Sexta-feira, Outubro 24, 2003
Velho de pijama no bar
Estou inquieto. Após meses de uma espera apática, eis que me surge um novo emprego, em São Paulo, que tirará de mim o ócio criativo e as tardes serenas. Voltemos à velha rotina de despertador, ônibus fretado e almoço por quilo. A Rodovia Imigrantes, que separa Santos da capital do estado, terá mais uma vez minha companhia diária. Sem ode à vagabundagem, admito, veio em boa hora. Mas eu fico assim, meio sem sentir. É agora, neste instante, que eu devo decidir pra onde ir? Que eu devo acontecer? Me espera... Não quero riqueza, fama, glória ou sabedoria máxima. Jamais pensei em receber salário em dólar ou fazer parte da alta diretoria. Poder? Nunca me atraiu. Quero rir e, de certa forma, ter com que pagar. Da mesma forma escrevo por aqui, manso. Não pretendo uma autobiografia e nem mesmo minhas memórias póstumas. Vida despretensiosa, sim.
Existem pessoas que enxergam a felicidade como um fim, e não como um meio – o mais importante. Há também aquelas que são felizes hoje, e se arrependem por um amanhã tão mal planejado, tão errado. Eu sigo um meio termo de dar dó, mais ou menos feliz aqui para ser mais ou menos feliz ali. Hoje e amanhã... Nas palavras de Marcelo Camelo, “vivendo devagar pra não faltar amor”.
Deve ser bem por isso que eu me lembro – e invejo – o velho que ia de pijama ao bar do meu pai. Não sei onde ele está, nunca mais o vi. Mas, para mim, o velho que ia de pijama ao bar representa o único modelo de felicidade completa.
Ir ao bar é bom. Colocar pijama é bom. Mas, por motivos ainda misteriosos, instituíram que é condenável ir de pijama ao bar. O velho, porém, estava acima destes regulamentos estúpidos.
Morava na pensão ao lado do boteco. Provavelmente era sozinho na vida. Às seis horas da tarde abria a porta da pensão, dava quinze passos e sentava-se a uma das mesas de metal do bar – na verdade, um estabelecimento muito simples, daqueles que tinham torresmos na estufa e uma máquina de pinball que engolia fichas.
De pijama, pedia uma cerveja, que lhe era prontamente servida. Bebia em paz e solidão. Não o incomodavam, e ele não incomodava ninguém. Depois de algumas cervas, voltava para a pensão.
O pijama era velho como o velho. De flanela, com detalhes azuis: uma segunda pele. Estava sempre limpo, o pijama – um fato estranho; desconfio que o velho tivesse dois ou três modelos iguais. Ah, e também havia as sandálias franciscanas, com uma quilometragem que possivelmente superava o Trópico de Capricórnio.
A tarde caía e as pessoas que deixavam o trabalho passavam pelo bar. No canto, à sua mesa predileta, o velho bebia o líquido amarelo com bastante espuma. Às vezes, novos clientes o olhavam com estranheza. Mas logo se acostumavam. Nós estávamos lá, vestidos e munidos com a roupa da vida cotidiana: camisas, calças, sapatos, cintos, cuecas, blusas, lenços, carteiras, isqueiros, pastas, agendas. Falávamos de tanta coisa: trabalho, política, esporte, religião, sexo, música, literatura, piadas. O velho, não. Jamais ouvi uma palavra de sua boca. Ele vivia no silêncio completo de um tempo que não era tempo: sua vida era sono, espuma, solidão e memória. Um leve sorriso, uma certeza serena do mais simples. O conhecimento do elementar.
Um dia meu pai vendeu o bar, que foi demolido para em seu lugar erguerem um armazém do cais do porto. Na mesma época a pensão fechou as portas e nunca mais tive notícias do velho, do seu pijama e das sandálias franciscanas.
É por isso que eu não quero sair daqui, meus amigos. Tenho medo. Não quero sair desta casa, desta cidade, deste pijama, deste boteco de palavras, deste silêncio. Recuso-me a sair deste post.
Por hora, eis a minha única ambição: ficar para não desaparecer.
Quarta-feira, Outubro 22, 2003
Post vaidoso
É isso aí. Por um comentário feito por Dona Lupa, no post abaixo, fiquei sabendo que o Cartesiano é top 5 no site BlogList, o tipo de coisa que sempre passa despercebida caso não se faça uma visita regular ao endereço em questão. Surpresa! Fazendo parte da turma dos descrentes, me espanta o fato de haver realmente um responsável disposto a ler os mais de cinco mil blogs cadastrados. Após esta ligeira, porém agradável, estranheza, não pude deixar de ficar bastante feliz com indicação. Grande merda, eu sei, no máximo haverão mais algumas visitas. Mas é o reconhecimento que conta. Não que a modéstia não seja uma das minhas virtudes, pelo contrário. Nunca julguei este endereço um primor, mas faço o possível para deixar este lugar sempre "ajeitadinho". Não há dono de blog no mundo que não queira ter seus textos e idéias compartilhadas com outras pessoas (se há, é muita incoerência), e daí a buscar identificação e um certo tipo de admiração é um passo curto e inevitável. Vaidade, né? Que se dane... O sentimento sempre ganha ares pejorativos de quem desconhece o momento certo de se envaidecer.
Há um momento.
Obrigado ao pessoal do BlogList e à todos que seguem lendo, comentando, adorando ou odiando minhas palavras. O Cartesiano continua...
Segunda-feira, Outubro 20, 2003
Pequenos prazeres
Afiava a navalha meticulosamente. Pensava em todos aqueles pescoços entregues à sua vontade. Quantos teriam ido? Duzentos? Talvez trezentos? Não sabe ao certo. O fato é que quase sempre aparecia um novo rosto à sua frente, motivo suficiente para, mesmo com certa insegurança, ceder aos apelos de sua navalha. Às vezes usava a tesoura. Gostava disso também. Eram cortes precisos, estudados. Com alguns se demorava mais, só pelo prazer de continuar talhando, de ver aquela sujeira acumulando no chão. Sentia gozo em observar aqueles pedaços humanos, aquilo que inevitavelmente seguia os desígnios da vida – cair, morrer, virar lixo. Simplesmente deixar de existir. Ele tinha esse poder. Ele gostava de ter esse poder.
Em momento algum se arrependeu de ficar com o dinheiro daquelas pessoas. Sabia que tinha feito por merecer. Ele, naturalmente, também sabia que elas nunca teriam como reclamar. Elas pediram por isso, e continuarão pedindo. Sempre.
A navalha já se mostrava brilhante, certeira e, porque não, mortal. Olhou-se no espelho. Com um pente, colocou seus cabelos lisos e já grisalhos para trás. Sorriu. Sabia que naquele dia não faltaria trabalho.
Abriu a barbearia.
Quarta-feira, Outubro 15, 2003
Casa
Fiz-me esperto,
resolvi o que fazer.
Transformei decepção em ouro.
Caro,
raro,
salvador.
Fiz dinheiro,
tanto quanto existe meu desafeto.
Comprei-te uma casa.
Rasa,
palha,
redentora.
Um lar distante.
Longe do meu gostar,
muito além do meu ódio,
no meio de nada.
Convido-te a celebrar,
nova morada,
velho amor.
Amor desqualificado,
subordinado,
sem partido.
Amor de tanto faz,
pálido,
com cheiro de água fervente.
Se você soubesse o que eu sei,
choraria pelo tesouro que nos esperava.
Largaria essa mania vulgar,
de provocar um amor definhado,
de me provocar.
Das coisas que eu joguei fora,
você é a mais valiosa.
É ou era.
Das coisas que eu nunca tive certeza,
você foi a maior.
Maior ou menor.
Agora uma casa,
repousa amor indecifrável,
sem sarjeta para me atirar,
sem portão para me esperar.
Uma casa.
Para na varanda juntar meus cacos,
para no quarto confundir meu cheiro.
A casa com o mais belo quintal,
de rosas insalubres e espinhos nocivos.
Rega, cuida,
pois hoje o jardim que eu respiro,
é calmaria.
Esse jardim de flores cálidas,
é muito mais do que eu pedi.
Se você soubesse o que eu sei,
pararia de querer julgar minhas escolhas,
enfrentar meus demônios,
lavar meus lençóis.
Arrumaria tua cama macia,
lasciva,
feita à margem desta vida ordinária.
Nela deitaria sem rezar,
dormiria sem desejar.
Vai, aceita,
que hoje és náufrago sem mar.
Vai, mora,
que agora qualquer espera é vã.
É ou era,
ampola vazia de uma droga perfeita.
Maior ou menor,
pena de quem não mais te deve.
Desse amor que não é amor,
sou clandestino,
não me sinto,
não mais reconheço.
Vai.
Chega.
Terça-feira, Outubro 14, 2003
Aperto
Era sempre assim. Eles entravam no carro e ele dizia:
—Desta vez você escolhe. Onde quer jantar?
Ela respondia:
—Que tipo de comida você quer comer?
Ele retrucava:
—Exijo uma resposta “resposta”. Não vale responder pergunta com outra pergunta.
Ela, sorrindo, perguntava:
—Por quê?
Era sempre assim. Pelo menos dez minutos, o carro parado em frente a casa dela, a discussão de onde comeriam. Daí ele ligava o carro e dizia:
—Vamos comer uma pizza então. Vou te levar no...
Ela interrompia:
—Você já foi no XXX?
Ele respondia:
—Não, mas lá não tem pizza.
Ela perguntava:
—Você gostaria de ir lá?
Ele acendia um cigarro e tocava o carro pro restaurante sugerido:
—Por que não?
E ela brincava:
—Não vale responder pergunta com pergunta.
Era sempre assim, ainda que neste dia houvesse uma diferença fundamental. Era a primeira vez que saiam a sós desde a volta dela. Ela morara um ano no Chile e passaria um tempo no Brasil. Talvez um mês. Talvez três. Não sabia ainda. Tinha que fazer uma pesquisa por aqui, não podia prever o tempo que duraria. Mas uma coisa estava definida: ela voltaria pro Chile assim que a pesquisa terminasse.
Ele parava o carro de modo que a porta do lado dela sempre desse para uma cesta de lixo. Ou uma árvore. Ou um poste. Era sempre assim. Ele tinha que tirar o carro da vaga para que ela conseguisse descer, para só então estacionar novamente. Por algum motivo, era sempre assim.
No restaurante discutiam em que mesa sentar. Isso demorava uns dois minutos. Depois o que iriam beber. Uísque? Vinho? Tinto ou branco? Talvez apenas uma cerveja caísse bem. Isso tomava o tempo de mais um cigarro. Ele acabava decidindo pelo uísque. Ela dizia:
—Eu vou pedir uma taça de vinho. Você sugere algum?
Ele desistia do uísque e pedia uma garrafa de Los Vascos. Ou de Bordeaux. Desta vez foi Los Vascos. Daí vinha o silêncio. Até o garçom chegar com o vinho, eles não se falavam. Era sempre assim. Ele experimentava o vinho e perguntava:
—Como você está?
Ela respondia:
—Bem. E você, como está?
Ele dizia:
—Não sei. Essa é uma pergunta difícil.
Ela retrucava:
—A resposta é difícil. A pergunta é fácil.
Eles riam. Era sempre a mesma piada, mas eles sempre riam. Começavam a falar sobre amenidades e iam subindo. Passeavam do "fez um dia bonito, não?" até o impasse Israel/Palestina.
Dois pratos e um vinho e meio depois, eles conversavam sobre eles. Ele dizia que ela estava cada vez mais linda, que ela era a prova que a perfeição se aperfeiçoa. Ela dizia que eram os seus olhos que viam coisas demais. Ele dizia que ela estava cada vez mais charmosa, com movimentos que pareciam ao mesmo tempo naturais e minuciosamente pensados, estudados e repetidos à exaustão. Ela não respondia. Ele dizia que a amava mais do que tudo. Ela dizia que era o seu coração, que sentia demais. Ele retrucava que era racional o seu amor:
—Não conheço ninguém mais brilhante. Ninguém mais bonita. Com você tenho tudo, como posso não amá-la? Só uma besta não se apaixonaria por você. Dizem que Van Gogh nunca vendeu um quadro em vida. A maioria das pessoas não percebe a grandeza quando a vê. Eu percebo. E não posso deixar de amá-la. Seria irracional.
Os olhos dela perdiam o brilho. Ficavam tristes. Ela não conseguia mais olhar diretamente para ele. Ele pegava uma de suas mãos e a segurava com força. Ela perguntava se ele queria café. Ele dizia que não e perguntava se ela queria ir. Ela dizia que sim. A conta chegava e eles discutiam quem ia pagar. Era inevitável. Era sempre assim. Ele sempre acabava pagando, mas desta vez foi ela quem pagou.
Ele tinha que tirar o carro da vaga, para que ela pudesse entrar sem ter que pular o lixo, a árvore ou o poste. Eles iam em silêncio até a casa dela. Ele parava o carro em frente ao portão. Falava algumas bobagens, ela ria, mas um riso com sabor de lágrimas. Ele a abraçava e dizia:
—Vai. Vai antes que eu tente beijá-la.
Ela sorria, lhe dava um beijo no rosto, abria a porta do carro e ia embora em silêncio. Era sempre assim. Mas desta vez ele perguntou:
—Quando nos veremos de novo?
Ela respondeu:
—Quem sabe?
Ele reclamou:
—Não vale responder pergunta com pergunta.
Ela sorriu triste e abriu a porta de casa. Antes de entrar virou-se e acenou adeus.
Sexta-feira, Outubro 10, 2003
Ê, meu amigo Cha...
E aí Charlie Brown, como vão as coisas? Lembrei de você por estarmos na semana da criança. Tínhamos tantas afinidades quando eu era uma... Lembra das sagradas manhãs de domingo? Nunca mais Charlie Brown. Culpa minha, eu sei. Meio sem querer eu cresci, acontece. Você nem imagina o rumo que as coisas tomaram, meu chapa. Sua popularidade foi severamente diluída com o passar dos anos, e as crianças de hoje em dia possuem outros interesses que não sua amizade. Atualmente o nome Charlie Brown remete a uma banda duvidosa, e ninguém mais recorda com tanta freqüência do menino vestindo um suéter amarelo com zig-zag marrom.
De coração, sempre te considerei um amigo. Espectador assíduo dos seus desenhos animados e leitor ávido de sua tirinhas de jornal, minha infância é eternamente marcada pela sua existência. Veja você, por sua causa e do seu cão Snoopy meu sonho era voar em cima de uma casinha de cachorro vermelha (tinha inveja do Woodstock), diferente dos outros meninos da minha idade que desejavam pilotar aviões supersônicos ou 737´s. Estranho, não é mesmo? Naquela época ainda não havia percebido ao certo qual seria o tipo de identificação que justificasse tamanha adoração. Apenas sei que ela não ficou barata durante os anos – para o meu bem, esteja certo. Tempo atrás, na oitava série, uma amiga cismou que eu parecia com você. Não em aparência, Charlie Brown, de maneira alguma me assemelho com as feições contidas em sua cabeça redonda. Ela falava do estilo perdedor que compartilhávamos; na verdade algo muito além de nossa própria vontade. Afinal não poderia ser de livre escolha que você jamais ganhou um jogo de baseball ou foi capaz de conquistar a menina ruiva. Nos dois sabemos disso. Você errava todos os chutes na bola que Lucy segurava, nunca conseguiu empinar uma pipa, enfim, sempre chovia em seu desfile, Charlie Brown. Você era pessimista demais para dar certo, menino. Passou a vida inteira queixando-se por ninharias, mas quem o havia de convencer que não eram ninharias realmente? Você é o desenho “animado” mais “deprimido” já feito, dizia essa amiga com certa espirituosidade, traçando desta forma a nossa semelhança. Minduim era meu novo pseudônimo, secretamente mantido em nossa intimidade pueril.
Charlie Brown, nunca tive a oportunidade de praticar o seu baseball. Aqui no Brasil os esportes são outros, e ainda que eu jogasse futebol todos os dias, nunca fui capaz de fazê-lo direito. A menina ruiva, na verdade, tinha cabelos pretos, e chamava-se Viviam. Nunca Charlie Brown, nunca lhe dei um beijo na bochecha sequer. Pra piorar as coisas, meus infortúnios ganhavam independência dos seus conforme os anos vieram (eu cresci, você não, lembra?). Na escola eu sempre amargava o castigo por todos e, quando já frequentava a faculdade, sobrava pra mim a maior parte da conta. Atrás de um volante minha vida foi marcada por pequenas tragédias, tudo por uma certa carência de habilidade automobilística. Se você tivesse carteira de motorista, Charlie Brown, seria igualzinho, não há como duvidar. Pelo menos na arte de empinar pipa eu sou bem melhor que você, justiça seja feita.
Deve ser bem por isso que sua existência me dava um certo conforto. Cumplicidade é tudo o que uma criança insegura precisa para superar as desventuras que lhe abatem. Sabe, Charlie, lembro-me vividamente da vez em que minha mãe retornou do hospital sem aquela barriga enorme promovida por uma gravidez avançada. Amparada pelo meu pai, perguntei-lhes ansioso onde estaria a irmãzinha que eu tanto aguardava. Sem coragem alguma de fitar-me nos olhos, ambos cruzaram a sala e deixaram para minha avó a responsabilidade de dizer-me que na verdade não era uma irmã que minha mãe carregava dentro da barriga, mas uma enorme quantidade de água que ela havia ingerido e por ventura esquecera de fazer xixi. Crianças daquela idade não conseguem compreender o sentido da morte, mas sentem, inexplicavelmente, a dor cruel de um desalento miserável, abstrato. Fiquei quietinho, no sofá da sala, observando a TV onde você, inesquecível, contava sobre as férias em que você viajou com a turma toda para um chateau na França. Chorando de olhos aberto, sem desgrudar um único segundo da tela, eu assistia, por um triz, você não vencer o primeiro jogo de sua vida. Também por um triz eu não tinha uma irmã. Um triz.
Agora eu fico pensando no que teria dado errado para tamanho esquecimento dessa amizade. Antoine de Saint-Exupéry disse em seu livro “O Pequeno Príncipe” que somos responsáveis por tudo que cativamos. Mas cá entre nós, não sei de quem foi o descuido. Em quem botaremos a culpa, Charlie Brown? Me ajuda, estou perdido... Quando Charles Schultz, seu criador, deixou nosso mundo há alguns anos, encerravam-se assim suas histórias, aprisionando-o para sempre em derrotas e desafetos. Você ficou aí, para sempre criança, perdido, seguindo o karma de uma popularidade às avessas e sem conseguir conquistar a garotinha ruiva. E da mesma forma que seu universo teve um fim, minha infância também o teve. É tão difícil encontrar culpa quando não nos foi dada qualquer escolha... Mas quem se atreve a dizer que não valeu a pena?
Apesar da sua tendência em deixar-se abater, e por mais que nós dois vivêssemos glamourisando situações de real desalento, como se estivéssemos predestinados a elas, nunca desistimos de ser sublimes. As “ninharias” das quais você se preocupava são apenas nossas vidas, escancaradas, tão reais que machucam aqueles que ousam viver de verdade. Custou a perceber que você não era um pessimista inveterado, mas alguém autêntico, ciente de que essa obrigação de vencer só pode ser uma alucinação coletiva de um mundo impiedoso, sem segundas chances. Graças a você eu cresci sem a obrigação implacável de dar certo, de estar sempre provando alguma coisa. Cresci livre, e talvez por causa disso as coisas acabaram funcionaram, enfim. Hoje eu coleciono amigos reais, descobri prazeres diversos e um gosto pela vida inédito até minha adolescência. Continuo não jogando bola direito, mas consigo não fazer feio dentro de uma piscina ou em uma mesa de ping-pong. E, ainda que não seja ruiva, arrumei uma menina para cultivar um amor recíproco. Charlie Brown, você é o personagem que me fará lembrar eternamente que os dissabores fazem parte da existência na Terra, que tudo é um aprendizado. Você existe como a extensão da minha criancice, provando que as lembranças, experiências e descobertas não morrem jamais. “Sou de minha infância como se é de um país", e assim sigo em paz comigo mesmo.
Charlie Brown, sabe o que eu tenho vontade de fazer, Charlie Brown? Te dar um abraço, bem forte, lá no ano de 1987 da minha cabeça; e dizer que, apesar dos pesares, estar por aqui tem valido a pena.
Obrigado, amigo.
Quinta-feira, Outubro 09, 2003
Ofício em nome do vício
Esse post rapidinho, voando, é só pra avisar que um dos melhores sites de games do Brasil, o FinalBoss (do qual sou colaborador esporádico) publicou em destaque uma análise do jogo The Simpsons – Hit & Run que eu escrevi depois de um longo inverno longe dos textos “jornalísticos”. Ao bem da verdade, após a operação, eu senti em mim uma necessidade maior de criar este blog e dedicar a ele meus minutos diários de escrita. As tais muletas emocionais...
Clique aqui para entrar no site ou, se a análise já tiver saído do destaque, aqui para ir direto ao que interessa.
—Mas Fabio, não gosto e nem entendo nada de videogames. Isso é coisa de crianção...
Feche o Explorer e continue o que ce tava fazendo :)
—Boa Fabão, sou fanático por games e gostei muito da matéria!
Ah é? Então leia mais estes reviews antigos...
O paradoxo de Lara Croft (Tomb Raider Angel of Darkness)
Bem velozes e bastante furiosos! (Midnight Club 2)
Um ensaio sobre o medo – Vol. III (Silent Hill 3 - na minha auto-crítica o melhor que já escrevi)
Separe suas fraldas! (Clock Tower 3)
Uma idéia na cabeça e um joystick na mão (Dark Cloud 2)
Brincadeira de mocinho e bandido (The Getaway)
—Por enquanto é só?
Sim. É só.
Terça-feira, Outubro 07, 2003
Relatividade
—Senhor, por favor...
—Desculpe amigo, estou com pressa.
—Só uma palavrinha, juro que vai ser rápido!
—Mas eu já disse, estou com pressa! Saí do escritório apenas para comer um pastel, nem tempo de almoçar direito eu tive. Além do mais, estou sem trocados...
—Trocados?
—Sim, trocados. Você é um pedinte e me parou para pedir alguns trocados, certo?
—Na verdade eu...
—Então o que? Estas roupas sujas e dois números maiores que o seu, o cabelo engalfinhado com folhas secas, a barba que há meses não conhece uma navalha, o pés descalços e encardidos pela sujeira desta praça. Um mendigo, sim senhor!
—Bem, vamos combinar uma coisa então. Sou mesmo um mendigo, mas no momento não quero lhe pedir nada.
—Claro, claro. Agora você vai fazer um daqueles discursos decorados que eu detesto. O que vai ser desta vez? Moedinhas pra passagem de volta ou dinheiro grande pra ajudar o filho com uma doença rara?
—O senhor não me entendeu. Eu não quero lhe pedir nada, já disse!
—Então, homem?
—Quero lhe dar esta nota de cinquenta reais que achei largada na calçada hoje de manhã.
—Como assim, me dar cinquenta reais?
—Ué? Quero lhe dar este dinheiro. Difícil entender?
—É pegadinha?
—Não.
—É falsa?
—Não.
—Mas... Mas...
—O que?
—Olha, desculpe, não posso aceitar cinquenta reais de você, um... Um... Mendigo!
—Como não pode, senhor?
—Ora, não posso. Você está louco? É óbvio que esse dinheiro faz mais falta a você do que a mim!
—Bem, aí é que o senhor se engana. Cinquenta reais é tanto dinheiro para minha realidade que eu nem sei ao certo como poderia gastá-lo. O senhor sabe, eu sobrevivo apenas com alguns trocados que eu ganho regularmente nesta praça. Quase sempre bastam para comprar alguns pães, a sagrada cachacinha, e quando a féria é boa consigo até gastar com alguns biscoitos de água e sal. Além do mais, ainda tem a sopa do albergue que...
—Rapaz, deixe de ser burro! Com estes cinquenta reais você pode se alimentar bem melhor do que isso, ao menos por uns dois ou três dias.
—Mas eu me satisfaço com essas comidinhas ralas, juro! Comer bem deve até me dar congestão...
—Então continue com esse cardápio triste, assim você pode ficar uma semana sem pedir dinheiro.
—Ficar sem pedir dinheiro?
—Claro!
—E como eu vou passar estes dias?
—Ora, use o tempo livre para...
—Para que?
—Para aproveitar a vida, caramba!
—Aproveitar a vida?
—(...) Desculpe...
—Por quê o senhor pediu desculpas?
—Ah, você sabe. Eu aqui falando em aproveitar a vida para alguém com uma condição miserável igual a sua.
—Tudo bem, eu entendo. Deve ser bom no seu caso.
—O que?
—Aproveitar a vida!
—Disse tudo. Deve... Engraçado, ultimamente não tenho tido muito tempo de aproveitar minha vida.
—Ela poderia ser tão boa, né?
—Sim, poderia...
—O senhor deve ter um carrão, computador, celular, ternos, uma esposa que o ama, lindos filhos e até uma casa de praia.
—É, mais ou menos isso.
—Então o que lhe impede de aproveitar uma vida tão boa, senhor?
—Como o que me impede? Ter tantas coisas, incluindo aí minha família, custa muito dinheiro. É preciso trabalhar duro!
—Viu só?
—Viu só o quê?
—Você acaba de admitir que precisa de dinheiro. Mais do que eu, presumo.
—Pára de distorcer as coisas. Já ouviu falar em relatividade?
—Já, mas neste exato momento não vejo como eu poderia aplicar proveitosamente tal quantia, acredite se quiser. O senhor, por exemplo, faria o quê com cinquenta reais?
—Agora, hoje?
—Pode ser.
—Hummm... Botaria créditos no meu celular, talvez...
—Então aceite logo esse dinheiro. Por favor...
—Quer saber de uma coisa? Eu vou mesmo pegar essa nota!
—Está aqui...
—Obrigado!
—Eu que lhe agradeço por me tirar esse fardo, senhor.
—Ta. Agora me deixe ir embora. Você já me tomou um tempo absurdo e ainda quero sair do escritório mais cedo para passar no shopping e recarregar o celular.
—Ótimo...
—Tchau pra você.
—Espere, senhor!
—Meu Deus, o que foi desta vez?
—Antes de ir embora, o senhor teria alguns trocados pra me dar?
—Desculpe amigo, mas vou ficar lhe devendo. Tenho apenas estes cinquenta reais que você me deu...
Sexta-feira, Outubro 03, 2003
Então, ontem eu fui ao cinema, o último dos últimos mesmo, assistir Amarelo Manga. Como tudo o que havia pra ser dito sobre o filme já está registrado, mas como eu também gosto de dar uma de crítico sobre as coisas que me interessam, vou apenas fazer um breve comentário.
Existe uma anomalia no atual cinema nacional, algo que provavelmente surgiu da necessidade de mostrar um Brasil tosco, miserável, violento, cru, enfim, um Brasil de verdade – ao menos em termos. A cada nova produção parece haver uma competição interna entre diretores, produtores e roteiristas para ver quem vai mais longe, quem consegue chocar mais, e, em alguns casos, o que era pra ser apenas um retrato do nosso país acaba virando algo caricato, distorcido e absurdo, mais real que a própria realidade. Assim é Amarelo Manda, uma vitrine gratuita e amplificada sobre a condição humana que poucos conhecem, de estar no limite de qualquer coisa. Claro que todos os temas abordados são reais e brutalmente delicados, o problema é a forma como isto é feito.
A trama decorre apresentando diversos personagens ricos e interessantes, cada qual carregando consigo um desvio de comportamento ou de personalidade e que, aparentemente, não possuem qualquer relação entre si. Separados todos são elementos inflamáveis, e eu estava esperando a hora em que a história os jogaria juntos em um grande caldeirão para uma considerável explosão acontecer. “Deve ser como Pulp Fiction”, disse com meus botões. Só que o tempo vai passando, passando, e quando finalmente os créditos começam a subir você ainda estará procurando o estopim que faria a coisa toda acontecer. E quando as luzes do cinema se acedem você começa a retroceder o filme inteiro na memória para perceber que várias das situações apresentadas não tiveram qualquer necessidade de serem ou sequer possuíam vínculo com a história. Óbvio que eu aprecio filmes onde o grande tesouro são as relações humanas e reflexões propostas, não a trama propriamente dita. Mas é difícil julgar tal intenção, algo quase abstrato. E mesmo que se tenha certeza de algo, Amarelo Manga não é uma coisa nem outra. Esse é o problema. E mais impressionante ainda é Cláudio Assis, diretor do filme, dizer estar ciente disso. Ora?!? No fim das contas vale mesmo pelas interpretações impecáveis de todos os atores, principalmente Matheus Nachtergaele (sempre), os textos lidos pelos intelectuais de botequim (“o pudor é a forma mais inteligente de perversão”) e a bucetinha linda de Leona Cavalli (sorry, Keka).
Amarelo Manga é assim, um coito interrompido. Aliás, até gozamos no final, mas é uma coisa tão estranha, mas tão estranha, que sai meio amarelada, tal qual é a cor das mesas, dos bancos, dos carros velhos, dos cabos das peixeiras, dos chapéus envelhecidos, das doenças, das remelas dos olhos dos meninos, das feridas purulentas, dos escarros, das verminoses, das hepatites, das diarréias, dos dentes apodrecidos...
Quinta-feira, Outubro 02, 2003
Das coisas que eu vejo pela minha janela
“Alguns dias de viagem apartam um homem – e especialmente um jovem que ainda não criou raízes firmes na vida – do seu mundo cotidiano, de tudo quanto ele costuma chamar seus deveres, interesses, cuidados e projetos. O espaço que, girando e fugindo, se roja de permeio entre ele e o seu lugar de origem, revela forças que geralmente se julgam privilégio do tempo; produz de hora em hora novas metamorfoses íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas em certo sentido mais intensas ainda. Tal qual o tempo, o espaço gera o olvido; porém o faz, desligando o indivíduo das suas relações e pondo-o num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou burguês numa espécie de vagabundo.”
(Trecho do livro “A Montanha Mágica” de Thomas Mann)
Alto deste terceiro andar eu assisto o palco da minha vida inteira, de criança a adulto, praticamente imutável em seu aspecto e significado. Do bairro de casas baixas onde eu moro até os prédios tortos da orla de Santos, tudo é meu reino até que eu perca a visão num horizonte despido de formas, finito pelo mar infinito que divide este lugar de outros por mim invejados. Deitado na cama, esperando o sono chegar, a janela do meu quarto transformasse na via expressa do meu desejo em buscar novas chances fora deste reino. Com o corpo de lado, sempre, olhando através daquela simples abertura quadrada na parede, a amplidão já descrita perde muitos dos seus elementos, e o que resta para meu deleite é a silhueta da copa de uma palmeira madura, de formas perfeitas, contrastando com a noite branca iluminada pelas luzes da cidade. A palmeira está plantada a uma quadra do prédio onde moro, e há vinte e cinco anos adormeço olhando em transe para esta imagem, tal qual fosse um quadro, desejando um novo brinquedo, imaginando quando meu pai voltaria a morar conosco, querendo não estar mais apaixonado por um certo alguém, me preocupando com a prova do dia seguinte, buscando a palavra certa praquele texto, esperando um dia dormir com uma vista diferente... Como se não houvesse prédios e mares separando este quarto das minhas conquistas, apenas o céu e copas flutuantes de palmeiras.
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Dias desses, em uma mesa de bar dividida com um amigo e um amor, eu abri o jogo sobre minhas reais possibilidades de dar um significado maior à minha vida, em quaisquer aspectos que se possam imaginar, mas principalmente os que nos formam como indivíduo. Comecei relevando a maneira mais prática, que seria me instruir com novos cursos de aperfeiçoamento (relacionados à minha profissão) ou uma pós-graduação. Seguro e garantido, seria a chance de melhorar de vida, no sentido “pejorativo” do termo. A segunda, esta sim mais complicada, seria abandonar a informática e seguir uma carreira direcionada à comunicação, meu amor platônico. Fingir que meu primo e namorada não engavetaram seus diplomas, e fazer valer uma provável vocação. Por fim a última possibilidade, claro, viajar. Tentar a vida no exterior ou simplesmente longe de casa.
O meu viajar é esse sonho difuso que muita gente tem ou pelo menos já teve. Não falo apenas de turismo, a questão de sair de casa somente para apreciar outras paisagens. Também não festejo a possibilidade de faturar em euros ou dólares. Falo, sim, da própria revolução pessoal, de encontrar em lugares óbvios ou recônditos novas versões para a vida de todos os dias, um antídoto para o cotidiano previsível e meticulosamente programado. Viajar é sentir o vácuo de qualquer certeza, buscar encanto em medos adormecidos, na aspereza de ser estrangeiro, na insegurança da liberdade plena. Levar meus dias responsáveis como quem lê um livro sem se preocupar com o número de páginas, me permitir uma chance alternativa àquela proposta pela casualidade rígida de estar nos eixos. Seria como passar a vida a limpo, aparar arestas que deixam meu dia-a-dia mais feio, cortar vínculos desnecessários e afrouxar os laços mesmo não querendo desatá-los por completo. Um novo entendimento sobre o mundo e o que é ser com ele, enfim.
De todas as viagens que eu já fiz, carrego miniaturas destes sentimentos, tal qual o ensaio de algo grande que ainda está por vir. Nos dias em que estou longe de casa, alternando euforia com pura reflexão, me pego muitas vezes contemplando momentos simplórios em sua essência, mas ciente de que serão valiosos em minhas memórias. Na primeira vez que fui a Portugal, por exemplo, lembro-me de estar caminhando por uma viela feita de pedras, a única maneira de chegar à casa da minha avó paterna – avó esta que ainda não conhecia. No meio da andança refleti que aquele momento seria eternamente por mim recordado, e assim o foi. A lembrança do encontro propriamente dito se perdeu há tempos, mas sobre aquela caminhada, o saber que aquilo um dia seria lembrado como um espiral de memórias recursivas, está intacta. Ficou ali, naquele caminho, um pouco de mim, da mesma forma como ainda existo no milharal ao fundo da casa desta mesma avó, nas ladeiras de Ouro Preto, nos quartos de hotel em Blumenau, nas cachoeiras de Ilhabela, nas serras de Amparo, e em outros poucos, mas inesquecíveis, lugares.
Muitas são as pessoas que, ao soltarem-se na vida, escrevem livros ou dão depoimentos depreciando estes momentos genuínos de apego, como se a nobreza do viajante fosse não pertencer a lugar algum. Eu quero é pertencer a todos os lugares, e que eles também virem meus pertences. Quero colecionar saudades e fazer delas um combustível infinito para minhas aventuras. Entender que a saudade que eu sinto dos lugares que nunca vi pode parecer absurda, mas do jeito que me dói eu simplesmente não posso subestimá-la; e é com ela que eu conseguirei ir além.
De alguma forma me sinto preparado ao alimentar essa vontade, e nada mais além de detalhes impedem que eu leve a idéia adiante. Uma frase de Manuel de Barros sintetiza tamanha aflição: "Do lugar onde estou, já fui embora". Mas como conviver com tal idéia se me apego até a minúsculas bobagens confinadas nas gavetas do meu armário? Incoerência, eu sei. E como enfrentar o medo de fazer a escolha errada? A insegurança mata, definha uma vontade, e o clichê de que só se vive uma vez soa tão óbvio e exato que me deixa temeroso. Agonia de aceitar o fato que talvez “ser um pouco de tudo é nunca ser algo por inteiro”. Uma chance, uma história, uma vida, uma morte. Não ha tempo de testar vários destinos. One shot, that´s all. E nada cura, nada muda, a não ser escrever, como se o feito me aproximasse do momento de partir ou da escolha em permanecer. “O que tiver que ser será” é uma bobagem da qual não posso me permitir. Apenas desejo não me precipitar nem deixar passar o momento, como se esta urgência de criar asas fosse madura o suficiente a ponto de reconhecer a hora certa. E eu sei que reconhecerá, muito mais por saber que ela não encontra razão em uma suposta insatisfação com a vida. É apenas a voz da inquietação dizendo que as coisas poderiam ser ainda melhores. Assim, mais uma vez esta noite, tentarei achar respostas, deitado de lado, olhando a paisagem costumeira. Só faço saber a certeza de que um dia, mesmo que eu vá dormir com a vista de outras janelas, estarei sempre correndo o risco de uma palmeira qualquer me recordar um certo lugar. O lugar onde eu era feliz e fingia não saber; para ter um por quê de me perder por aí...
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