer questionamento são. O cerne da questão é: Porra, o que será que estes indivíduos pensam?

- Olha, mi disculpa, mas num vô deixá o senhô entrá no meu ônibus não!

- Mas porquê? Qual o problema? Todo mundo entrou, porque eu não posso entrar também?

- É que...

- Se for por ele estar cheio, mais um passageiro não fará a menor diferença!

- Num é isso não senhô.

- Então o quê?

- É qui o senhô num fez o sinal de parada. Eu só posso deixá entrá as pessoa que mostraram um interesse prévio em fazê a viagem nesse circular. Como o senhô num estendeu o braço, eu simplismente num posso dexá o senhô subí assim, de última hora, entende? O senhô mi pegô disprivinido!

...

Além de um Shelby Cobra, uma TV Wide, férias em Ibiza e o telefone da Angelina Jolie, eu também preciso de alguma paciência.




Quinta-feira, Agosto 14, 2003

Houve uma época em que, de tanto pensar em minha vida, ganhei paúra de tanta lucidez. Eu só queria um pouco de sossego, sabe? Tomar a pílula azul do Morpheus e acreditar estar tudo bem. Quem sabe ser mais fútil, para tolerar uma felicidade torpe, do tipo "uhuuuuu!!!"...

Daí eu escrevi algo assim:

A Gaiola

Um pássaro se crê livre,
só porque pode voar dentro de uma gaiola.
Outro pássaro se crê mais livre ainda,
só porque pode voar dentro de uma sala.
E mais livre um outro pássaro se sente,
só porque pode voar dentro de uma casa.
Quando da casa sai,
maior é a liberdade que um pássaro pode se sentir,
só porque pode voar por entre os prédios.
E um pássaro é livre...
Só porque não pode alcançar o sol, o céu e as estrelas,
só porque não pode cobrir o mundo com suas asas,
um pássaro é livre.
Acho que todas as crianças devem ser pássaros.
Sua liberdade é limitada pelo tamanho do seu próprio entendimento.
São ingenuamente livres,
mas ainda assim, livres.
Infelizmente crescemos quando percebemos,
o que nem todos os homens podem ser.
Livres, pássaros, mentiras um dia verdadeiras.
Hoje eu conheço as fronteiras,
quero atravessá-las,
contudo sei até onde me é permitido.
Ofuscadas visões além da gaiola,
por muitas vezes deixei de acreditar na fuga.
E quando o cansaço e a decepção tomam conta da minha alma de homem,
eu me pergunto se não seria melhor virar um pássaro,
para descarregar toda culpa de minhas costas,
tirar meus pés do chão,
e voar preso por aí.




Quarta-feira, Agosto 13, 2003

[ironia: on]

Que felicidade! Acabo de tomar uma decisão que reflete o ápice de minha maturidade acumulada durante os anos. Em vez de torrar os 400 reais da última parcela de meu seguro desemprego em uma nova tatoo no braço, gastarei toda essa grana em um curso de .NET (leia-se “dot net”), para valorizar meu curriculum e assegurar um melhor lugar no acirrado mercado de trabalho. O panorama atual exige que eu me recicle profissionalmente, e nada mais justo que empregar este dinheiro em novos conhecimentos. Sinto-me tão bem. Ah, merda...

[ironia: off]



Segunda-feira, Agosto 11, 2003

Bigode

É verdade, ontem foi dia dos pais. Liguei pra ele e tudo. “Vem aqui em casa comer um churrasco”, eu disse. Ele veio. E depois foi embora. Ano passado foi a mesma coisa. E ano que vem também será. Quantos dias vão levar para nos vermos novamente, eu não sei. E se você me disser que muitas vezes isso é normal, eu respondo que não, não é.

...

Quando eu tinha uns oito anos meus pais se separaram. Mas a civilidade que existe entre eles é rara, e sua presença aqui em casa, mesmo após o dia em que ele foi embora de vez, é sempre bem vinda, qualquer que seja a ocasião. Sendo assim, durante esse meio tempo, foi nos dada uma honesta oportunidade de manter um relacionamento estreito, mesmo dosando a companhia um do outro com um conta-gotas afetivo. Contudo, devido a uma série de fatores absolutamente comuns, eu gostei mais e gostei menos dele conforme os anos formavam em mim uma consciência mais crítica. A história é manjada. Quando eu mais precisei de uma companhia paterna, ele esteve ausente. Não em presença, mas no sentido de ser pai mesmo. E quando ele quis se aproximar, era eu quem já não precisava mais dele. Nunca conversamos sobre o assunto, mas sei que ele tem conhecimento disso, e vice-versa. Hoje, quando olho para ele, vejo apenas o filho que eu poderia ter sido, não um pai. E no aspecto positivo da coisa, um amigo mais velho. Um grande, grande amigo, falando baixinho: “Sabe filho, quando olho pra você também enxergo o pai que eu poderia ter sido”.

É meio difícil tentar se enganar, ainda mais quando tento buscar lembranças recentes de um relacionamento genuíno em família. Tudo o que encontro são “obrigações” de ambas as partes. Desculpas para não comparecer aos seus chamados, ou minhas irônicas aflições devido sua ausência. Porque? Não sei. Apesar de nossas casas estarem separadas apenas por algumas quadras, apesar de eu saber todos os seus telefones de cór, nós pouco nos falamos. Não é desentendimento, não é por falta de tempo. O abismo afetivo que nos separava já fechou há tempos. Problemas foram solucionados e algumas faltas já foram perdoadas, ainda que exista uma que continua consumindo meu sossego. Se antes ainda era possível me apoiar em pensamentos adolescentes, do tipo “se não o procuro é porque ele também não me procura”, hoje é preciso muito mais para consolar a omissão e o descaso dos meus vinte e cinco anos. Essa é minha grande falta, e a dele também.

Nos tempos de moleque a coisa era muito diferente. Lembro de tirar fotos na pedreira, sentado no capô de sua Brasília branca novinha. Lembro de estar voltando da piscina do Clube Saldanha da Gama, com minha sunga pendurada no retrovisor do carro para secar mais rápido; Feliz pra caralho. Lembro de assistirmos “A História sem Fim” no cinema, e lembro também que saíamos todo dia 5 de abril para comprar uma nova coleção de Playmobil. Lembro das primeiras vezes em que ele me levou ao Estádio Urbano Caldeira, onde aprendi a ser santista e também como evitar levar uma garrafa cheia de mijo na cabeça. Lembro do dia em que ele foi embora...

Hoje, se você me perguntar, aprendi fazer a barba sozinho. Regulava o freio de minha “Free Style” na bicicletaria por não ter ferramentas em casa. Também não tive com quem dialogar seriamente quando comi a primeira garota de minha vida (maldito sexismo). Aprendi a dirigir somente na auto-escola, e quando bati o carro pela primeira vez, foi para minha mãe que eu liguei. O nó de minha gravata no primeiro dia de emprego em São Paulo foi dado - e ensinado - por meu avô. Passei anos construindo um afeto unilateral. E se eu tivesse que escolher...

...

É, o coroa esteve aqui em casa. No pouco que conversamos ele contou que não tem se sentido muito bem. Algumas tonturas e um sintomático aperto no coração não o deixam mais dormir direito. Ontem à noite fui eu quem senti esse aperto antes de pegar no sono. Alimentando uma falta de gratitude, vejo pessoas ao meu redor que não tiveram seus pais ao seu lado no dia de ontem. E eu o que fiz com tal privilégio? Na menor das atenções que pude lhe dar, dividi nosso precioso tempo entre conversas cheias de superficialidades, telefonemas, amigos e videogame. Dia dos Pais. “Ah rapaz, se você soubesse...”. Ele foi embora sem levar (ou deixar) qualquer afago além de nossa cordialidade mútua, de um carinho meio envergonhado. Covardia. A mesma que me deixa à vontade para discutir o assunto apenas por aqui, escondido nas palavras deste Blog idiota. Sabe como é, meu pai é de uma geração que vê a Internet como algo útil, mas deveras complicado. Provavelmente partirá sem o conhecimento de tais pensamentos. Mas vai ver um dia ainda lhe falo tudo isso. Basta eu descobrir um jeito de ser menos cabeça-dura. E quando isso acontecer lhe mostrarei como curar a dele também, lançando o mesmo olhar orgulhoso da época em que aprendia a ser homem com aquele cara. A época em que era ele quem sabia das coisas.

Pai, eu te amo, porra!





Sábado, Agosto 09, 2003

Sabe o Kafka? Então...

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"Ai de mim!", disse o rato, " - o mundo vai ficando dia a dia mais estreito".
"- Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão rapidamente um ao encontro do outro que eis-me já no fim do percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair".
"- Mas o que tens a fazer é mudar de direção", disse o gato, devorando-o.






Quinta-feira, Agosto 07, 2003



"Ok, é a capa do álbum Never Say Die!, do Black Sabbath. E daí?"

Hummm... Não sei. É, não sei. Simplesmente estava zapeando a TV há algumas horas, em busca de algo que pudesse ser mais intrigante que o Show do Milhão, e fui cair num daqueles documentários do Discovery, um sobre aviões supersônicos. Daí lembrei deste disco, aliás, desta capa. O play em si nem é tão bom. Sabe cumé, era a despedida do Ozzy no grupo, e todos eles já tocavam meio sem tesão.

"E?"

O fato é que eu via a capa desse disco desde a época em que mijava nas fraudas. Por um completo mistério ele engrossava a pilha de bolachões aqui em casa. Digo mistério porque meus pais nunca curtiram um metalzinho. Minha mãe ouvia Beatles e olhe lá. Meu pai não passava do Led Zeppelin e do Queen, mas isso nem chega a ser muita novidade. Acho que 99,9 % dos coroas curtiam Queen. Ah, havia também o Pink Floyd. Eu tenho uma imagem um tanto bizarra na minha cabeça: Meu pai enrolando um fuminho enquanto delira com as letras "metáforas-de-porra-nehuma-ou-não" do Syd Barrett. Não sei se isso realmente acontecia, mas era a década de setenta, for God´s sake! Orra, ele não podia ser tão diferente assim a ponto de não levantar a bandeira de todo aquele suspeito "ideal". O mesmo que hoje se dissipou na fumaça dos baseados e na transpiração de todo aquele sexo livre, e hoje está sintetizado (e perdido) nas enormes barrigas dos nossos coroas ou na ingenuidade de nossas mães na frente da TV, aprendendo novas receitas com a Ana Maria Braga.

"TÁ, MAS E DAÍ!?"

Bom, se já era um mistério muito misterioso o disco fazer parte da coleção de LP´s da família Loureiro naqueles tempos, que direi sobre o seu repentino sumiço. Dei conta do ocorrido quando, lá em 1993, meu amigo Ricardo Bosh proferiu belíssimas palavras das quais nunca esquecerei: "Black Sabbath é do caralho". Então ta. Mas cadê aquele disco que estava aqui em casa? Heim? Heim? Aquele com a capa horripilante! Lembram? É disso que este texto se trata!

"Ahhh...(?)"

Confesso. Tenho uma relação meio estranha com essa foto. Algo estala no fundo do meu cerebelo sempre que vejo estes dois pilotos. Nem vou insistir muito nos motivos para não ser taxado de maluco. Mas há algo subliminarmente macabro nessa foto, não tentem me convencer do contrário. Para mim é explícito que há algo intrínseco (!) nesta simples imagem. Aviões de guerra são sinônimos de morte, e aqueles homens parecem encarnar anjos maus, de um momento apocalíptico qualquer. Existe um ar carrasco naqueles pilotos, com seus olhares penetrantes, mesmo escondidos por trás daqueles "escafandros". Naquele momento, congelado por uma simples fotografia, eles podem ser tudo, menos pessoas comuns. Talvez semideuses, humanos amplificados que transcenderam uma medíocre bondade para poder condenar sem culpa. Guerra, dor e sangue, divertidamente proporcionados por seus aviões invencíveis.

"Rapaz, vai se tratar..."

Acredito sim, ser muita informação por trás de uma capa aparentemente boba. É fato. Eu NÃO posso estar completamente equivocado, afinal a imagem não foi escolhida à toa, tenham certeza disso (se bem que a capa do Paranoid parece ter sido - alguém me explica aquilo?). Além do mais, a idade da foto também colabora para minha "viagem". Technicolor mostrando um "moderno antigo", momentos outrora admirados que hoje não passam de piada. Coisas deste tipo me fascinam, vai entender.

...

Resumo da ópera. Acho que todos nós nos impressionamos com coisas bobas no decorrer de nossas experiências sensoriais. Livros, gravuras, músicas, filmes, conversas, qualquer coisa pode carregar um código instransferível capaz de destravar nosso imaginário por caminhos inusitados. Claro que a maior parte desses casos ocorre na infância, mas ainda assim existem aqueles que se perpetuam em nossas cabeças. Como o"jotapegue" lá em cima, ainda sinistro em meus vinte e cinco anos.

Never Say Die! Que meda!


Obs: Esse post está completamente sem sentido, só queria que os leitores soubessem que eu tenho plena consciência disso. Acho que era apenas vontade de escrever mesmo (até porque não tem ninguém pra conversar esta hora). Alguém aí quer ser meu amigo?




Terça-feira, Agosto 05, 2003

Faz como eles dizem, garoto.

Larga mão disso tudo, vai trabalhar.
Não perde tempo com bobagens,
não perde tempo com importâncias.
Não come,
não beija,
não trepa,
não fica.

Se vai, vai embora antes que o dia amanheça.
Vai antes que tenha que te explicar,
a explicar coisas a ti mesmo.

Pára de esfregar as mãos,
pára de olhar pela janela.
Pára de olhar naqueles olhos.

Faz como eles dizem, garoto.
Já tiraste os sapatos,
já tiraste as meias.
Então para de descansar os dedos.
Pára de coçar a sola.
Lava a mão.

Todo dia chega essa hora,
o momento de ir embora.

Paga a passagem,
dá dinheiro a quem pede.
Seja agradecido.
Seja generoso.
Seja educado.
Vai, vai, vai ser tudo isso.
Chega mais cedo
no funeral.
No teu funeral!

Joga fora a casca do sorvete.
Não põe açúcar no café.
Come o bagaço da laranja.
Injeta na veia o rapé.

Faz como eles dizem, garoto.
Não aceita teus presentes.
Não reclama da dor.
Não me toca,
não me toca.
Não te toca.

Pára com isso!
Pára de chorar.
Larga de sofrer.
Veste o paletó.
Esvazia o teu bolso.
Guarda embaixo do colchão.

Faz como eles dizem, garoto.
Dá as costas,
dá a mão.
Dá a vida,
morre no chão.




Segunda-feira, Agosto 04, 2003

Acabei de ver o novo filme de Danny Boyle, batizado no Brasil como Extermínio – nome infame para variar. Digo infame porque o título faz a película parecer mais uma daquelas fitinhas lado B de terror/ficção que costumam ser exibidas nas madrugadas do SBT. Claro que o título original – 28 days later – encaixa muito melhor com a história, mas...



Bom, o que eu posso dizer? Gostei muito. Dada a carência atual de bons títulos do gênero, Extermínio mata sua sede de sangue de forma inteligente e não gratuita, acredite se quiser. É uma história de terror sim, porém com um tom macabro muito refinado. O homem, para quem não conhece, é o mesmo que dirigiu Trainspotting, A Praia, Cova Rasa e Por Uma Vida Menos Ordinária. Com uma filmografia dessas, pouca merda ele não é, garanto. E mesmo que todos esses filmes não possuam a menor afinidade com este gênero, o resultado final é muito competente.

A história tem partida quando um grupo de eco-ativistas invadem um laboratório em Londres para libertar chimpanzés que estão sendo usados como cobaias de um experimento bizarro. Os símios são submetidos a uma espécie de lavagem cerebral, onde são obrigados a assistir cenas violentas através de inúmeros monitores. Li pela Internet que a cena remetia ao filme A Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, de Stanley Kubrick - 1971) quando o jovem Alex sofre o memorável processo de “desviolentação” (aff, eu inventei isso?) de sua mente. Achei que neste ponto Extermínio deixou muito a desejar. O processo é até semelhante, mas não possui o mesmo impacto do filme de Kubrick. Aliás, nem deve ter sido essa a real intenção de Boyle. Wathever. O fato é que, após o experimento, os macacos foram contaminados com uma espécie de “raiva psicológica”, que se manifesta na forma de um vírus. E para azar da humanidade e sorte dos espectadores, os bichos fogem e espalham a doença. 28 dias depois...

A humanidade foi praticamente devastada. As pessoas contaminadas viraram espécies de zumbis movidos por ódio, e ser atacado por um deles significa morte ou mesmo virar outro daqueles seres nefastos. Os zumbis se movem tal qual vampiros, sem aquele ar podrastelho e vagaroso do qual estamos acostumados. Inovador, com certeza. Mas, fora isso, nada de novo no front. O status de “filme fodasso” é atingido através da forma como a narrativa se desenrola, simplesmente fenomenal. Jim, o personagem principal, acorda de uma espécie de coma em um hospital deserto. Ainda confuso, percebe o que algo está errado. Enquanto procura respostas, encontra outras três pessoas na mesma situação que a dele. Buscando uma forma de sobreviver neste mundo pós-apocalíptico, eles captam um sinal de rádio vindo de Manchester, de um campo militar que parece ser a última resistência humana na Terra. Juntos eles rumam para o norte da Inglaterra, para este oásis (não a banda) livre dos zumbis, em busca de salvação.

Se você sentia nojo ao ver Gene Simmons vomitando sangue nos shows do Kiss, passe longe de Extermínio. A carnificina rola solta, ainda que mais discreta do que a vista em filmes como Um Drink no Inferno ou Vampiros do Deserto. Nota-se de forma clara não ser exatamente esta a intenção principal do longa-metragem (que se apóia com as quatro patas em uma sólida e interessante história). O grotesco dá as caras por ser simplesmente inevitável. Mesmo assim o filme oferece raros momentos, que não se espera em um triller do gênero. O destaque vai para a sequência inicial, com as cenas em que Jim caminha por uma Londres deserta. Fantástico! O take do supermercado, onde um emblemático momento de descontração nos é oferecido, também é f-o-d-a (ok, me empolguei).



No mais é uma história que, seguindo a tradição de seu diretor, oferece algo muito além do que a superficialidade que geralmente pagamos para ver. Questões éticas são abordadas a todo instante por Boyle, e compensam até mesmo pequenos deslizes, como um final um tanto rebuscado. Viver ou apenas sobreviver? Até onde pode ir uma amizade? Quem está preparado para assumir a responsabilidade de perpetuar a raça humana? É um conto sobre o homem e o animal primitivo que habita cada um de nós. O lado negro do ser humano, pronto para despertar a qualquer instante. Seremos tão diferentes assim daqueles seres repugnantes? Em um cinema perto de você!



Domingo, Agosto 03, 2003

Meio assim...

Semana passada me aconteceu algo curioso. Sabe essas situações inesperadas, que nos exige reações imediatas e ao final de tudo acabam funcionando como a prova dos nove sobre quem somos realmente? Mais ou menos isso.

No último sábado, após estacionar o carro quase 1 Km do bar onde estava acontecendo o aniversário de uma grande amiga, me deparei com uma mulher chorando. Uma balzaca, com seus quarenta e poucos anos, de mãos dadas com uma criança que há poucas semanas devia ter aprendido a andar. Não era pedinte (demonstrava um nível social bem elevado), muito menos parecia estar machucada. Também descartei a possibilidade de ser uma "pegadinha", dada a hora do ocorrido. Mas impressionava o seu estado. Um choro desesperado, no meio da rua, como quem não conseguia encontrar outra saída senão se entregar àquilo.

Usei a lógica do "não é comigo" para continuar meu caminho, sem nem mesmo olhar para trás, mas o fato é que, mesmo uma padaria depois, eu ainda conseguia ouvir o pranto desenfreado da mulher. Ainda assim continuei seguindo, mutcho matcho, até que... Até que... Um estalo. Quando finalmente estava quase colocando os pés dentro do bar, resolvi voltar para oferecer ajuda. Vai entender...

Não vou entrar no mérito sobre como e porque resolvi fazer aquilo, até porque minhas tentativas de auto-análise acabam sempre frustradas. Mas eu tento, e digo que talvez seja meu inconsciente trabalhando meu consciente – aquele que conhece minha vontade de me tornar uma pessoa melhor a cada dia, blá, blá, blá. Pronto, falei. Eu tento ser melhor, e voltei simplesmente para ajudar. Sim, eu voltei porque era a atitude certa a ser tomada, e voltei porque, se fosse comigo, talvez gostaria que alguém fizesse o mesmo. Todos nós sabemos... Os ensinamentos do bom samaritano são manjados e, pra falar a verdade, dão no saco. Mas quem irá dizer que não é foda segui-los, e mais foda ainda é nunca se beneficiar deles no convívio diário. Então eu estava simplesmente ali, sem pressa de chegar no aniversário, sem interesse em favores sexuais.

- A senhora precisa de ajuda?

(soluços - sem resposta)

- Aconteceu alguma coisa?

(choro - sem resposta)

- A senhora foi roubada?

(mais choro - sem resposta)

- Morreu alguém?

(urros e convulsões - sem resposta)

Depois disso ainda ofereci carona, perguntei se ela gostaria de ligar à cobrar para alguém (no meu celular sem créditos, claro), ou se preferiria que eu fosse embora para curtir sua miséria sozinha. Como resposta obtive apenas mais choro. Assim, o panorama da situação era completamente inusitado. Eu estava ali, levantando hipóteses em voz alta e oferecendo uma rara compaixão, e ela chorando, olhando diretamente nos meus olhos como quem vislumbra um monstro. Freak!

Tudo não durou mais de 3 minutos e, é claro, minha paciência se esgotou.

- Estou indo embora ta bom? Se precisar de ajuda é só gritar – E rezar para que eu ainda te ouça, pensei.

Todo cheio de mim, voltei novamente para o barzinho com uma certeza imutável: Eu ofereci ajuda para aquela louca, uma atitude praticamente inédita em minha vida, e me sentia bem. Muito bem, diga-se de passagem. Dever cumprido, sabe como é? Se ela não aceitou toda aquela indulgência, já não poderia me sentir culpado.

Obviamente eu descrevi o “causo” para alguns amigos presentes, assim como para minha família no dia seguinte, namorada, o caixa da farmácia e o entregador de gás. E sempre que a história era contada, prevalecia em mim uma certa prepotência quando explicava os motivos que me fizeram dar o caso como perdido. A revolta estava no tom da minha voz, a arrogância estava no meu semblante.

- Caralho, eu tava ali oferecendo ajuda e ela não falava nada. Virei costas e saí andando. Foda-se...

E impressionava a maneira como meus interlocutores eram cúmplices de tal reação...

- Ta certo, problema dela! Você fez o que podia!

Reparem que esse pensamento coletivo possui apenas uma finalidade, que é proteger minha nobre e imaculada atitude de compaixão contra a dura realidade: Eu ajudei porra nenhuma. Percebi isso ainda ontem, antes de pegar no sono. Ora... Ajuda pela metade não é ajuda inteira, não precisa ser nenhum gênio para perceber isso. E mesmo que venham dizer que “o que vale á a intenção”, isso também não foi suficiente. Eu tinha tempo, eu tinha condições, eu tinha meios, eu tinha um fim. E ainda assim não paguei para ver. Como quase tudo em minha vida, eu fiz pela metade. E é triste saber que saí feliz da vida, me achando o máximo, camuflando a verdade com pensamentos que façam sempre com que eu me sinta bem, no controle de uma realidade alternativa, prazerosamente perfeita.

Eu poderia ter esperado pacientemente que sua crise de choro passasse, muito mais que os quase três minutos que adiaram minha pequena diversão diante de tamanha agonia. Ou então poderia levá-la até um comércio que estivesse aberto, onde poderia encontrar alguém que soubesse lidar melhor com aquela situação, sei lá. As possibilidades são muitas, bastando para isso ter boa vontade. Mas não foi desta forma. Eu ajudei até onde um mínimo esforço fora exigido, e me senti realizado e orgulhoso como quem muito fez.

Contudo, me pergunto se estarei no caminho certo. Talvez o mesmo sentimento que me fez voltar para tentar ajudar a mulher, é o mesmo que agora me faça rever tais conceitos. Level 2! Como eu disse, quero apenas ser uma pessoa melhor, e preciso aprender a ser completo e genuíno em todos os meus sentimentos. Não se tratam de provações kármicas ou testes celestiais. Odeio esse tipo de bobagem. Mas a verdade escancarada é que essa oportunidade já passou, e nada garante melhores consequências em uma próxima vez, pelo menos enquanto eu não fizer valer essa mudança. Ajudando ou sendo ajudado, quero apenas o melhor. Pra quem sempre se orgulhou em odiar por inteiro, amar por inteiro – no sentido mais amplo que a palavra possa ter – não seria nada mal. Triste é perceber como isso pode ser difícil quando não é apenas da boca pra fora...




Nenhum animal foi ferido na confecção deste Blog.
- melhor visualizado com os olhos -