Terça-feira, Setembro 30, 2003
Poeminha Mundano
Sombras coloridas,
luzes difusas,
confusas,
dançam à minha frente.
Vultos misteriosos,
brincam com minha razão,
carente,
farta de não ter certeza.
Não distingo,
apenas desconfio,
que a nitidez se esvaeceu.
Intuição é o estandarte,
que me guia na procura incessante;
Onde estarão meus óculos, maldito?
Ingrato astigmatismo!
Segunda-feira, Setembro 29, 2003
Discutindo a discussão da relação
Discutir a relação é algo que só faz algum sentido para pessoas de cromossomos XX. Coisa de mulher (sem qualquer sentido pejorativo), de todas as classes e idades. Nem pense que namorar garotas de dez anos livram alguém do incômodo...
*Num parque de diversões, no meio das Xícaras Malucas:
(garota) Acho que temos de discutir a relação...
(garoto) Não fale com a boca cheia de algodão doce!
De homem pra homem, creio que esse carma irá nos acompanhar por toda eternidade. Sua mais íntima namorada, aquela outra que o entende como uma irmã e até a débil gostosona. Pouco importa. Homens têm câncer de próstata, mulheres discutem a relação. Este é o verdadeiro sentido do termo "questões de gênero".
Mas, afinal, o que é discutir a relação? Seria simplesmente falar a verdade? Isso, definitivamente, não é algo para que as mulheres estejam prontas...
(ela) Por que você gosta de mim?
(você) Seus peitos. Grandes.
(ela) Só isso?
(você) É. Depois até me acostumei contigo...
Na verdade é até óbvio ser possível um amor sincero entre homem e mulher. O problema é que todo seu esplendor só é percebido quando acaba, não importando o quanto você possa tê-lo discutido enquanto vigorava oficialmente. O “amor mais profundo da sua vida” é um sentimento meio retroativo, sendo que para encontrá-lo não há segredo. Basta pedir em namoro qualquer garota da esquina e, tempos depois, fazer com que ela o despreze (uma boa tática para isso é ser você mesmo). Ela passará a ter qualidades onde ninguém enxergava, e você até achará incrível a forma como ela fazia comentários inteligentes sobre a vizinha estar engordando.
Caros, não desistam. Discutam a relação, pois é mais forte que qualquer vontade contrária. Quando eu tinha uns 17 anos fazia uso de um truque baixo, que consistia em movimentar a cabeça repetidamente para cima e para baixo a cada dez segundos enquanto cantava mentalmente uma música bacana (sem esquecer de encaixar chavões espertos como “eu te entendo”). Hoje em dia, quando não há por onde escapar, eu mergulho de cabeça no assunto, seguindo uma teoria (criada por mim, claro) que, apesar de igualmente infantil, ao menos possui alguma nobreza: Acredito que se discutirmos muito, mas muito mesmo, a relação com uma mulher, chegará o dia em que todos os is terão seus pingos, e finalmente chegará o sossego (mesmo com tudo igual à antes). Agora se nada disso serve pra você, fique com o sábio conselho do meu pai: “O sexo compensa todo o sacrifício”. Só não queria decepcioná-los ao informar que minha mãe o botou pra fora de casa anos atrás...
Quinta-feira, Setembro 25, 2003
Travessia
Ontem meu treino de natação foi inusitado. Logo que cheguei ao poliesportivo, cruzando as arquibancadas, percebi que não havia mais as divisórias das raias na piscina, apenas alguns demarcadores flutuantes, presos ao fundo com o auxílio de cordas. Antes de prosseguir até o vestiário, ainda perguntei ao instrutor se não haveria aula, pois daquela forma me parecia simplesmente impossível coordenar tantos alunos de níveis diferentes em um espaço sem delimitadores, completamente anárquico. Disse ele que na próxima semana haverá uma competição, na verdade uma travessia, e, na medida do possível, estava tentando simular as condições do mar aberto em uma piscina de 50x25m. Um treino “diferente”, enfim. Então ta. Óbvio que, de imediato, a idéia me pareceu divertida. Natação é um esporte solitário e introspectivo, e incluir uma noção de coletividade e interação entre os alunos faz de um treino sério quase uma recreação. Enfim, a aula começou e os alunos deveriam se amontoar em um minúsculo espaço atrás de algumas bandeirinhas, tal qual uma largada, e esperar o sinal que seria dado pelo instrutor. Após isso a ordem era cair na água, no melhor estilo “salve-se quem puder” (que craw que nada!), e completar o percurso que consistia em ladear toda a extensão da piscina, passando sempre por trás das bóias. Durante as quatro voltas que me foram suficientes, sensações diversas tomaram meu espírito enquanto eu nadava. A primeira, mais impactante, foi a desorientação. No lugar de um percurso certo e, por dizer, óbvio, com cordas à direita e à esquerda limitando um caminho sempre à frente, tínhamos que enfrentar algo totalmente novo, incerto, onde a trilha era muito mais instintiva e aberta a escolhas. Para complicar, aquelas “linhas” de azulejos mais escuros ao fundo da piscina, que servem como guias, se sucediam horizontalmente através dos meus óculos de natação, de forma a perderem qualquer sentido prático. Depois tive de enfrentar a sensação de competitividade propriamente dita. Dezenas de pessoas se acotovelando em um mesmo lugar, onde pernadas eram inevitáveis e, muitas vezes, propositais. No lugar da calmaria costumeira, de uma sensação de controle sobre o percurso, deveríamos nadar mais forte, mais motivados e ignorar a espuma gerada pelo bater de pernas do adversário à frente. Por fim, a última das sensações era o desalento. Se antes me consolava o fato de que, por mais cansado que eu estivesse, a cada cinquenta metros haveria um momento para recobrar o fôlego e seguir firme o resto do percurso (mesmo nem sempre precisando), ontem tal idéia deveria ser completamente abolida, como se as chances me fossem tiradas antes mesmo de começar. Uma longa jornada, de metragem e duração indefinidas, onde o melhor a fazer era aguentar firme até o fim, já que ninguém ali estava muito preocupado com o cansaço alheio, quando tal torciam por ele. Em resumo, tudo funcionou semelhante ao ato de crescer, penso eu.
Terça-feira, Setembro 23, 2003
Suásticas, liberdade de expressão e outras obsolescências
Sentado no fundo de um ônibus, respirando de boca aberta de modo a embaçar o vidro da janela que separava meus conflitos internos da realidade, uma visão surreal faz estalar o fundo do meu cerebelo. Quando o motorista parou, justo naquele ponto, lancei uma visão curiosa para as pessoas que ali esperavam suas conduções. Entre elas, um rapazinho, de uns quatorze anos, vestindo uma camiseta preta com uma suástica nazista estampada e, ao fundo, o rosto de Hitler ampliado em tons monocromáticos. De imediato fui tomado pelo choque, já que minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, menos neonazistas esperando o ônibus na maior tranquilidade. O movimento, altamente condenável, invadia meu espaço sem pedir licença, saindo do underground para ver a luz do dia. Respirei fundo, desta vez pelo nariz, e sem qualquer coerência no fluxo de idéias, me vi na obrigação de sentir alguma coisa. Qualquer coisa. Quem irá dizer não se tratar de um assunto delicado? Se por um lado ele ostentava uma propaganda deplorável em seu peito, por outro praticava o famigerado direito de liberdade de expressão, tão em voga atualmente.
Sou portador de uma fobia pela apatia crítica, que atinge proporções tão bizarras que chego a ser privado de ser uma pessoa, digamos, mais saudável. É essa urgência maluca de tomar uma posição, de um senso-crítico exacerbado, hostil à indiferença. Ou é ou não é, não existe essa de mais ou menos. De mais ou menos basta a vida. Costumo ser um tanto radical em meus pensamentos, o que não me salva de ser estúpido muitas vezes, ainda que um cara mais seguro. Questão de escolha. Assim, de modo prático e automático, condenei-o instantaneamente. Abracei o óbvio, sempre tão acessível. Mas (sempre existe um mas), tenho outra política pessoal, ou melhor, filosofia, onde todo pensamento que chega como um surto precisa ser revisto. Como se todos os argumentos fossem rascunhos que devam ser passados a limpo antes de serem arquivados. Falta de espontaneidade? Bobagem... Eu simplesmente me conheço. Foi então que, rapidamente, fui acometido por uma urgência libertária onde qualquer pensamento proibitivo precisa ser exorcizado quanto antes. Medo de ficar retrógrado, talvez, que no final não passa de outra bobagem. Caceta! Sou a favor do casamento homossexual, da legalização das drogas, da livre escolha do aborto, da doação de órgãos e diversas outras questões importantes que de tanto serem discutidas viraram lugar-comum, assuntos quase insuportáveis. E se até cometo pequenas contravenções (que não prejudicam ninguém), como poso me considerar um conservador? Fora de questão. Eu simplesmente não poderia julgá-lo pelo óbvio. “Liberdade de expressão, rapá!”.
A declaração universal da liberdade de expressão diz:
“Todo homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transferir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.”
Tão certo e claro, tão belo e incontestável... Além disso, existem pequenas, porém importantes, probabilidades que deixam a situação completamente inócua. Por exemplo, o cara poderia não saber exatamente o que estava vestindo. Confundiu com a cruz do Bad Religion, sei lá. No caso dele possuir um ínfimo conhecimento de causa, quem garante que a história não lhe foi glamourizada por algum acéfalo irresponsável? Exemplificando, é absolutamente possível alguém que confie no que eu digo, e não entenda lhufas de Geografia, aceite como verdade a afirmação de que a Sibéria é um lugar ensolarado, de temperaturas escaldantes. Pessoas de um modo geral acreditam por instinto, sem muito questionamento, e tal fato só pode ser agravado se vivemos um momento onde sentimos a necessidade de eleger e cultivar ídolos – Hitler entre eles, por quê não? Triste é saber que em alguns tal necessidade perdura até a morte. Particularmente matei todos os meus heróis antes que “morressem de overdose”. Entendo que idolatria e admiração jogam em times separados, e eu sou muito mais o segundo. Minha merda fede tanto quanto as deles, e faço disto um arauto.
Que seja. Passei o resto do dia fortificando tais idéias, prazerosamente me colocando na vanguarda de uma frente de pensamentos liberais. Mas de maneira incrível, no dia seguinte, acordei com outra opinião (chego a ter medo de mim mesmo). Relevei as questões anteriores (mais uma vez) é me perguntei se existem argumentos suficientes que, de alguma forma, absolvam o garoto. O outro lado da moeda, saca?
Vamos esquecer um pouco a “expressão” e ficar somente na “liberdade”. Sobre ela existem diversos livros, discursos fáceis, teorias rançosas e, é claro, ditos populares. Por sinal, detesto todos eles, mas existe um, em especial, que é campeão na arte de me tirar do sério: “Sua liberdade termina onde começa a do próximo”. Quer absurdo maior que esse? A essência é até positiva, mas o paradoxo me deixa perplexo. Ora, liberdade é liberdade e, até onde eu saiba, ela só existe enquanto infinita. De acordo com a primeira definição do Aurélio:
liberdade . S. f. 1. Faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a própria determinação: Sua liberdade, ninguém a tolhia.
Oba! Agora espiem só a segunda definição do mesmo dicionário:
liberdade . S. f. 2. Poder de agir, no seio de uma sociedade organizada, segundo a própria determinação, dentro dos limites impostos por normas definidas: liberdade civil; liberdade de imprensa; liberdade de ensino.
Chega a ser um contra-senso. Alguém precisa inventar outra palavra para isso. No meu entendimento, liberdade só existe enquanto incondicional, perfeitamente amplificada em seu conceito original. Tendo um fim em si mesma (e não em outras liberdades), a palavra propriamente dita – tal qual o “Nome da Rosa” – nunca poderia conter qualquer limite como definição. É como dividir o mundo inteiro em bilhões de pedaços minúsculos, um para cada habitante (quem pudesse pagaria pelos maiores, claro), sendo que cercas imaginárias fariam tal divisão. Dentro do seu cercado você é livre para fazer o que bem entender, só não invada o do próximo. Seguindo esta idéia, um animal enjaulado é livre, pois dentro de sua cela tudo lhe é permitido e suficiente. Que beleza!
Acredite, não existe um pingo de exagero nesta metáfora. E afinal, quem aqui, vivendo em sociedade, se crê realmente livre? Se você é religioso, deve a Deus. Se você estuda, deve boas notas. Se você trabalha, deve pontualidade. Se você tem um compromisso, deve fidelidade. Você deve o voto, deve o serviço militar e deve impostos extorsivos. Deve amor, deve bons modos e deve sucesso. Viver nunca é o bundalelê que gostaríamos, e isso não pode ser bom, muito menos completamente ruim. Liberdade mesmo é aquela que é acompanhada de preceitos morais e éticos dos quais ACREDITAMOS realmente, onde os limites partem de nós mesmo, não da cabeça de outrem ou leis e preceitos dos quais não concordamos. Um mundo onde cercas seriam obsoletas, baseado apenas no respeito mútuo. Claro que para isso acontecer é necessária uma generosa dose de responsabilidade, e talvez aí resida tanta resistência. Não sou ingênuo a ponto de ignorar que do jeito que eu a idealizo, a palavra liberdade soa quase utópica. Mas ao menos seria plena, e não “isso” que nos vendem.
Sobre a liberdade de expressão, chego a conclusão de que é somente mais um engodo para regular nossas vidas, uma vez que até ela, por consequência, também possui seus limites. No lugar de dizer “aqui já é proibido” ficamos com um “até aqui você é livre”, muito mais confortável aos ouvidos. Não há o menor sentido em apostar nisso. E mesmo que ela fosse realmente plena, não sei se seria um bom negócio. Sempre haveria alguém ferindo os direitos alheios, tolhendo e desrespeitando opiniões e o sagrado livre arbítrio. Sempre haveria alguém desfilando na rua com uma suástica na camiseta... Aliás, ai de mim fazer qualquer tipo de represália, sob a pena de estar ferindo os direitos dele também. Complicado. Neste caso o melhor a ser feito é basearmos nossas opiniões e atitudes discernindo certo e errado, sem maniqueísmos, mas sendo portadores de bom-senso, sanidade e uma idiossincrasia saudável.
“Os abusos da liberdade de expressão devem ser reprimidos; mas a quem teríamos a coragem de delegar esse poder?” (Benjamin Franklin)
Agora sim, sobre rapaz no ponto de ônibus. Cabe a mim julgá-lo e/ou condená-lo? Pela suposta falta de informação, talvez. No caso de ele ter consciência plena sobre o que se tratava a camiseta, com certeza! Contudo, mesmo que eu passasse por ele a pé, muito provavelmente nada faria. Não lhe daria uns tabefes, não incitaria a malhação do Judas, não não o obrigaria tirar a camiseta. Faria apenas algumas represálias internas, de cunho pessoal. Mas se ele me perguntasse o que eu estava olhando, aí sim, lhe diria: “Se quer saber, és um grande filho da puta”. Simples assim.
—Mas e a minha liberdade de expressão, tio?
De acordo com minha própria definição:
“Liberdade de expressão de cu, é rola!”
Mas se alguém aí quiser discordar, à vontade.
Segunda-feira, Setembro 22, 2003
I’ve got sunshine...
Quando ela entrou em nossa sala, as meninas patricinhas acharam aquela figura meio estranha. Muito magra, cabelos pretos e compridos, despenteados, meio jogados em cima do rosto. Vez por outra ia com o mesmo macaquinho amarelo surrado que eu aprendi a adorar. Era bem pequena, parecia mais uma criança. Ninguém prestava muita atenção nela por ali. Não tinha um rosto clássico, não era corpulenta, não se pintava, não tinha nenhum dos atrativos para a maioria dos garotos do colégio. Mas fazia teatro – sempre as mulheres que fazem teatro... E era mineira – sempre as mulheres mineiras...
Para mim era insignificante até então (não sei dizer ao certo quanto tempo havia se passado desde que a vi pela primeira vez), mas um belo dia, posso lembrar com perfeição, fiquei estagnado ao vê-la chegar para a aula de educação física. Vestindo o ridículo uniforme azul marinho, um short longo até a altura dos joelhos, estava mais encorpada e com os cabelos molhados, um pouco mais curtos. Na sua boca um sorriso de parar o tempo. Beleza exótica, nariz pequenininho, pele branquinha refletindo o sol que ardia naquela tarde tão distante. Foi quando eu parei e rufaram os tambores.
O pátio do colégio era realmente bonito. Alguma mata (não mato) adornava a quadra de futebol, e a velha construção de concreto bruto tinha lá sua imponência. Umas poucas árvores se perdiam pelo pátio onde fazíamos a aula, que de aula mesmo nada tinha: Na maior parte do tempo jogávamos bola enquanto os professores davam em cima das alunas mais gostosas.
Ela realmente não tinha nada a ver comigo. Garoto bobo, jogador de taco, passava as tardes vagabundeando com o Pancho, desenhando bobagens e ouvindo Ramones. Ela tinha amigos mais velhos, ela gostava do Caetano, ela passava as tardes no tablado com uma trupe teatral. Vai saber... Talvez tenha me interessado pela sua personalidade aquariana, supostamente mais libertária que a minha (e que me ensinou a ser também), ou pelo ar aéreo e descompromissado, tão diferente das outras meninas. Ela realmente parecia estar de fora.
Em poucos dias não conseguia mais pensar em qualquer coisa que não a contivesse. Meu travesseiro era um slide-show do seu rosto difuso, e o som de sua voz invadia meus ouvidos involuntariamente. Eu acordava e dormia com ela. Isso nunca havia acontecido antes, não assim. Pancho não acreditava, achava a menina chata e feia. Discutíamos sobre o assunto e, durante algum tempo, ela foi o ideal de beleza na terra para os meus olhos, não importasse o que dissessem. Sentia que éramos as únicas pessoas especiais naquele colégio. Talvez no mundo inteiro.
Na hora do recreio eu sempre bebia Coca-Cola sentado em um das velhas cadeiras de madeira que ladeavam o pátio, sem tirar os olhos da menina. Voyeur apaixonado. Aliás, mais do que paixão ou desejo, eu sentia ternura. Os seus modos desajeitados e ao mesmo tempo tão sedutores, a sua voz aguda demais, as suas roupas despretensiosas, sei lá, aquilo tudo me comoveu de forma tal que eu só tinha vontade de abraçá-la e me perder naquele abraço. Sumir para algum lugar e me afogar no carinho que eu sentia.
As coisas começaram a fugir do controle e eu precisava fazer algo. Não fazia. Punha-me a imaginar situações e suava frio quando ela vinha falar comigo. Durante um tempo desenvolvemos algum tipo de diálogo amigável, que adoraria poder reproduzir não fosse o fato de eles desgraçadamente terem se perdido no armário das minhas ex-memórias. Lembro-me de tê-la levado em casa após um churrasco. Caminhamos pela enorme rua onde ficava sua casa, batendo papo. Na escola, conversávamos muito no recreio e, pela primeira vez, ir aos estudos tornou-se algo excitante desde as aulas da lindíssima professora Paula na sétima série.
Mal ou bem, estava me aproximando demais, e algumas pessoas começaram a desconfiar que no brilho dos meus olhos havia alguma coisa a mais. Eu imaginava levá-la para um parque, subir na roda-gigante e beijá-la no alto. Coisa boba mesmo, de Sessão da Tarde. Como algo tão simples pode se tornar tão complexo? Imaginei mil estratégias para conquistá-la, algo especial, muito especial. Fui preciosista. Passei a considerar este jogo a coisa mais importante da minha vida, o tipo de atitude tipicamente adolescente da qual talvez nunca me livre. Consegui seu telefone, não sei como, e liguei duas vezes. Ela tinha um horário difícil, estava sempre nas aulas de teatro. Combinamos de ir caminhar na praia. Com as pernas tremulas encontrei-a em baixo de um Chapéu de Sol, frente ao Emissário Submarino. Estava quase lá.
Iniciamos a caminhada despretensiosa e conversamos sobre mil coisas. Ríamos um do outro, falávamos sobre nossas famílias, sobre como o nosso colégio era horrível (ah, como eu mudei de opinião), sobre a maioria dos colegas da turma serem idiotas e sem estilo. Até hoje alguns flashes dessa tarde pipocam em minha cabeça... Em determinado momento ela perguntou se eu queria parar e tomar algo, sentar um pouco. Era uma deixa óbvia – ou não, sei lá – mas eu devia ter aproveitado e tê-la beijado ali mesmo, às margens da areia quente. O dia era lindo, ela era linda, tudo era perfeito até então. Mas não sei dizer se foi o pânico da primeira paixão ou excesso de vontade, o fato é que eu nada fiz. Nada. Preferi planejar outro encontro, mais sensacional, e assim permaneci platônico.
Continuamos andando e levei-a ao Teatro Municipal de Santos, onde ela tinha que se encontrar com o grupo de teatro que tanto me enciumava. Na despedida nos demos as mãos e ela sorriu, e até falamos em nos encontrar novamente. Mal sabia (e ainda não sei) o que estaria por vir. Talvez ela tenha cansado da minha indefinição e falta de ousadia, o fato é que após este fatídico dia a menina tornou-se meio antipática e fechou-se completamente. Fiquei amargurado, tentei sondá-la através de outra menina, mas não deu em nada. Ao que parece ela tinha perdido rapidamente o interesse por mim, se é que teve algum dia. Entrei numa fase maluca, sonhava com ela, escrevia coisas ridículas que jamais alguém leu, ouvia Beatles e Pink Floyd com seu Dark Side of the Moon sem parar. Entrei numas de sair sozinho e pegar ônibus errado, de propósito.
Tempos depois uma festa foi marcada em um velho casarão histórico, algo relacionado ao grupo de teatro, não me lembro. Ela não me chamou, mas eu convenci alguns amigos a irem comigo e apareci por lá mesmo assim. A festa estava legal, eu é que estava apreensivo. Foi um erro. Ela reinava no seu habitat natural, com seus amigos atores. Eu fui acompanhado de um séquito de babacas adolescentes (foi mal, gente). Caía um toró infernal, que chegava a ofuscar a boa discotecagem do lugar tamanho o barulho que as gotas faziam ao caírem na piscina que existe no centro da casa. De noite o local é sombrio, um ar meio estranho e bucólico, mas um ótimo lugar pra festas (infelizmente não muito aproveitado). Essa noite também se ofuscou em minhas memórias banhadas pelo álcool, mas em algum momento eu consegui aborda-la. Sua reação não foi nem um pouco boa, perceptível pela frieza do seu semblante. Tive a impressão que ela estava ficando com outro cara, muito mais velho que nós dois. Eu nada falei, não tinha o que falar. Me humilhei e pedi um abraço, que ela deu friamente. Fim da história. Eu tinha uns 14 anos. Lembro-me de estar bebendo minha primeira lata de cerveja, comprada com meu dinheiro, vendo a chuva cair na piscina enquanto o DJ tocava Riders on the Storm. Perfeito, se é que me entendem.
Ainda com relação a ela, paguei outros muitos papelões, típicos de um trouxa apaixonado. Na verdade não sei se minha tristeza encontrava razão pelo fato de não poder mais tê-la. Talvez eu senti-se saudades daquele sentimento esperançoso com o qual me acostumei a conviver – situação esta que viera a repetir-se depois, um se atirar no precipício apenas para sentir o vento bater no rosto. Acabei arrumando outras mulheres e paixões, umas mais bonitas, outras com um gosto musical melhor, outras ainda mais estilosas, mas ainda hoje sou frustrado com essa história. Não sei exatamente o que ela fez de sua vida, mas parece que está morando em Londres, estudando teatro. Faz onze anos que isso tudo aconteceu. Hoje eu gostaria de sair pra tomar um capuccino com ela e agradecer a mulher que, involuntariamente, me ensinou a beber e a me apaixonar.
Sexta-feira, Setembro 19, 2003
Fernando
Depois da novela das oito, uma buzina de automóvel me faz descer, ansioso, os três lances de escada que separam a rua do meu apartamento. Banho tomado e um charuto dos bons – em um pacote luxuoso da tabacaria – dentro do bolso. Quer saber a balada? Eu conto. Chama-se Hospital Ana Costa, onde há poucas horas nasceu um menino chamado Fernando.
Dois motivos bem simples fazem deste serzinho de 53cm meu sobrinho. O primeiro, trivial, é o fato dele ser filho do meu primo – quase irmão por tanta conv(f)iv(d)ência. O segundo é um melancólico desejo de apego, acrescido pelo fato de eu não ter irmãos. Olhando para aquele bebê envolto por incontáveis cobertores, tão frágil quanto o vidro que nos separava, sentimentos confusos tomaram de assalto meu entendimento da essência de ser pai, enriquecendo de alguma forma o que minha leviandade considerava simples e, de certa forma, previsível. Não falo de presenciar o “milagre da vida”, muito menos festejo antecipadamente os cinco dias de licença paternidade que apenas hoje eu soube existir - e que um dia eu hei de ter. É que das poucas certezas que me restaram, inabaláveis pelo fato de minha vida estar sendo guiada por uma bússola quebrada, eu continuo forte na idéia de ter um filho. Dois ou três, se for o caso. E hoje, finalmente, pude sentir algo palpável, de uma das referências mais importantes em minha existência. A cara de bobo do meu primo, ao espiar aquele recém-nascido de vasta cabeleira, me acometeu uma intensa identificação, como se o mais ínfimo resquício de felicidade vazasse de seu coração (por não encontrar mais espaço) e viesse ao meu encontro. E, ainda assim, fosse sentimento suficiente para salvar o mundo.
...
O Cilinho é o típico filho da puta, no sentido mais "cool" da palavra. Temos praticamente a mesma idade, diferença de meses, e a disputa entre nós sempre foi acirrada. Disputa de viver mesmo, ainda que a triste realidade mostre que o cara possui uma folgada vantagem. O que? Quando éramos crianças ele sempre dava um jeito de brincar com o melhores Playmobil’s, sobrando para o resto nada mais que o resto. Quando pré-adolescentes vieram as disputas pela autonomia familiar, algo que sempre batalhei e ele simplesmente possuía, sem o menor esforço. Não havia música boa que eu não lhe perguntasse de quem era, não havia meninas bonitas que ele não soubesse o nome. Foi o primeiro a perder o cabaço, o primeiro a ficar bêbado, o primeiro a ter um carro só dele (Volkswagen Sedan amarelo, estilo Mr. Bean), e tantas outras histórias que minha memória ainda pode contar.
...
Antes de sair da maternidade ainda arrisquei uma perguntinha, de forma um tanto acanhada: “E aí moleque, como é ser pai?”. Mas seu olhar, rapidamente desviado à direção do filho, e uma desconversa sobre a grandeza profissional do médico que havia feito o parto, delataram o que nós dois já sabíamos há tempos, mesmo quando ele me contou sobre a gravidez: Ainda não somos adultos a esse ponto. A resposta para minha pergunta, o tempo haverá de lhe contar. E sendo assim só me resta dizer uma coisinha... Parabéns, irmão, você venceu mais uma!
Fernandinho, bem-vindo à selva! O Fabio aqui vai dar um jeito de ser um bom tio.
Claro que vai...
Quinta-feira, Setembro 18, 2003
Da série Diálogos Inesquecíveis: No trabalho
Em uma saudável conversinha sobre cultura pop...
(Maritaca) E aquela música, Kiss, que o cara canta gemendo, dando uns gritinhos?
(Douglas) Qual música?
(Maritaca, cantando de forma constrangedora) You don't have to be beautiful, to turn me on. I just need your body, baby...
(Thiago) Como é mesmo o nome dele?
(Eu) Prince...
(Maritaca) Isso, Prince!
(Douglas) Mas parece que ele nem se chama mais assim...
(Eu) É, mudou o nome para um símbolo impronunciável. A mídia chamava "The Artist".
(Douglas) Ridículo!
(Eu) Foi só por um tempo. O lance não colou e ele voltou com o nome Prince.
(Thiago) Quem voltou a ser Prince?
Quarta-feira, Setembro 17, 2003
Pequenos pecados, grandes negócios
Padre, nós precisamos conversar. Nem sei bem por onde começar, mas peço-lhe paciência para ouvir o ocorrido. Estou ciente de que fiz algo terrível contra alguém, uma história já adormecida, mas que ainda hoje me tira o sossego. Sabe padre, eu namorei uma garota por quase três anos da minha vida. Nós havíamos terminado, e eu estava passando por aquela fase confusa de não ter mais nenhum compromisso com ela, ainda que continuássemos saindo esporadicamente. Não sei dizer se o seu amor por mim havia terminado, mas nessa época ela cagava e andava para mim – desculpe-me, mas palavrões são inevitáveis – e eu continuava a fazer as suas vontades sem entender porque agia assim. Aliás, não entendia porque nós dois agíamos assim. Ora padre, porque ela continuava a me ligar se não dava a mínima para este pobre infeliz aqui na sua frente? O pior de tudo é que eu atendia a esses telefonemas com a mesma súplica de carinho de um cão ao receber seu dono no portão de casa. Estava claro que eu me tornara um imbecil descerebrado, que é o que um homem se torna quando cai nesse tipo de armadilha. Você pode não entender muito sobre mulheres padre, mas elas conseguem ser piores que o Diabo quando querem. Bem, o fato é que a vida de imbecil descerebrado durou alguns meses, e talvez até durasse mais se a estúpida não tivesse errado a mão nas técnicas de controle da mente. São técnicas complexas que exigem equilíbrio: um tapa, um beijo, um tapa, um beijo, um tapa, um beijo. Nunca dois tapas. Nem dois beijos.
Eu poderia ser um zumbi por anos a fio se lidado apropriadamente, mas ela preferiu me tratar feito cachorro, constantemente me usando para satisfazer suas vontades. Mas e as minhas vontades, padre? Obviamente um belo dia eu enchi o saco daquela merda. Não, mentira. Eu fui enchendo o saco daquela merda lentamente. Não houve um dia em que eu acordei e disse "agora estou de saco cheio". Foi todo um processo no qual ela foi me fodendo cada vez mais e cada vez mais eu enxergava que estava saindo no prejuízo.
Um dia, péssimo dia, em um dos bares da vida, ela começou a me criticar por um motivo x. Este motivo x levou a um motivo y, que levou a um motivo z, que levou a um motivo x', que levou a um motivo y' que por sua vez levou a um motivo z'. Tudo virou motivo para me criticar. Em quinze minutos tudo sobre mim era errado ou inapropriado. Meu corpo, meu sorriso, meu cheiro, minha voz, minha mãe, meu pai, meu gato, minha casa, minha história, minha vida. Em quinze minutos não sobrou nada. E eu lá, impassível, ouvindo tudo. Rock solid like a fucking marine. Macho pra caralho. Estava até começando a aceitar suas críticas, pensando "é, talvez ela tenha razão".
De repente, do meu copo (Coca-Cola light com gelo e limão acompanhada de um antibiótico) escorreu uma gota de água condensada. Essa gota se juntou a mais uma, que se juntaram a outras até formarem uma pequena poça em cima de uma joaninha que estava andando pela mesa. Ela começa a encher o saco por causa da porra da joaninha, secando-a com os dedos e assoprando delicadamente para tirar o excesso de água daquele corpinho. Enquanto ela cuidava da joaninha, formei um simples paralelo em minha mente. Eu: entidade consciente e senciente, mamífero superior, macho da espécie homo sapiens, capaz das mais incríveis humilhações por essa cachorra. Ela: me tratando como se eu fosse um celenterado da pior espécie ao mesmo tempo em que dedicava cuidados e mimos a uma porra de uma joaninha.
Não tive dúvidas. Assim que ela acabou de mimar a joaninha e a colocou no lugar novamente, peguei o cinzeiro e lentamente, mas bem lentamente mesmo, esmaguei a joaninha sobre a mesa - devagar, curtindo os pequenos estalos do seu exoesqueleto se rompendo sob a pressão do vidro grosso do cinzeiro.
Ela me olhou horrorizada. Eu fiz uma cara de foda-se.
Hoje percebo o quão inconseqüente e insensível fui para com ela. Com a joaninha, claro...
Perdoe-me, Pai, porque pequei.
Segunda-feira, Setembro 15, 2003
Um dia, quem sabe, vira livro...
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(...)
Nuno nunca conseguia prever as atitudes de Clara. Ele próprio desistira de tentar quando ela, quase abruptamente, o arrancou daquela festa a fantasia.
—Estou com os envelopes na bolsa – disse, como quem sempre gostou surpreendê-lo.
O rapaz não conseguia esconder o nervosismo. Ficou de frente para a porta metalizada, como se esta nunca fosse abrir. Mal conseguia encarar a si próprio no espelho daquele elevador, quanto mais o rosto de Clara. Era sua primeira vez, ansiou intensamente por aquele momento mas, curiosamente, esperava não ser com ela, por mais que a amasse. “Se ao menos pudesse acender um cigarro“, pensou. Então, como último subterfúgio, brincava com as chaves do carro, ainda dentro do bolso. Fechou os olhos e cantarolou uma música qualquer.
Clara odiava motéis com elevadores. Para ela era quase uma invasão de privacidade, "um estupro psicológico", diria. Lembrou não ligar para tais pormenores em sua juventude, mas não conseguia evitar o constrangimento perante aquela situação. Um índio e uma fada, um fim de festa literal, de fantasias quase esfarrapadas. Às vezes sentia-se ridícula e insegura diante da juventude de Nuno, por isso também deu as costas para o espelho. Achava-o lindo, mas não conseguia suportar o reflexo de ambos lado a lado. Enquanto enrolava o dedo indicador nos cachinhos sobre a nuca do menino, sua mente tentava dar um sentido àquilo tudo. “Nem paixão era”, dizia para si no momento em que o elevador finalmente parou.
Nuno abriu a porta do quarto e, apressadamente, atirou-se de costas na enorme cama. Evitou olhar muito ao redor afim de demonstrar a suposta segurança de quem conhece os domínios onde está penetrando. Sorria nervosamente.
—Anda logo, deixe eu ver esses papéis!
Clara abriu a bolsa de onde tirou os envelopes e duas garrafinhas de vodka, com um ar vitorioso. Permaneceu em pé e lhe ofereceu uma.
—Meu irmão roubou do avião semana passada, e eu roubei dele.
—Ladrão que rouba ladrão... – disse Nuno sem tempo de completar a frase, interrompido pela gargalhada sincera de Clara que logo se transformaria na sua.
Ambos tomaram suas respectivas garrafinhas, de uma vez, em um brinde proposto pelo dia que mudaria suas vidas. Clara pegou para si um dos envelopes e entregou o outro ao rapaz.
—Cada um abre o seu. Essa coisa de trocar é muita insegurança. Bobagem de cinema...
Ele sempre acatava seus desejos. Não por excesso de agrado. Havia naquela mulher algo que ele admirava, quase como se ela fosse a personificação da razão. Uma razão impossível de ser contestada. Abriu cuidadosamente o invólucro.
—And the winner is... – disse ele, fingindo um divertido suspense para amenizar o clima soturno. Levantou os olhos do papel luminescente pela luz negra e quase suspirou: —Limpo. Limpíssimo. O seu?
Clara, desajeitadamente, rasgou um pedaço do papel ao tentar burlar a cola do envelope. Enquanto encaixava os pedaços, lia, incrédula, cada uma das linhas, inclusive as menores e aquelas destinadas somente ao controle do laboratório. A razão se esvaeceu, dando lugar a um inédito desalento.
—Fala logo, merda!
Olhou muda para Nuno e viu que ao seu lado repousava o chapéu que compunha sua fantasia de fada. Lembrou da festa e, apesar de não suportar os amigos do menino, desejou nunca ter saído de lá. Tava tão boa a festa...
Sexta-feira, Setembro 12, 2003
Algumas curtas sobre música...
A ANSIEDADE
Hoje entrei no site dos Strokes para ver a quantas anda o novo álbum. Confesso meu medo de que o caras, depois de tanto hype, dêem a bunda pro diabo. Acontece com qualquer “salvação”, ainda mais quando ela vende bem. Algo me dizia que a coisa toda ia degringolar quando chamaram o guru da grande farça, digo, banda chamada Radiohead (podem jogar tomates agora) para produzir o disco. Mas eis que vejo um simpático link no próprio site oficial da banda para baixar a MP3 completa do primeiro single, “12:51”. Quer saber o que eu achei, né? Pegue duas das melhores músicas de Is This It, Sometimes e Hard To Explain, e imagine o resultado. Da primeira temos aqueles teclados retrô, estilo Atari 2600, hipnóticos e constantes, que sozinhos lembram a melodia de algum desenho animado das décadas de 60/70 ( Corrida Maluca, talvez). Da segunda temos praticamente a mesma base de guitarras, chupinhada sem dó nem piedade. Vale lembrar que só porque “12:51” é uma mistura de grandes músicas, não há garantia alguma do resultado final ser necessariamente bom. “Ou não”, como diria Caê. A saber, não obteve o mesmo impacto da primeira vez que ouvi Last Nite, mas é bacana o suficiente para as vozes em minha cabeça me deixarem em paz. O lançamento do disco está marcado para 21 de outubro, e se chamará “Room On Fire”.
A NOVIDADE
Vem do frio “ranca prega” da Dinamarca a minha benfeitoria aos pegadores de MP3. The Raveonettes é uma banda legal. Legal pra caralho, eu diria. Sendo formada por um casal, a senhorita Sharin Foo e o cueca Sune Wagner, as comparações com White Stripes são quase inevitáveis. Particularmente acho que som da banda não se assemelha em NADA com o que os irmãos vermelhinhos vêm fazendo. Enquanto o White Stripes aposta num estilo “estou com preguiça de defini-los”, o Raveonettes soa como Jesus And Mary Chain: sujismundo, distorcido, microfonado, frenético e melódico (ouve-se até sintomáticos grunhidos dizendo “candy” em uma das músicas). Algo que eu poderia chamar psycho-indie (uhu, inventei um rótulo, será que pega?). O vocal de Sharin lembra muito Debbie Harry, mas também é inútil qualquer comparação com Blondie. Suas influências vêm do movimento beatnik (óbvio que Sune Wagner leu muito Jack Kerouac sob efeito de droguinhas ilícitas), e vão desde os modelitos até a economia de acordes. Já lançaram um mini-álbum, batizado Whip It On. Experimentem as músicas “Do You Believe Her”, “That Great Love Sound” e “Attack Of The Ghost Riders”. Agradeçam depois.
O CLÁSSICO
Indo direto para a praia do Metal (que merda, o que Metal tem a ver com praia?), está chegando o grande dia de botar as mãos no novo do Iron Maiden, Dance Of Death. Após muita expectativa deste que vos escreve, sairei pela tarde - a pé - com alguma merreca no bolso (que fará muita falta, diga-se de passagem), entrarei na Blaster Discos e perguntarei: Tem o CD novo do Iron?. Depois é esperar o momento “subidor de jeba”, quando finalmente escutarei algo além de Wildest Dreams, a música de trabalho. Aliás, dizem nos fóruns da vida, essa é a música mais fraca do álbum. Acredito. Qualquer fã conhece o esquema da donzela, e a julgar por Brave New World – que tinha The Wicker Man como primeiro single – a qualidade da obra está garantida. Dizem também que ele parece Piece Of Mind. Dizem que é o melhor disco do Maiden desde Seventh Son Of A Seventh Son. Dizem que tem uma música no qual Dickinson parece cantar na velocidade da luz. Dizem... ah, hum, bom... E daí que eu odiei a capa? Iron Maiden é amor de pré-adolescência. Foda (com efe maiúsculo) é um mero detalhe. E dizem que esse daí é...
Quinta-feira, Setembro 11, 2003
Já dizia o poeta Pablo Neruda, "Escrever é fácil. Você começa com uma maiúscula e termina com um ponto final. No meio, coloca idéias". Concordo. Desde que me prontifiquei a escrever, seja lá sobre o quê, nunca me preocupei em saber se estava fazendo do jeito certo ou errado, muito menos fiquei intimidado com possíveis dificuldades. Deve ser pelo fato de haver um “porquê” muito forte, mais do que tudo isso. Sempre existe um. Às vezes vários. Até hoje essa é minha grande preocupação. Saber dos “porquês”, e não apenas “como”. Ironicamente, escrevi sobre todos eles...
Porque este dia, mais uma vez, escrevo.
Escrevo para saber quem eu sou.
Escrevo para não deixar ir embora quem eu realmente quero ser um dia.
Escrevo para lembrar o que insisto esquecer,
Escrevo para esquecer quem insiste me lembrar.
Escrevo porque preciso desdobrar quilômetros de boas idéias.
Idéias implorando uma saída.
Idéias que não temem a espera, apenas a chance errada.
Idéias que tantas vezes encontram uma longa fila e acabam desistindo.
Palavras que eu nunca teria coragem de dizer.
Más idéias? Por elas também escrevo.
Virando a madrugada, oferecendo saídas covardes e improváveis.
Pensamentos meticulosamente inventados para trazer tristeza,
os quais não vejo a menor obrigação de carregá-los a tira colo.
Quando não é certo dividi-los, escrevo.
Para eles é tudo que posso oferecer.
Tranco as portas, mas não as janelas.
Escrevo para deixar impressas coisas que uma boca apenas não seria capaz de dizer,
nem que eu chegue a viver o tanto que ainda quero.
Escrevo para deixar na lembrança coisas que nunca poderão ser fotografadas,
nem que Deus invente de me mostrá-las quando eu morrer.
Escrevo para fugir daqui.
Quando acordo e não existe boa música,
telefone amigo,
não existe satisfação.
Escrevo enquanto não noticiam um remédio bem forte,
suficiente para coagular tanto sangramento.
Calmaria, tubo de ensaio de uma droga perfeita.
Escrevo para fingir que não dói.
Escrevo para poupar, escrevo piedoso.
Todas aquelas letras que, quando ditas, podem machucar,
quando feitas, podem prejudicar.
Escritas são apenas inofensivas.
Escrevo para ser justo.
Escrevo assim,
certo por vaidade,
errado por pura necessidade.
Escrevo também para ninguém ler.
Escrevo e depois jogo fora, só por teimosia.
Posso ser adulto e dizer o que está errado.
Posso virar criança mimada e dizer que aqui ninguém me pega.
Posso contar das vezes que tive medo.
Vezes que pensei morrer pelo acaso,
Vezes de morrer pelas próprias mãos...
Mãos que escrevem uma carta aberta aos dias medíocres.
Para lembrar que tudo há de melhorar.
Perceber que já melhorou.
Às vezes uma música me deixa com vontade de vir até aqui.
Vez por outra foi só a fila do banco ou sessenta minutos bem nadados.
Escrevo para passar o tempo,
no fundo do caderno,
no fundo de olhos exaustos de tentarem ser felizes, ainda que sejam realmente.
Escrevo.
Como se, em algum lugar, todas as palavras pudessem ser ditas, eu escrevo.
Como se palavras realmente fizessem algo por alguém - por mim - eu escrevo.
Escrevo para estar vivo. Por prazer.
Escrevo porque...
Ora, por quê?
Porque sim.
Terça-feira, Setembro 09, 2003
Você já ouviu falar do iTelefonica, o novo serviço gratuito de conexão à Internet da Telefonica? Bem, na verdade eu ainda nem experimentei, mas a coisa toda parece ser bem interessante. Além do fator "nóis num vâmo pagá nada", o usuário tem 15% de desconto nos pulsos telefônicos enquanto conectado. Deve cair feito o Jô Soares de patins, mas beleza. Foda mesmo é aturar as artimanhas publicitárias nos filmes da campanha, como sempre prometendo milagres para os incautos, ou desrespeitando a inteligência de quem já conhece o produto, seja lá qual for. Neste caso, imaginando que o público alvo sejam os menos abastados ou aquelas pessoas literalmente desconectadas do mundo moderno - que ainda não descobriram as maravilhas de verificar o extrato negativo no conforto de casa ou mesmo ler este blog - é fácil entender por quê os depoimentos dados pelos pseudo usuários do serviço seguem um padrão 1996, época em que tudo era novidade e, em nossas cabeças, sites com dois ou mais frames eram um luxo, Geocities era um serviço pra lá de bacanudo, e quebrar corrente de e-mail dava um azar da porra. Cada um dos atores (representando "gente como a gente") fala sobre trivialidades virtuais como se nossas vidas dependessem da Internet, como se o sucesso profissional e/ou familiar e/ou amoroso estivesse em alguma página WWW e não na Igreja Universal do Reino de Deus, e como se os modems fossem a pedra filosofal da tríade "Quem sou? De onde venho? Para onde vou?". Não estou aqui, justo um blogueiro (êita expressão cretina!), negando todas as comodidades e revoluções (pessoais e mundiais) que a Internet nos trouxe. É um blá-blá-blá muito fácil, diria. Mas vamos tratar o consumidor com mais respeito. E no final ainda tenho que aturar um sujeito dizendo que utiliza a conexão iTelefonica para "baixar downloads"...
Sexta-feira, Setembro 05, 2003
1. Tinha nove aniversários contados e o médico foi incisivo: “−Para diminuir os desconfortos causados pela renite crônica do seu filho, o melhor seria natação”. É claro que eu preferia judô, futebol, ou ainda que meus pais considerassem as partidas de malha, disputadas com latinhas de Coca-Cola no pátio do colégio, esporte suficiente para minhas necessidades cardiovasculares, mas realmente não há o que se possa questionar com essa idade. Aliás, interessa que eu sobrevivi. O processo não foi tão traumático como poderia supor, até pelo fato de eu estar acostumado com o mar e todas as pitoresquices de se viver em uma cidade litorânea. Em menos de um ano eu já sabia nadar três estilos, e por isso mesmo o professor Laerte já sondava minhas intenções em competir. “Fala com sua mãe, então. A competição será em São Paulo, já no próximo domingo. Mostra esse bilhete pra ela e diga para acertar os detalhes na secretaria”. Só mesmo a apreensão superava meu entusiasmo. Naquele dia o despertador tocou 4:30 da manhã, sendo que eu vi cada uma dessas horas se sucederem no display vermelho do rádio-relógio. Da pequena viagem não lembro muita coisa. Lembro sim, de meu pai entrar comigo no vestiário para certificar que eu amarrasse direito o cordão da sunga. “−Eu e a mãe vamos pra arquibancada. Mas não se preocupe com a gente. Depois que você voltar pro vestiário, estaremos do lado de fora te esperando”. Eram duas chamadas. A primeira para sentar em uma cadeirinha, colocada a menos de um metro da piscina, e a segunda para subir na raia adjacente, sendo que outra criança viria tomar o lugar na cadeira. Depois disso lembro de cair na água e nadar o melhor que eu pude. Quase heroicamente, diria. Tanto que eu saí da piscina, ajudado por algum monitor, e nem me preocupei em saber de colocações. Além de todos, sem exceção, ganharem um certificado de participação, estávamos radiantes e, ao mesmo tempo, aliviados pela sensação de dever cumprido. Só depois a ficha caiu. “−Pai, que lugar eu tirei?”. “−Nem sei, filho. Era tanta bagunça que nem deu pra prestar muita atenção. Também estávamos muito longe pra conseguir ver alguma coisa”. E ficou por isso. Aceitei de bate-pronto como quem é incapaz duvidar das palavras de um pai. Acontece que anos depois a gente remói algumas memórias, e conforme o nível de consciência aumenta, elas vão ganhando novos aspectos. Possivelmente minha colocação foi das piores, não restavam dúvidas. Dentro de mim cresceu uma certa revolta por ser tratado como um bibelô, um serzinho frágil, incapaz de lidar com a dura realidade. Adolescência é sinônimo de auto-afirmação, e tais idéias me eram simplesmente intragáveis. O assunto estava praticamente esquecido, até que, há alguns meses, enquanto limpava meu armário, descobri o tal certificado de participação, já amarelado. “−Lembra disso, mãe?”. “−Lembro sim, Fabio. Você tava tão contente naquele dia”. “−É. Mas pena que eu tirei o último lugar, né mãe?”, disse de forma capciosa. “−É sim, mas você era muito pequeno. Foi lindo, lindo esse dia...”. Uma mistura de sentimentos me deixou extremamente feliz naquele momento. Além da satisfação de ser um ludibriador de primeira, eu finalmente punha um ponto final nessa história. Fora o modo como (finalmente) recebi toda a verdade. Mais do que perder o primeiro lugar, quinze anos depois eu ganhava a última colocação, com a maturidade de quem consegue entender isso como vitória, enfim.
***
2. No primeiro ano de faculdade a gente não quer saber de muita coisa, não. Quanto mais educação física obrigatória. Obrigatória entre aspas. Qualquer certificado de emprego ou invalidez mentirosa torna a atividade opcional. Mas eu até apostava na idéia. Alguns anos de “coçação de saco” no histórico e sabendo que o poliesportivo possuía uma piscininha maizomenos, fazer natação sem custos adicionais me pareciam uma ótima idéia. Oficialmente, para minha turma, eram apenas dois dias por semana - a saber, segundas e quartas -, mas um grau de amizade supérflua com os professores logo me garantiram as terças e quintas como complemento. Justamente os dias que ela freqüentava. Aluna de arquitetura e mais alguns detalhes que não se faz necessário contar. Sempre que eu chegava para a aula ela já estava na piscina, e eu nunca conseguia me ajeitar na mesma raia em que ela nadava. Mas um certo dia, motivado pelo interesse, percebi que bicicleta era obviamente um meio bem mais rápido que ir a pé. Então... “−Posso nadar com você?”. E deu-se o início da maior admiração baseada em testosterona no ano de 1996. Admiração curta, diga-se de passagem. Em cinco minutos fiz dela a mulher da minha vida, ainda mais por perceber o quanto nos identificávamos em assuntos aleatórios. Um rosto lindo, gostos em comum, e eu louco para fazer valer a lenda de que faculdade é sinônimo de sexo. Enfim, quando a aula terminou, saí apressadamente da piscina e mal podia esperar a hora que ela também o fizesse, até para não correr o risco de vê-la somente na semana seguinte e assim ficar sem seu telefone (claro, senti reciprocidade). Mas ela não saiu assim tão fácil. Não me perguntem como fui capaz de não ter sacado antes, mas ao vê-la sendo ajudada por um dos professores, percebi de forma tardia que ela não tinha a perna esquerda. E isso não é tudo. Sem saber lidar com a situação, corri covardemente para o vestiário, até para não ter de olhar nos seus olhos. Não naquele dia. O que teria acontecido? Um acidente? Talvez. Ela se importava? Com certeza não. Nas aulas seguintes continuamos um cordial relacionamento, no qual dividíamos diversas coisas, mas nada no tocante “daquele” assunto. Era um pacto silencioso: Eu fingia não haver qualquer deficiência e ela fazia o mesmo, quase como se tivesse as duas pernas, perfeitas. Aliás, ela realmente sentia como tal. Enquanto a menina dava um espetáculo particular de “bem-resolvimento”, era eu quem não sabia o que fazer. Não que eu sentisse preconceito. Ou quase isso. Meu preconceito era fruto do respeito que eu achei lhe dever. Então tirei da minha cabeça qualquer possibilidade de beijá-la, namorá-la, comê-la, etc, com medo de passar por um verdadeiro filho da puta. Julguei-a diferente, merecedora de todos os tratamentos especiais, menos minha sensibilidade de perceber que nada disso teve fundamento. Hoje, em minhas memórias, seu rosto representa algo que poderia ter sido bom, não fosse minha estupidez.
***
3. “−Não tem jeito, Fabio. Larga logo a musculação antes que essa hérnia de disco te deixe sem andar.” E eu meio assim, sei lá. Adorava a musculação, e tinha muitos amigos na academia. “−E vou fazer o quê? Ficar entregue ao sedentarismo?”. O fato é que eu não consigo ficar sem praticar algum esporte, mas estava chegando no limite da doença, que culminaria em uma operação meses depois. “−Volta pra natação, ora. Todo mundo diz que é a melhor coisa pras costas”. Realmente era a única alternativa viável de não me entregar ao sofá. Mas a verdade mais obscura é que eu estava completamente desmotivado para enfrentar uma piscina novamente. Vai ver por isso incentivei minha namorada a fazer natação comigo, além de outros motivos irrelevantes aqui. Esporte, se não pelo fator profissional, possui duas finalidades: saúde e estética. No meu caso, saúde... Que saúde? A dor lombar (e o reflexo no tal nervo ciático) era tamanha que muitas vezes eu preferia morrer a passar mais um minuto com ela. Era como se alguém torcesse minha coluna tal qual um pano encharcado, e a dor que eu sentia na perna e nos pés nem ao menos pode ser descrita. Nesse caso a natação talvez (eu disse talvez) viesse aliviar tais dores, mas isso a muito longo prazo. Pra falar a verdade, na prática poderia até me deixar pior, já que um movimento brusco significaria mais dor. A outra finalidade... Ah sim, estética! Como se eu me incomodasse com isso naqueles tempos. Mal podia manter uma vida social normal, e nem dinheiro para tal possuía. Havia perdido o emprego, e tudo o que fazia era ficar em casa me alimentando de bobagens que de maneira alguma me faziam engordar. Muito pelo contrário. Fui emagrecendo gradativamente, e acredito ter mantido algum peso graças às injeções de cortisona que eu tomava de vez em quando para aliviar a dor. Em resumo, natação àquela altura era um engodo médico que eu mal conseguia aturar. Eu sentia não pertencer àquele lugar, e dia após dia enjeitava a idéia cada vez mais. Até que um dado dia tudo veio em turbilhão. Não fazia dez minutos que eu estava na piscina e minha namorada percebia em minha cara que algo não estava direito. “−O que foi, você num tá bem?”. Pra falar a verdade custaria muito lhe explicar toda essa história. Não queria lhe atulhar com mais problemas, além da vergonha de possuir algo mesquinho dentro de mim ao ver todas aquelas pessoas saudáveis, nadando avidamente de uma forma que um dia eu fui capaz de fazer. Inveja ou pena de mim mesmo? Não sei o que é pior. Melhor seria deixar pra lá. “−Nada não Ké, ta doendo um pouco, só isso”. “−Quer sair?”. “−Não. Se eu sair eu ‘perco’!”, disse com um leve sorriso. Não sei se ela conseguiu entender todo o significado que a palavra “perder” teve naquela frase, mas o recado havia sido compreendido. E afinal, era o único pensamento sensato que eu tivera aquele dia. Mas a vida nem sempre é cor-de-rosa e, ao completar mais cem metros nadados, eu simplesmente me deixei abater. Como se nada tivesse dito à minha namorada, abandonei a piscina de cabeça baixa, e já pouco me importavam os motivos. Odeio ter vontade de chorar, e odeio mais quando eu tento não chorar. Tirei a touca e os óculos de natação e fui para o vestiário. Sentei alguns minutos no banco, olhando para nada. Só fazia saber a verdade de não ter tido em mim a força costumeira. Faltou coragem, faltou perseverança. Faltou deixar brilhar meu espírito, tão fosco e triste quanto a dor que o deixara assim. Anos atrás as coisas seriam diferentes, mas a doença levou consigo algo. Algo que, numa piscina de 50x25m, eu perdi.
Quarta-feira, Setembro 03, 2003
Esse título ficou meio Revista Info, em todo caso...
10 bons motivos pra você, leitor sensível, gostar de Los Hermanos
É bom, às vezes, se perder sem ter porque, sem ter razão. É um dom saber envaidecer, por si, saber mudar de tom.
(Adeus você)
<<<->>>
Há de encontrar um encantador. Um novo ou velho amor vai te levar leve a vagar prum lar de fina-flor. E você vai ser mais feliz longe de mim. Por isso eu vou. Mas não me peça pra amar outra mulher que não você.
(Assim será)
<<<->>>
Me diz o que o sossego que eu te mostro alguém
afim de te acompanhar.
E se o tempo for te levar eu sigo essa hora,
eu pego carona,
pra te acompanhar.
(Último romance)
<<<->>>
Dai-me outro viés de ilusão, pois minha paixão tu não compras mais com teu olhar.
(Azedume)
<<<->>>
Você precisa reagir.
Não se entregar assim,
como quem nada quer.
Não há mulher, irmão, que goste dessa vida...
Pra onde é que você foi,
que eu não te vejo mais?
Não há ninguém capaz
de ser isso que você quer...
Me diz se assim esta em paz,
achando que sofrer é amar demais?
(Tá bom)
<<<->>>
"Se ela te fala assim, com tantos rodeios, é pra te seduzir e te ver buscando o sentido daquilo que você ouviria displicentemente. Se ela te fosse direta, você a rejeitaria."
(Sentimental)
<<<->>>
...eu cansei da nossa fuga.
Já não vejo motivo,
pra um amor de tantas rugas,
não ter o seu lugar.
(Conversa de botas batidas)
<<<->>>
Canta que é no canto que eu vou chegar. Canta o teu encanto que é pra me encantar. Canta para mim, qualquer coisa assim sobre você. Que explique a minha paz...
Canto que é de canto que eu vou chegar. Canto e toco um tanto que é pra te encantar. Canto para mim qualquer coisa assim sobre você que explique a minha paz. Tristeza nunca mais.
(Casa pré-fabricada)
<<<->>>
Aquilo que eu temia aconteceu ou foi só ilusão... Você manchou nós dois e desbotou a cor de um só coração. Ou anda sozinha me esperando pra dizer coisas de amor?
(Fingi na hora rir)
<<<->>>
Sei que o vento que entortou a flor
passou também por nosso lar,
e foi você quem desviou
com golpes de pincel...
... é o amor que ninguém mais vê...
(Além do que se vê)
Terça-feira, Setembro 02, 2003
Este fim de semana, atrasado como sempre, assisti dois filmes que batalharam a última premiação do Oscar. Um deles foi "Gangues de Nova York" que apesar de bom, não merece assim um post (e olha que eu já superei minha DiCapriofobia). O outro, este sim, foi "O Pianista" (Le Pianiste, 2002), de Roman Polanski. Confesso que pouco conheço da obra deste senhor polonês e, pra mim, seu filme mais impactante até então vem direto das categorias de base; O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby, 1968) me deixou com duas certezas: É a película que completa a santíssima trindade(!) dos filmes de horror junto com "Carry, A Estranha" e "Poltergeist", e que Mia Farrow era uma das mulheres mais bonitas do cinema em sua época. Wathever. Trinta e quatro anos depois temos um filme brutalmente singelo, quase como uma flor brotando no meio do concreto imundo.
"O Pianista" conta a história do pianista (duh!) Wladyslaw Szpilman, um judeu de origem polonesa vivenciando o início da segregação judia na Polônia, em 1939 - prenuncio do que seria a Segunda Guerra Mundial. E, apesar de possuir a guerra como pano de fundo, Polanski não foca sua história no front, muito menos num campo de concentração, chapando o holocausto em nossas fuças. Os conflitos são evidenciados nas relações humanas, onde a sensibilidade salva mais que uma pistola. Ainda que o "mau" seja muito bem representado pelo exército nazi, o maniqueísmo arroz com feijão, comum a esse tipo de produção, foi posto de lado para que nos deixemos incorporar um único personagem, e não um lado definido. Aliás, não me lembro de ter vivenciado tanto as aflições e desejos de um protagonista quanto neste filme. Mesmo tendo nascido e vivido de forma confortável, mesmo não sabendo o que é sentir fome ou frio, mesmo sabendo que a maior guerra por mim enfrentada foi assegurar um lugar "gargarejante" no memorável show quem o AC/DC fez no Pacaembú em 96, é difícil não ficar fragilizado frente o que é apresentado. Cenas aterradoras, misturadas ao lirismo valioso de quem consegue encontrar redenção, amizade e sensibilidade na mais pura merda.
Como não sentir tensão com o iminente perigo marchando em todo lugar, dentro das vestimentas militares nazistas? Como não se emocionar com a sublimação de Polansky ao mostrar Szpilman dedilhando as teclas de um piano centímetros acima - apenas imaginando os sons - para não alertar os alemães sobre a sua presença no apartamento que lhe servia de esconderijo? Como conter um sorriso aflito frente à cena em que Szpilman vaga pelos escombros da Varsóvia tal qual vira-lata esfomeado, procurando algo que lhe servisse de ferramenta para abrir uma lata enferrujada de algum cereal em conservas? Justamente a única cena de estética pierrô, meio Chaplin, onde embaixo de uma casca engraçada encontramos a miséria crua do personagem.
É a tal intolerância. A única palavra mais palpável para descrever tamanho ódio. E ainda que eu pudesse falar mais sobre “O Pianista” e toda carnificina que o emoldura, esbarro na limitação de não possuir maturidade suficiente para escrever algo relevante sobre a guerra. Tudo bem. Mesmo que a conheçamos apenas dos livros de história, vez por outra nos são oferecidas mágicas oportunidades de experimentar alguma comoção sincera. Sobre este filme, pude sentir exatamente o que vi. Agonia. Sabe o que é agonia? Vá lá sentir também...
Segunda-feira, Setembro 01, 2003
Post íntimo e revelador (pero no mutcho) sobre sexo
É verdade. Ela duvidou que eu faria isso, bem aqui, neste blog.
Bem, vou fazer apenas em parte!
Contar que acabo de expandir meu universo sexual que, convenhamos, não atingia toda essa magnitude a ponto de poder ser "adjetivado" como tal. Contar sim, que o trivial não está mais com essa bola toda. Já dizia o poetinha, sexo bom é sexo sujo, sem pudores. Motelzinho mediano e a gente lá, revirando a cartilha e A à Z. Logo eu que sempre esquecia do K, do W e do Y. Coisinhas e intimidades entre um macho e uma fêmea que têm raça, mas dispensam pedigree.
E eu com quase 26, achando que já sabia de tudo...
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