Desconstruindo certezas e abraçando dúvidas.


Quarta-feira, Março 31, 2004

Post nostálgico

Meus dois últimos fins-de-semana foram marcados por formaturas. Em cada um fui convidado para uma festa (parabéns Gi e Paty) e, por motivos óbvios, ambas me fizeram recordar mais carinhosamente a minha própria colação de grau, há pouco mais de um ano. Na ocasião fui escolhido orador, não pelo reconhecimento de uma pseudo-aptidão para escrever um discurso — para todos os efeitos eu sou um porra-louca que não possui qualquer intimidade com as palavras, e pouco mais de meia dúzia de amigos da época de faculdade freqüentam ou sabem da existência deste blog (sacanas). Fui, sim, escolhido por ser uma pessoa comunicativa e desembaraçada, e que, por conseqüência, todos enxergavam com um certo carisma. Por certo aceitei a responsabilidade alegremente, mas estava convicto de que o tal discurso deveria ser, senão o mais especial e perfeito texto já escrito por mim, o mais importante até então. Assim fui acometido por medo e insegurança, o que culminou com a minha presença inerte frente ao computador por quase duas horas, vazio e sem idéias. Apenas tinha a certeza de que não seria formal demais, tampouco me valeria de clichês. Decerto não fui formal, mas os clichês me tentaram a todo instante, irresistíveis... Venceram-me na segunda tentativa. Sim, escrevi o discurso com razoável antecedência, em uma noite apenas, mas faltando um dia para a colação, fiz-me insatisfeito com o resultado final, duro demais, incompatível com a comoção e a precipitada nostalgia que já me transformavam em uma pessoa diferente daquela que achou tê-lo terminado. Reescrevi algumas partes de modo a não me preocupar em ser passional ou fervoroso em demasia, apenas fazendo o que eu senti que deveria ser feito naquele momento. E agora, a lembrança... Não sei ao certo a razão que está me levando a postar este discurso de formatura aqui, neste blog. Provavelmente não interessa a ninguém mais que não os velhos amigos do curso de Ciências da Computação da Unisantos (os mesmos que não o visitam). Mas algo restou daquela emoção sentida quando eu estava frente ao oratório, e se manifesta diante da simples lembrança de um dia tão significativo quanto aquele. Hoje, as palavras deste discurso são a síntese de que tudo valeu a pena, e se me recordo destes tempos com carinho, é porque meu coração ainda bate da forma como deve bater. Ei-lo:

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E então o nosso tempo passou. De repente não nos vemos mais na obrigação de ir para a faculdade e no meio de tantos outros novos deveres, quem diria, o discurso de formatura. Quando decidi escrever este texto, prometi a mim mesmo que faria o possível para não cair no trivial de praticamente qualquer discurso deste tipo, que é falar sobre os amigos que fazemos no tempo de faculdade, e também sobre os desafios que nós, formandos, teremos daqui pra frente. Que precipitação. Bastaram alguns minutos na frente do computador para perceber que seria uma tarefa realmente muito difícil. Até porque é justamente sobre isso que uma formatura se trata: futuro e amizade. Simples desse jeito, e bonito também. Pra falar a verdade, longe de mim querer escrever um discurso no sentido literal da palavra. Acredito que discursos não funcionam em um momento como este. Familiares, professores, nossos amigos... Porque não uma confidência?

Passadas as angústias das provas e exames, passadas as falsas euforias de final de ano, voltamos a pensar na vida mais lucidamente e, de certa forma, percebemos a perda inconscientemente que tanto desejamos durante o tempo em que convivemos juntos. Sim, formatura também simboliza perdas. Pequenos grandes momentos que só serão contados nas memórias daqueles que hoje aqui estão, apreensivos pelo que lhes vai acontecer com um diploma nas mãos. É estranho. Hoje sabemos nossos nomes, telefones, humor, do que gostamos e do que não gostamos. Até que um dia todos viramos lembranças, bem distantes, sobre um passado tão glorioso que trará dor pelo simples fato de ser lembrado. De um lado nossa convivência em sala de aula, dividindo ansiedades, cadernos e conhecimentos. Do outro, porque não, nossos bares, papos-furados, madrugadas e viagens. Tudo obra daquele efeito de amizade coletiva na qual nos sentíamos bem. Aquela arte de ser e se sentir amigo, que por mais que mantenhamos contato, basta um descuido para morrer com o tempo, morrer com a indiferença, morrer com uma vida mais realista.

Olhem para nós, bacharéis em Ciências da Computação. Olhem para nós que acordamos sobressaltados todos os dias na pressa de não perder o ônibus que nos leva até São Paulo ou ainda vivendo na angústia de conseguir um novo emprego. Olhem para essas caras amarradas, um tanto tristes, apressadas por entre corredores de empresas, falando ao telefone com pessoas importantes, fazendo parte desta máquina que faz do dinheiro nosso próprio combustível. Atentem para nossas conversas, algumas repletas de assuntos técnicos que apenas a nós compete compreendê-los, e outras tantas sobre a relevância dos projetos nos quais estamos envolvidos. Pensem na força que somos obrigados a demonstrar todos os dias, trabalhando sempre com eficiência, sem exibir uma imperfeição ou um sinal de fraqueza. Percebam a segurança e a firmeza de pedra que há em cada um de nós quando lidamos com nossos sérios compromissos. Qual é a imagem que se pode ter de nós? A de seres intocáveis, capazes de produzir como a máquina que estudam, grandiosos e inacessíveis como se vivêssemos em algum Olímpo. Mas nunca a de um ser-humano que pode falhar e ter os mesmos problemas corriqueiros que todos têm. É difícil admitir, mas falta algo. Não me refiro às nossas angústias, aos nossos problemas pessoais que ficaram escondidos atrás de programas, prazos, provas e massas de conceitos novos a aprender. Pode parecer que durante alguns anos ninguém aqui chorou, consolou quem precisava ser ouvido, foi a festas e bebeu demais por sua própria vontade, se apaixonou e sofreu muito por isso. Nada disso consta em nosso currículo. Mas sabemos que ele é muito maior do que aquele que apresentamos em uma entrevista, uma dinâmica e até diariamente em nossos empregos.

As palavras que realmente quero dizer agora não são ditas no laboratório, na sala de aula, ou mesmo fazem parte de algum projeto. Essas palavras estão escritas em nossos corações, e as levamos todos os dias dentro de nós, sempre desejando dizê-las ao mundo, mas tendo medo de fazê-lo, por não parecer conveniente. Nós as dizemos às vezes pelos cantos escuros, a alguma pessoa de confiança – muitas vezes nas entrelinhas – mas nunca as dizemos para um professor, um patrão, um colega de profissão, quando muito para nós mesmos. Hoje, no entanto, venho dizê-las a todos. Por um dia apenas vamos pensar no que não pensamos ontem e não pensaremos amanhã. Vamos pensar no universo que cada um de nós carrega dentro de si. Não estamos agora nos corredores das empresas ou na faculdade. Vamos abandonar por um instante nosso formalismo, nossas vergonhas, e viver em um mundo novo, sem técnica e sem regras, que parece distante, mesmo estando presente dentro de nós, escondido entre tantos receios. Vamos enxergar mais longe, por distâncias até inaceitáveis para nossa visão da vida, e nos permitir sentimentos que mantemos secretos dentro de nós, aqueles que o meu e os seus corações clamam todos os dias por vivenciar. Vamos olhar para todos estes amigos que estão agora ao nosso redor, e ficar em paz simplesmente por causa disso.

Finalmente não será mais difícil expressar o que muitos já sabem há tempos, mas que havia sido dito de uma forma diferente, talvez por um gesto, uma carona, uma cerveja ou um simples telefonema. Hoje eu quero demonstrar toda essa gratidão, quero que esse sentimento simbolize uma espécie de abraço coletivo, e que ele dure através dos anos, nem que por obra do acaso eu seja o primeiro a desistir deste abraço. E, afinal, será mesmo possível tocar os corações de todos vocês hoje? É difícil dizer que sim. Talvez a única recordação que fique deste dia seja apenas algumas fotografias e nada mais, pois hoje é sexta-feira, um fim de semana e será dia de trabalho novamente. Mas estou tranqüilo, pois acredito em tudo aquilo que criamos durante estes anos de convivência.

Sobre o futuro? Ele também não me preocupa. Enquanto escrevia estas palavras mal acabadas, notícias de uma possível guerra ecoavam da TV do meu quarto. Não posso me culpar pelo que os outros fazem de suas vidas, muito menos sentar no meio do caminho pensando de que forma isso irá me afetar. Acredito que a mudança do mundo, do nosso mundo, se faz aos poucos, com o esforço coletivo. E a nós, formandos em Ciências da Computação, pessoas que estudaram anos para entender “máquinas”, resta o compromisso de dobrar nossos esforços para entender “pessoas” até o fim de nossas vidas. Esqueçam a sorte, esqueçam a ambição, que o futuro irá se encarregar do resto, com toda certeza...

Aos nosso professores e familiares, nosso carinho e consideração incondicionais. Dizer que esta formatura também pertence a vocês é tentar ser mais óbvio do que a alegria que hoje estamos sentindo. Aos meus bons amigos da Unisantos, parabéns por chegarmos até aqui. Senão por papeladas, nos formamos com responsabilidade, nos formamos com a força da nossa amizade e, principalmente, nos formamos nas lembranças de nossa convivência dentro e fora da faculdade. Se em algum momento de nossas vidas a motivação para seguir em frente faltar, ou se a trilha por caminhos diferentes parecer mais atraente, sejamos corajosos e donos da própria vontade. Mas antes de qualquer precipitação, vamos sempre nos lembrar do que nos levou a escolher esta faculdade como plano de nossas vidas. Vamos nos lembrar da alegria em ter passado no vestibular, e da felicidade ingênua dos primeiros dias de aula. Vamos nos lembrar do espírito de esperança presente nesta formatura, e fazer valer o ideal de que todos os dias sejam como hoje, e que hoje não seja como todos os dias.



Quarta-feira, Março 24, 2004

Os descrentes

Na manhã de 16 de março de 2004, por volta das onze horas, uma nuvem sobrevoava não o mais alto céu, mas se fazia suspensa logo acima do mar da praia do José Menino, em Santos, à altura dos olhos de quem ainda fosse capaz de se admirar.

Surreal, mas palpável. Impossível, mas veraz. Tal nuvem – da qual não consigo precisar o tamanho pelo simples motivo de eu achar impossível calcular área, extensão e volume de algo do gênero “nuvem” – não só desafiou deuses e a ciência, mas encheu-se de vaidade ao descer do céu apenas para que pudéssemos contemplar de perto o que antes era um simples objeto de voyerismo, uma verdade quase abstrata.

Falta-me sapiência para classificá-la um fenômeno metereológico, Falta-me fé para julgá-la milagre de Deus ou trote do Diabo. Mas o que lá estava, com mínima percepção, não poderia ser uma formação de gás químico ou uma névoa qualquer. Era, sim, uma nuvem autêntica, de um branco denso e contornos bem definidos. Feita de algodão ou vapor d’água condensado – variando de acordo com o estado de espírito do espectador – era mais real que a própria realidade, um retrato amplificado (em todos os sentidos) daquelas nuvens que não saem da minha cabeça, vistas quando voei de avião pela primeira vez.

Ainda distante e absorto em meu espanto, tentei dar-lhe alguma forma familiar, como quem possuísse o poder de decifrá-la e assim manter o controle sobre o que não conhece – uma relação, um símbolo, qualquer coisa para saciar um instinto tão primitivo. Em vão. Antes mesmo de começar eu já estava em desvantagem. Ao invés de achar coelhos, corações e personagens animados, tal qual enxergam a maioria das pessoas, minhas nuvens quase sempre se assemelham a punhais, lágrimas e dragões, algo bem mais espirituoso. Esta não se parecia com coisa alguma, era mesmo um enigma. Devia ser apenas nuvem, tão perfeita que beirava o inconcebível, um tipo que só existe nos sonhos dos quais nos esquecemos.

Nuvens são bailarinas de um balé despreocupado, invertebrados que se arrastam suaves, ao acaso. Assumem formas impossíveis, a estética entregue ao caos e à sua teoria. São passatempos dos ventos, que com elas brincam. Encobrem o sol em brasa, suicidas, para então serem derretidas. Artes sazonais, caprichosas, instantes únicos em toda eternidade, que não ficam mais um dia, às vezes nem mais um minuto, para que possamos admirá-las. Mas esta eu quase podia tocar, quase podia sentir o cheiro doce, úmido, no instante em que eu me aproximei, com a água à altura do peito, esticando os braços um tanto acanhado para tentar tocá-la. Tão perto e tão longe. Jamais saberei explicar o medo pueril que me fez voltar para a areia naquele instante. Preferi sentar à beira do mar e apreciar ao longe o espetáculo que não poderia ser apenas meu, pobre plebeu em uma festa.

Passado o choque inicial, ocorreu-me a curiosidade de saber se o deslumbramento que me invadia era coletivo, se estaria sendo compartilhado por todos os que estavam naquela porção de praia ou nas janelas dos prédios da orla em dado instante. Olhei ao redor e voltei novamente minhas atenções para a nuvem, um pouco decepcionado; À minha direita, um vendedor ambulante de cangas também mantinha o olhar vidrado naquela nuvem. Logo atrás, um casal de namorados fazia o mesmo. Ninguém mais. Todos os outros freqüentadores permaneciam imersos em seus universos pessoais, atarefados com suas conversas, corridas, jogos de frescobol, filas para o chuveiro e o carrinho da caipirinha, ou simplesmente sentindo o Sol aquecendo seus corpos. Os únicos que realmente compartilhavam o momento éramos nós quatro, sem trocar uma única palavra, apenas olhares de cumplicidade mútua, representando o conhecimento de que aquilo haveria de ser algo realmente especial, único, e qualquer tentativa de exprimir em palavras era vã. Só fez-se quebrar o silêncio quando o vendedor juntou suas coisas e, pronto para deixar a praia, balbuciou: “Apareceu do nada!”.

E foi assim que algo que eu julgava ser praticamente impossível,  arranhando até mesmo meu pensamento cartesiano, causava uma reação ainda mais impressiva, tamanha apatia generalizada. A nuvem permanecia voando baixo em sua profusão de absurdo, e estava ali apenas para aqueles que se permitiam acreditar. Mas qual o quê, preocupados com seus próprios umbigos ou simplesmente negando o deslumbre diante da impossibilidade dos fatos, os presentes só tomaram a nuvem como objeto de polêmica e atenção quando esta, sem mais nem menos, saiu do mar e invadiu a porção de areia que todos ocupavam.

Ouvi pessoas jurando se tratar de uma nuvem tóxica, obra de gente má. Ouvi queixas sobre a poluição e o tal efeito estufa. Ouvi um homem tentando desmistificar sua beleza, lhe conferindo todo o tipo de explicações banais e absurdas. Mas nada comparado ao espetáculo de maledicências das pessoas que amaldiçoavam seus mitos e sortes por uma nuvem tão inconveniente como aquela ter se postado diante do Sol que as bronzeava. Era o fim de um encanto que nunca existiu.

Dizem que a nuvem ainda choveu, causando um pequeno alvoroço e mais depreciação. Dizem até que da mesma forma que ela surgiu, “do nada”, também desapareceu, sem deixar rastro, repercutindo como uma aberração inexplicavelmente ameaçadora. Mas eu já estava a metros, metros de distância. Na manhã de 16 de março de 2004 eu abandonei a praia do José Menino mais cedo do que gostaria. Antevendo o triste e inevitável fim, deixei minha nuvem a mercê de toda aquela gente e voltei para casa. Para que na memória ela permanecesse eterna, ainda bela. E verdadeira.




Terça-feira, Março 23, 2004

Em tempos de terror, os oportunos e intensos versos de Carlos Machado.

Homem-Bomba

Em que pensa o homem-bomba no exato momento de soltar o pino e estancar o tempo?

Em que pensa o homem-bomba na hora imensa em que o sangue se adensa e todos os sóis, e todos os poros, e todas as luas do universo projetam forças vorazes de gravitação na explosiva nave de seu coração?

Em que veia-cava o medo crava seus tentáculos?

Em qual infinitésimo de segundo a mão trêmula avança para o pino e vence a inércia do ser vivo que deseja permanecer semente, não de idéias, mas de carne viva?



Quinta-feira, Março 18, 2004

Histórias para a hora de dormir

A sensação é inerente ao ser pensante, a atitude é genérica do tolo. Uma pessoa que costuma remoer seus problemas antes de dormir, é mestre em inventar subterfúgios que adiem o máximo possível “aquele momento”, a hora de deitar na cama e se entregar a um sono que nunca chega. Falo com conhecimento de causa, ponto final. Não é uma constância, não é insônia. É algo que merece bem mais que um post para ser explicado, coisas das quais eu nunca vou estar disposto a falar. Um erro intermitente da alma, foda-se.

Primeiro achei que escrever pudesse ser um acalanto para essa inquietação. Além de sossegar o espírito, caçar letras madrugada adentro costuma ser um convite irresistível ao sono. Mas meu sangue é ibérico, meu cacoete é a autodestruição sentimental. Expressar em palavras qualquer resquício de autocomiseração é algo que eu não admito, embora também não seja o meu forte transpirar positivismo e perseverança nos textos que eu escrevo. E isso não pode ser bom. Não em momentos como esse.

Depois pensei que eu poderia muito bem me dedicar a leituras diversas (blogs e livros como preferidos), em doses cavalares, até que os olhos cerrem. Mas pensar demais é perigoso, alimenta indiscriminadamente um monstro que, àquela altura, já está farto e próspero. E não fosse a essência que me agrada... Começou com um livro chamado “Coração de Vidro”, indicado na 6º série, e foi sacramentado com a terrível morte da cadelinha Baleia em “Vidas Secas”. E aí, amigos, não há Veríssimo que faça minha cabeça atualmente. Fui contaminado para sempre com esse masoquismo literário, deixando as comédias (que eu adoro) e temas amenos para todas as outras mídias. Sem contar a, depois de tudo, óbvia aversão por livros de auto-ajuda. No momento leio “Crime e Castigo” enquanto cantam os pássaros.

Eis que, então, eu chego ao motivo que me leva a optar, quase sempre, pela famigerada televisão. Ela, que proporciona um estado de desfalecimento irracional, de irresistível torpor, nem sempre pode ser conotada como algo maligno (tal qual diriam os crentes há alguns anos atrás, antes de ganharem os seus próprios programas de TV). Não neste caso. Esvaziar a mente até que o Pluto – puxando um carrinho de pedreiro e trazendo um chapéu de chinês na cabeça – jogue areia em meus olhos, é uma verdadeira benção. Em dias como estes é tudo o que eu preciso. Até que ontem...

Liguei a televisão no meio da madrugada e cheguei perto de descobrir o limite das alcalinas do controle remoto. Por um triz. Já estava clareando o dia quando começou a ser exibido o documentário que me fez largar o objeto de compulsão sobre a mesa. Era algo sobre os 10 monumentos mais importantes do mundo, no History Channel. Ta certo, a idéia não é das mais originais, mas funcionaria enquanto eu precisasse que funcionasse. Na medida em que eu saciava minha curiosidade, um corpo implorando por sono aguardava apenas os créditos finais. Eficiente como sempre. Ou quase.

Quando o programa abordou a Torre Eiffel, o 2º monumento do ranking montado pelo canal, um repórter foi entrevistar o tataraneto do idealizador, arquiteto, engenheiro e até mestre-de-obras do projeto, Gustave Eiffel. Aqui cabe um adentro: antigamente era comum haver homens que realizavam grandes façanhas praticamente sozinhos, em diversas áreas, característica que perdeu força com a Revolução Industrial. Sobre o rapaz, um jovem advogado beirando os 30 anos, pareceu-me ser alguém que trata como fardo o fato de carregar o sobrenome Eiffel. Seu escritório, propositalmente ou não, localiza-se na própria praça da Torre, e ele vai vivendo seus dias à margem da acachapante edificação de seu tataravô.

Pois bem, em determinado momento, o repórter, com um ar de admiração descartável, perguntou ao francês como é trabalhar com a vista de um legado tão impressionante como a Torre de seu antepassado. Acometido por um raro surto de sinceridade, de uma verdade terrivelmente bela, o homem disparou com olhar triste: —Todas as manhãs, ao chegar neste escritório, eu abro as janelas da minha sala e a Torre pergunta “—E você, vai fazer o quê de sua vida?”.

Desliguei a televisão arrependido por ainda estar acordado. Era tão tarde... A cama, que mesmo àquela altura não estava convidativa ao sono – talvez por ser pequena demais para mim e tantas inquietações – ainda teria de acomodar uma torre só minha.



Segunda-feira, Março 08, 2004

O cara do jornal avisou, "Hoje é o Dia Internacional da Mulher". Dado o ocioso estado em que me encontro, achei ser uma boa vir até aqui, como de praxe, discursar um pouco sobre a relevância de uma data como esta. A praxe se dá porque, ultimamente, só tenho escrito neste blog em datas comemorativas, fenômeno este que possui uma vaga explicação, mas que vocês terão de esperar pela Páscoa para saber (rá, como eu sou engraçado). Não desviando muito do assunto "mulheres" (mas borrado de medo), temo expor detalhadamente minha postura perante o fato, já que uma má interpretação da idéia central poderá gerar polêmica e um certo desconforto por parte das militantes mais ferrenhas. Isso já aconteceu em um post anterior, chamado "Discutindo a discussão da relação". Lembro nesta época ter sido bombardeado com ICQ´s, e-mail´s e comentários pouco elogiosos ou apenas decepcionados com a minha pessoa. Eu não sou machista, sexista, chauvinista ou qualquer outro “ista” com relação às mulheres. Mas se até o diabo possui um advogado, desnecessário de minha parte continuar dando murro em ponta de faca. Tanto é que eu nem vou linkar o post em questão (se você é casca de ferida mesmo, o histórico está à esquerda). Mas hoje estou abrindo uma exceção, e com relação à criação de um dia todo especial para as mulheres, eu, sem um pingo de constrangimento, sou categórico: "Eu acho o Dia Internacional da Mulher um tremendo contra-senso e uma palhaçada inominável". Contra-senso para um mundo que busca igualdade, palhaçada inominável para as mulheres que se julgam suficientes. Eu até poderia me colocar na pele de uma mulher e dizer que, caso fosse uma, não celebraria a data, muito menos mendigaria parabéns dos homens, sob a pena de estar assumindo minha pseudo-minoria (o obscuro auto-preconceito). Diria ser incapaz de lançar mão da minha condição de “ser feminino” para conseguir o meu espaço de “ser humano”, vestindo a camisa do sexo frágil apenas quando me fosse conveniente; Para levar vantagem num mundo onde, por causa desta mesma camisa, teria sido muitas vezes lesada. Também bradaria contra as acéfalas feministas que queimaram sutiãs nas décadas passadas, as mesmas que nunca perceberam que o preconceito inverso causa mais segregação, e hostilizar o que nos aparta é ser uno com o problema. E terminaria mandando o “homem” que criou o Dia Internacional da Mulher enfiar essa esmola no cu!

Mas tudo isso soaria hipócrita de minha parte, ainda mais por eu usar cuecas, não é mesmo? Sendo assim, nada mais justo e honesto que uma mulher diga do que as mulheres devem ser feitas...


O Almoço

(Por Renata Carvalho)

Estava chegando a hora em que seu marido viria para casa almoçar, e então retornaria todos os telefonemas que ela havia atendido, a maioria de acadêmicos chatos e professores de antropologia. Ana então rezaria uma Ave-Maria antes de começar a comer, enquanto ele terminaria de discutir questões profissionais, momentos esses em que ela sentia uma ponta de orgulho por ser casada com homem tão inteligente.

Naturalmente rezaria para si, pois além de não querer atrapalhar o marido, sabia que ele achava que a religião "persistia num contexto de ignorância". Talvez sua lógica de extrema inteligência, aliada à prolixidade, tivesse feito com que Ana se apaixonasse quando ele foi seu professor. Esse mesmo amor a fez escolher o mesmo tema presente na vida dele para sua tese, que, lembra com desconforto, infelizmente não foi aprovada.

Mas quando casaram, ele lhe deu filhos. Ana sempre teve jeito com crianças e sua mãe costumava dizer que ela tinha nascido para isso, até para tentar apaziguar a sensação de imobilidade no tempo, causada pelo rumo que sua vida tomou. E que gerou o comentário maldoso de sua irmã que, se antes a classificava como intelectualóide, agora a considera uma frustrada dona-de-casa. Sabia disso; tinha sensibilidade para sentir essas coisas no ar.

No entanto isso não a atingia, pois conhecia a grande lição que é o movimento da natureza, onde descendência e aliança matrimonial são importantes. Não entendia por que às vezes todos pareciam ser tão intolerantes com ela. A começar pelo marido. Tudo bem que não tivessem casado na igreja, pois na época isso não lhes fazia sentido. Mas ainda queria oficializar a união, e gostaria que ele tivesse respeitado seu desejo inicial de usar alianças, mesmo dizendo que "era um ritual desnecessário para aqueles que conhecem seus papéis sociais".

Muitas vezes Ana se submeteu à sofisticação da vida que ele levava, e reprimiu a sua própria vivência. Através de seus argumentos, ele lhe negava os valores relativos ao amor, à família, à igreja, à humanidade... Tudo era posto em dúvida. Era comum partirem para um bate-boca, que se antes findava com o silêncio em que os dois entravam juntos na penumbra do quarto, agora termina com agressões cada vez mais violentas. Brigam feito cão e gato, e muitas vezes ele virou um selvagem, um não-homem, e a fez se sentir menor do que uma formiga, um inseto. Ele a sacrificava sem piedade.

Dessa vez não teria tempo para rezar antes da refeição, pois precisaria pensar. Pensar sobre como seria a melhor maneira de convencê-lo de que ter um cachorro em casa era quase uma necessidade para as crianças, e aquele que encontraram perdido na rua seria perfeito para alegrar os meninos, muito amigável.

Mas ele provavelmente falaria que ter animais de estimação é uma "atitude primitiva", e que seria o mesmo que comê-los. Ambas as ações são tabus; formas diferentes que o homem tem de lidar com a linguagem. Ela então não vai conseguir não perder a paciência com uma explicação sem nexo para uma questão simples: "Podemos ficar com o cachorro?". Ele dirá que “a zorra do mundo só se resolverá com soluções racionais”, ao que ela, aos berros, vai dizer ironicamente: "Ainda que limitadas". Mas aí ele vai dizer: "O que importa é que sejam as melhores".

Ana já estava antevendo a briga, onde ela provavelmente intercalará gargalhadas com acessos de fúria, onde todo o tipo de insulto virá à tona. E ele, com suas palavrinhas mágicas, a fará desistir de lutar, se retirando da mesa por ter perdido a batalha, com o rosto molhado e vermelho; sentindo-se burra por ter xingado tanto uma pessoa monolítica, sem brechas ou rachaduras, e por ter caído em todas as armadilhas por ele tão ardilosamente armadas.

Sim. Ainda dava tempo de pensar em algo. Dirigiu-se à cozinha onde provavelmente estaria o animal. Talvez fosse melhor não falar nada sobre isso, ainda mais porque o casamento não andava muito bem, isso era óbvio. E de repente, um estalo: ela descobriu o que fazer com o pobre do cachorro.

Foi feliz fazer o almoço.

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Para vocês, mulheres da minha vida ou não, felizes e independentes sejam todos os dias do ano.



Terça-feira, Março 02, 2004

Memórias memórias são

(As luzes se apagam)

É feriado; Uma partida desmotivada; Bexigas para uma festa surpresa; Compulsão quase mórbida por pirulitos; “A Prometida” embalando performances constrangedoras; Mãos imbatíveis em um truco bem jogado; Fumaça de um fogo adolescente, entorpecido, entorpecendo; Alergia e chuva desconhecendo uma trégua; Coldplay para os momentos fáceis; Xixi na varanda e cocô na cozinha; Lágrimas solitárias, apressadas, apertadas; “Fome de quê?”; Cigarros light, marca a gente não diz; Um horrível pijama do Piu-Piu; Novos conceitos se formando, velhos conceitos reforçados; Foto digital; Paintball frustrado; Madrugada ela e eu; Imagem & Ação gerando discórdia generalizada; Brincadeira do copo trazendo o/um fantasma da minha infância; O inesperado pedido de desculpa; Delírios de consumo sobre um Ford GT40, Sexo no chuveiro, sofá e colchonete; Bunda-lelê para o trenzinho; Tráfico na “doçaria”; Vontades reprimidas; Rexona Spray, lança-perfume de pobre; Estórias de espíritos; Lindos presentes inesperados; Sinuca muvucada; Mais lágrimas; Voz e violão; Melhores amigos monopolizando a cozinha; Notícias de casa; “Dinheiro, que dinheiro?”; Distante embriagues, longe Salvador; Músicas para esquecer; Absurdo silêncio; O amor se impondo.

(Interrupção abrupta)

—Ok, nada disso lhes interessa!

(“Fade out”. Corte para outro plano)

É justamente aqui que eu entro com desculpas formais. Não desconheço a banalidade destes fragmentos para um mundo bem maior do que eu suponho; Do que eu me suponho. Tenho a sapiência controversa de ser um tolo evoluído, reconhecendo tais momentos, que falam apenas a doze pessoas, como as sobras de algo muito maior – insignificâncias onde todas as consciências do universo se encontram. Mas há de chegar o dia em que estas pequenas bobagens se tornarão especiais de alguma forma. E eu o que poderia fazer senão isto aqui? Tenho vinte e cinco anos e daqui a outros tantos corro o risco de nem saber mais. Por isso vai lá Vida, embrulhe este rolo de filme em uma caixa de bom tamanho. Nela escreva os dizeres "Viagem com os amigos, Carnaval 2004", e guarde-a em um canto empoeirado qualquer.

(“To be continued”. As luzes se acendem)

Se houver gente por aí que ainda não tenha entendido a necessidade destas palavras, intensidade cabe como uma boa explicação. E se até isso não bastar para que eu seja absolvido, o gran-finale chega à palo seco:

—Eu quero é que este texto torto, feito faca, corte a carne de vocês.



Nenhum animal foi ferido na confecção deste Blog.
- melhor visualizado com os olhos -