Terça-feira, Dezembro 30, 2003
Sobre um despertar
Sempre achou o termo “reveillon” uma boçalidade. Foi saber, lá pelas tantas da noite, que a palavra, em bom francês, significa "despertar do dia". A televisão transmitia a novidade para um homem inerte em sua cama. Um homem que estava pronto a mandar para o inferno não só os franceses, mas também os brasileiros que insistiam em comemorar o fim-de-ano, a virada, o ano-novo ou coisa que os valha ao lado de seu pequeno apartamento em Copacabana. Era 31 de dezembro e o seu relógio à prova d'água – 100 metros, muito mais do que ele nunca precisou – marcava vinte e três minutos para a meia-noite. Gargalhadas e pequenas histerias, abafadas pelas paredes úmidas de seu quarto, pareciam lhe tirar uma concentração desnecessária. Pensava em todos os nobres desconhecidos que, assim como ele, assistiam o tal “despertar do dia” pela televisão; a parcela da parcela de seguidores do calendário gregoriano que sequer imaginavam um sentido para tamanha euforia. Individualmente o homem até supunha um despertar, mas era algo muito, muito diferente. Precisava acordar do letargo crônico que estacionara seu espírito na companhia de tudo o que é abstrato e medíocre ao mesmo tempo. Sabia disso sem saber, tanto quanto durava imutável condição. Solidão. A porta do partamento permanecia sem trancas, sempre, como se vivesse à espera de alguém; Algo. A porta do quarto, por sua vez, permanecia fechada, a chave, mesmo no absurdo de estar morando sozinho. Lá dentro a penumbra era fraca e o cheiro era forte, impregnava seus dedos amarelos, sua solidão amarela. Acendia um cigarro na brasa quase esvaecida de outro que mal havia fumado por inteiro. Já não se importava em ver as cinzas misturando-se entre o corpo nu e o lençol manchado. Não havia como. O cinzeiro, absolutamente cheio, não era limpo há dias. Muito mais que descaso, o objeto repousava sobre a única fotografia que lhe trazia alguma lembrança boa. Não queria chegar perto, ter de olhá-la. Ainda assim ambos, cinzeiro e fotografia, permaneciam sobre seu criado mudo por algum motivo por ele esquecido, assim como esquecera também a fórmula para chorar. Até isso deixou de funcionar, não mais o livraria da angústia acachapante. A única coisa a prova de tanto esquecimento era a balbúrdia que ecoava das ruas naquele instante. E o homem tentava, com todas as suas forças, abstrair tudo aquilo. Pensou então no peru que sua mãe havia lhe trazido no Natal, fora da geladeira por todos aqueles dias. Não lhe tocou, morreu em vão. Sempre pensava neste tipo de coisa. Morrer em vão. Tinha um medo terrível da morte, o que lhe salvava de atentar contra a própria vida. Faltando onze minutos para a meia-noite ele invejava a todos os suicidas do mundo, sem exceção. Nunca havia lido alguma estatística a respeito dos suicídios de final de ano. Sabia que o índice aumentava nesta época, mas desconhecia pequenos detalhes, por exemplo, se os homens se matam mais que as mulheres; Se a preferência é por enforcamento, pular da janela ou colocar a cabeça no forno; Se o horário de pico é antes ou depois dos fogos e do champanhe. Embalado em tais pensamentos o homem sentia-se sereno, pronto para, finalmente, descansar suas profundas olheiras. Trouxe o braço direito ao peito e repousou a fina mão sobre o coração a fim de sentir seus batimentos. Era quase um ritual quando procurava dormir, como quem precisa lembrar que está vivo. Depois de refletir sobre o acalanto da morte, o alívio necessário por saber-se com vida; ainda. Mas qual o quê, desta feita não conseguia sentir aquele pulsar característico. Tentou de todas as formas perceber um suposto engano, mas sentiu, literalmente, um vazio incontestável em seu peito. Não sabia precisar se era o buzinaço do mundo exterior que lhe impedia escutar o som abafado de suas manifestações cardíacas ou se eram as vibrações da música estridente que emanava do apartamento vizinho, confundindo e camuflando seus próprios batimentos. Certo é que o homem rapidamente sucumbia ao pânico. E do pânico fez-se a insanidade. Destrancou seu quarto e, vencendo com dificuldade os obstáculos cotidianos omitidos pelo breu, pôs-se a descer nove lances de escada, ainda nu, como se a vida lhe escapasse de permeio. Correu com dificuldade, sem saber por onde. Pensou em gritar por uma ajuda, mas a boca seca sentenciava uma morte iminente, sem auxílio. Após muito esforço, alcançou as ruas e misturou-se na multidão que, por sorte de evitar um alvoroço ainda maior por vê-lo naquele estado, olhava para o céu à espera do espetáculo, entoando em uníssono a contagem regressiva. Era o fim. Como se lhe faltasse todo e qualquer ar, o homem caiu exausto nas areias da praia de Copacabana. Pálido, sentiu o corpo inteiro formigar e, logo após, deixou de senti-lo por completo. Cinco. Olhos fechados, pensava em sua infância e o dia em que levou alguns pontos no joelho por cair de bicicleta. Quatro. Riu de si e do Brasil ao mesmo tempo, a morrer, a morrer... Três. Ironizou sua condição e sentiu-se feliz por partir daquela forma. Imaginou sua foto na primeira página dos primeiros jornais de um novo ano. Seria lembrado. Dois. Mas faltou tanta coisa. Ficaria mesmo sem se desculpar por suas mentiras. Um. Medo, muito medo. Medo. Zero. O céu foi rasgado por teias e rastros multicoloridos e o espaço tomado por um barulho ensurdecedor, interrompendo violentamente o silêncio que lhe fazia prece. No corpo inerte do homem, involuntariamente, estouros longínquos vibravam seus tímpanos e lhe impedia desaparecer. Pulsando. Pulsando. Ouvia, sentia. Pulsando. Pulsando. Estampidos estridentes, sincronizando sua existência. Batimentos ritmados. Pulsando. Pulsando. Sentiu a face ruborizar, era qualquer coisa retornando. Abriu os olhos com dificuldade. Olhou para o céu e assistiu um caleidoscópio de velhas esperanças se acenderem, alimentando um coração quase morto, pulsando ao som dos fogos de Ano Novo. Chorou. Finalmente, triste como nenhum outro ser já esteve, o homem chorou. Triste, mas sentindo; vivo, enfim. Naquele momento era só o que ele era, vivo. Lutando por ser, não apenas por estar. Pulsando. Levantou-se e enxugou suas lágrimas. Olhou para o céu uma última vez e foi embora, não sem antes ter o melhor reveillon de sua vida.
Terça-feira, Dezembro 23, 2003
Carta
Das infindáveis preciosidades que são deixadas ao longo do caminho conforme crescemos, a ilusão sobre o Natal é das mais significativas quando tento catalogar minhas grandes perdas. E tanto é a perda que eu mal consigo contar o tempo passado desde que a data se tornou irrelevante para mover minha vida adiante. Se nos últimos anos ela ao menos servia como divisora de águas, agora nem isso – uma porção que parece caber em uma pequena bacia. Das coisas que eu posso ter certeza, essa ilusão, assim como qualquer outra, é algo inerente ao universo infantil, e aí está uma explicação (não todas) para tamanha apatia com relação ao Natal. Vejam, há tempos deixei de ser um menininho – mesmo insistindo inconscientemente que isso não é verdade – e coisas como enfeitar a janela da sala com luzes de mil cruzeiros ou abrir caixas de Playmobil embaixo da árvore já não fazem mais parte das ansiedades “findeanísticas”. Hoje meus brinquedos custam caro e, se não estou com saúde para uma overdose de capitalismo, sobraria então, política ou espiritualmente correto (dependendo da classe social), lembrar que esta data representa o nascimento de Cristo. Católico, xintoísta ou macumbeiro, é de bom senso não jogar o fato para escanteio, acreditando ou não, concordando ou não. É isso aí e ponto final. Mas como bom agnóstico (não confundir com ateu), eu fico no meio-de-campo, fazendo embaixadinhas até o segundo tempo terminar.
Que não venham me dizer se tratar de um período de renovação... De discurso auto-ajuda eu estou cheio. Pensando no Natal que se aproxima, é somente mais um 25 de dezembro, daqueles que eu mal vi chegar e, antes mesmo que dê conta, terá ido embora. Trabalho, prazos, dinheiro, contas, e a vida que segue o seu rumo, acalentando malditos sonhos impossíveis com a “quase” infalível esperança pueril, tão fina e frágil quanto os fios brancos da barba do Papai Noel; tão fácil e óbvia quanto os motivos que nos fazem crer que, neste Natal, neste sim, as coisas vão melhorar. Esperança. Um belo dia ela parte, se esgota. Quebra-se o espírito de uma pessoa até que ela escreva o parágrafo acima. Ou, em outro belo dia, sem saber por quê, escreve-se uma carta.
Cartinhas. Assim como as ilusões, estas também são coisas de criança. Mas existe uma em especial que, posso assegurar, foi realmente inevitável. Uma carta para salvar o Natal, para gostar do Natal com a mesma intensidade com que as crianças gostam. Sobre tal, o fato é irrevogável: crianças sadias escrevem cartinhas. O jornal da última madrugada não me deixa mentir – uma reportagem “tapa-buracos”, repleta de crianças gorduchas, criadas com Neston, mostrando diversos depoimentos sobre a arte da extorsão via correio. Todas elas escrevem algumas linhas nesta época. Botam lá no envelope “Pólo Norte” e aguardam aflitas para que seus anseios sejam atendidos. Ponho-me a imaginar o que os pais fazem destas cartas após serem lidas (o início da violação de privacidade “necessária”). Será que minha mãe guardou algumas delas no seu caixote de recordações sobre minha infância? Haverá algum papel amarelado, com estrelas cadentes desenhadas, fazendo companhia para aquele toco de cordão umbilical podre? Creio que não. Aliás, não mesmo. Acabei dando conta que eu, justo eu, nunca havia escrito uma. Não sei se a tradição varia de um lar para outro ou se foi a Dona Idalina que não me incentivava para tal, mas confesso que nunca fiz nem mesmo um rascunho mal-acabado contendo a wishlist da época. Pensando bem, eu simplesmente não posso encarar o fato com total estranheza. Lembro com perfeição do período em que nutria um pavor absurdo quando o assunto era fazer redações para o colégio ou ler os grandes mestres da literatura infanto-juvenil nos livros da editora Ática (maldito Escaravelho do Diabo). Mas os deuses têm um senso de humor incrível, e hoje, ironicamente, faço das palavras um alicerce. A vida é mesmo uma drogada incorrigível.
Clichê por clichê, nunca é tarde para começar, e ainda ontem me propus a escrever tal carta. Só havia um detalhe entre a vontade e a realização: não saber a quem endereçar o envelope. No canto direito do ringue, Papai Noel, no esquerdo, Deus. O primeiro é cobra velha, marqueteiro que só engana crianças e abastados. De lapso Deus me pareceu uma escolha óbvia, mas, assim como o bom velhinho, Ele também poderia ser um instrumento manipulador de massas criado pelo próprio homem. Saber que a fase de acreditar em Papai Noel já passou é apenas o óbvio. Citando Garotos Podres, “aquele porco capitalista, presenteia os ricos, cospe nos pobres”. Mas daí eu me pergunto se a fase de acreditar em Deus, também já passou. Entre tantos outros questionamentos que eu me faço, confesso ser este o mais difícil. Então lá estava eu, às vésperas do Natal, mais uma vez hesitante, esperando ter uma conversa de criador para criatura.
Na varanda do terceiro andar do prédio onde moro, cada cigarro fumado por mim representava uma angústia. Obviedades como por que esquecemos que o Natal, antes de ser um delírio consumista, é uma data carregada de símbolos para aqueles que acreditam. Tentar entender porque vou ter uma ceia farta e feliz com minha família reunida à mesa, de modo que no dia seguinte haverá gente faminta chafurdando algum lixão para se alimentar do que sobrou. Juro que às vezes eu não entendo esse Cara. Enquanto isso, no prédio em frente, o velho Noel permanecia lá, dependurado tal qual um macaco em uma grande árvore de Natal, servindo como adorno pomposo para moradores orgulhosos. Estava sorridente, olhando fixamente em meus olhos, com respostas simples, mas tentadoras. Logo percebi que naquela madrugada poderia estar acontecendo o maior duelo fundamentalista que os dois grandes ícones do Natal já travaram algum dia: A fatídica disputa pela minha carta, pela minha simpatia. E o barrigudo continuava ali, me encarando de uma forma tão voraz e certeira que por um breve instante senti-me na obrigação de desviar os olhos para o céu e dar um ultimato: “E Você, não vai fazer nada? Toda essa porra aqui em baixo é tua, viu? Não vem querer bancar o desentendido! Entre o Céu e a Terra, religião ou capitalismo, fé ou dinheiro, Você divindade ou nós homens, de quem é a culpa? Em quem devo acreditar?”.
Então, subitamente, antes mesmo que a dúvida viesse de encalço para nunca mais partir, algo estranho aconteceu. Olhei pro céu e aspirei profundamente o cheiro daquela manhã de segunda-feira. O que havia de especial nela? O que me mantivera acordado velando o sono dos que amo durante toda a madrugada? Quem estaria disposto a responder qual o sentido daquilo tudo? De uma forma ou de outra, me dei conta que estava procurando por algo que seria a própria resposta, e todas as minhas dúvidas passaram devagar, como as primeiras nuvens que se dissipavam no céu alaranjado. Repentinamente senti-me pequeno, mas intensamente vivo, com uma urgência doida de ficar olhando toda a cinzenta cidade acordando, quietos e imersos em seus universos pessoais, tão grandes quanto o meu próprio. Como quem não se sente mais sozinho em um mar de interrogações, fiquei em paz com tudo aquilo, sereno e confortável por estar vivo, sentindo-me parte de uma grande conspiração que incluía até os seres mais duvidosos como eu. E todas as incertezas deixaram de ser cabíveis, e todas as respostas pareciam desnecessárias, ao menos naquele instante. Assim como o amor e o ódio podem ou não mover minha vida sem que eu os veja, apenas sentindo, eu contemplei minutos tão raros quanto intensos, sem provas, sem rastros, sem me importar.
Imediatamente peguei lápis e papel – nada de computador desta vez – e comecei a escrever a bendita (ótima essa) cartinha, a primeira para um destinatário tão influente. Exercitando o lado bizarro de uma descrença crônica e também minha sofrível letra bastão, em poucas palavras expliquei tudo o que eu amava e tudo o que eu odiava em sua criação. Entre reclamações e elogios, preferi deixar as grandes questões do Universo de lado. Não iria aborrecê-lo com isso (ele nunca responderia mesmo). No lugar do trivial, agradeci por eu ser quem eu sou, mas reclamei por não ter nascido com o dom de compor do Neil Young ou a poesia do Jim Morrison e, ainda na área musical, quis saber se algum dia eu chegarei a tocar guitarra como David Gilmor. Perguntei também porque os meus amores são (eram) tão errados e se a Angelina Jolie se empolgaria se eu lhe escrevesse uma carta também. Em um pequeno post scriptum desejei feliz aniversário ao seu filho mais ilustre e, por fim, ainda sobrou tempo para uma última pergunta: “Anjos da Guarda existem? To precisando de um...”. Dobrei o papel cuidadosamente e guardei-o dentro do envelope onde escrevi “p/ Deus – End: Céu”. Achei que isso bastaria. Quanto ao remetente, preferi deixar em branco, afinal ele é onisciente. A única dúvida era como eu faria para que a carta chegasse até sua caixa postal. Não queria passar por ridículo entrando em uma agência de correios e, mesmo que fosse possível, sairia muito dispendioso. Imagine quantos selos seriam necessários para que a carta fosse entregue em seu destino...
Da noite fez-se o dia e eu ainda na varanda, fumando o último cigarro do maço na dúvida sobre o que fazer com o envelope. De repente, observando a fumaça sair lenta da minha boca, subindo indefinidamente – o que me faz acreditar que Deus é um fumante passivo – eu tive uma idéia. Tirei o isqueiro do bolso e achei por bem queimar a carta. É claro que todas as letrinhas se transformariam em fumaça e chegariam até Ele. E assim foi feito. Curioso é que enquanto a fumaça subia calmamente em direção do céu, algo muito curioso aconteceu... Que os físicos e químicos expliquem o fenômeno: a carta queimou por completo e não sobrou cinza alguma. Tudo virou fumaça, dissipando-se pro alto. Estranho. Um pequeno milagre? Um sinal? Não sei dizer. Mas duvido que Deus não tenha recebido minha carta.
Eu continuo por aqui, a espera de uma resposta.
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