Desconstruindo certezas e abraçando dúvidas.


Terça-feira, Abril 20, 2004

Laís, este post é pra você.

Menina, nem sei o que te dizer, porque você tem toda razão em estar chateada. Aliás, até tenho, um amontoado de justificativas que não conseguem ser desculpas (nem mesmo uma única) por não terem como. Mas, como advogada, você sabe que até os maiores pilantras possuem este direito. Então... Aqui está o pilantra.

Quando ontem à noite a Keka me contou sobre o seu comentário neste blog, fiquei pequeno, minúsculo, por tudo o que é mais importante em minha vida. Esta falta de consideração não foi intencional, mas apenas um descaso da minha cabecinha avoada. Acontece que a Patrícia (e você sabe como é a Patrícia), há meses da formatura de vocês já vinha enchendo a cabeça de todos com mil informações, intimações de presença e comentários sobre a festa. No meu entendimento estava bem claro que haveriam duas formaturas em sequência, respectivamente da Patrícia e da Giovanna, tanto que, faltando um mês para o ocorrido, eu simplesmente desconhecia que você também estaria se formando. Pôxa, depois que eu acabei tomando a decisão de não ir (para poupar um dinheiro que nem mesmo existia) e você fez tudo aquilo para que nós estivéssemos presentes, senti um dever de gratidão enorme. Reconheci intensamente que você tomou uma rara atitude, do tipo que poucos teriam, ainda mais por nossa condição de amigos "por tabela". Fiz o melhor juízo de você, levando em consideração uma secreta maneira turrona de selecionar pessoas que valem a pena serem taxadas "legais" (a simpatia e expansividade com todos são apenas um pedacinho do meu show). Tanto que se eu passei parte do meu tempo na mesa em que vocês estavam, não foi por uma clara obrigação de ser teu convidado, mas por gostar de você, da Ceci, gostar muito do Saulo e também do André (mesmo que 90% das conversas se resumam apenas a PlayStation 2 com este aqui).

Ao sentar frente ao computador para escrever o pequeno texto que justifica a aparição do meu próprio discurso de formatura, acredite, não houve relação entre prioridade e importância. Quanto tempo gastei para omitir o seu nome? Três segundos? Infelizmente, e por motivos que eu já expliquei, ficou difícil para meu inconsciente dissociar o fato de que aquela formatura era apenas da Patrícia e não de ambas - um truque da minha mente desastrada na hora de escrever aqueles infelizes parênteses. Além disso existe um hierarquia inconsciente de pessoas que são lembradas antes de outras, podendo variar até por motivos ruins (claro, não é este o caso). Querendo ou não, nossa amiga está muito mais presente "socialmente" em minha vida. Não que isto a torne alguém necessariamente melhor ou merecedora de mais reconhecimentos. Mas isso deve ter pesado no meu auto-engano.

Por fim não acho certo simplesmente corrigir aquele post. Além de hipócrita, eu não estaria sendo honesto com você. Meu erro vai permanecer aqui pra sempre, ou enquanto durar este blog. Mas junto com ele vão estar estas palavras de retratação, que não merecem apenas um e-mail ou um telefonema acanhado, mas, da mesma forma, permanecer e ganhar os olhos de todos os que visitam este lugar cujo dono nem sempre consegue fazer melhor.

Espero sinceramente que minha falta de consideração não diminua aquela que você tem por mim. Por favor, é importante.

Um beijo.



Sexta-feira, Abril 16, 2004

Post simples sobre a filhadaputisse

"E então Deus criou o homem. E o homem criou o blog. O Diabo, lépide e fagueiro, criou servidores para hospedar os blogs dos homens, prometendo que seriam gratuitos até o juízo final. Mas eis que o Diabo demorou mas não tardou. Conhecido por muitos nomes (capeta, tinhoso, veludo, cão, Globo.com, satanás e cramulhão), a maléfica criatura resolveu quebrar a promessa e cobrar dinheiro dos seus incautos e bem intencionados usuários, tudo em nome de sua inesgotável ganância. Pessoas de toda parte perderam o lugar que lhes abrigava "a palavra", e o resto é história. "

Vi, nos últimos meses, diversos blogs amigos mudarem de endereço por causa da asquerosa Globo.com, que resolveu cobrar mensalidade de seus assinantes utilizando a velha estratégia dos traficantes que povoam o imaginário de nossas mães - mas nunca as ruas: "Pode pegar, é de graça!". O marketing tosco da Globo é corporativista como a própria, mas, infelizmente, previsível e inevitável. Foi bem por isso que eu decidi utilizar os serviços do Blogger gringo à época da criação do Cartesiano. Mas como eu adoro o cacoete de otário assumido, não sei porque, na hora de escolher um servidor para hospedar minhas imagens fiquei com o Kit.Net, serviço mancomunado da Globo. Neste caso não perdi o blog, mas ele ficou desta forma, desfigurado, pelado como Adão, o primeiro homem que o Diabo tentou e...

Curioso é que eles próprios enviaram um e-mail esclarecendo que o prazo para eu assinar o serviço ou desistir completamente dele iria até o dia 19 de abril. Vejam aí em cima a data deste post, por favor. Pensei cá com meu botões que o tal e-mail era a prova de que havia ao menos um pingo de dignidade e consideração por parte destes desgraçados. Pensei que teria tempo hábil de procurar um novo servidor para hospedar as minhas imagens e não seria pego desprevenido. Vai nessa... Extirparam todos os arquivos e cancelaram o serviço dias antes, sem a menor satisfação. Meu pai sempre diz que um filho da puta vai até o fim em sua filhadaputisse. Não existe o filho da puta mais ou menos. E enquanto eles mandarem no Brasil a vida não pode ser bela.

Mas, acreditem, isto é fichinha perto do que a UOL fez comigo. Daria um outro post inteiro, ainda mais raivoso e cheio de comiserações. Mas eu já estou muito, muito amargo para uma sexta-feira. Neste exato momento estou pronto para ser ator principal de um próximo filme do Mel Gibson. Juro que estou.



Quarta-feira, Abril 07, 2004

Nesta data querida

A última segunda-feira, 5 de abril, foi o meu aniversário. Neste dia ainda pensei em vir até aqui postar algo festivo, aquela coisa comum a maioria dos donos de blogs, que adoram discursos de autocongratulações em seus respectivos dias. Mas não o fiz. Foram só alguns minutos na frente deste computador para eu perceber que não sou cínico a este ponto, não senhores. Além de eu não digerir muito bem a idéia, tento solucionar, desde sempre, o enigma que é “não me sentir” em meus próprios aniversários. Nunca.

Desde os tempos de criança é assim. Minhas fotos de infância delatam uma feição – aqui deveria haver um adjetivo que eu não consegui encontrar – perante o bolo, as pessoas e as palmas. Era o sintoma de um sentimento que só seria revelado com a chegada da idade do questionamento, quando passei a me perguntar o que alguém necessariamente faz para merecer os parabéns alheios no dia de seu aniversário. Ter existido mais um ano? Hoje, se convido alguns amigos para festejar em um bar ou coisas do tipo, me sinto o convidado de qualquer outra festa justamente por ser um anfitrião desmerecido, sem a plenitude e o orgulho que um aniversariante deve possuir.

Apenas hoje, passados dois dias, eu me sinto menos desconfortável em vir até aqui expressar algumas palavras no tocante desta data. E por mais que eu tente (propositalmente) ser banal, ainda assim, a tarefa é quase Hercúlea. Mesmo me privando de maiores reflexões, mesmo eu não sendo mais alvo de sentimentos metralhados ao meu redor, ainda assim isto aqui é apenas um post de aniversário tardio onde o aniversariante não sabe muito bem o que dizer. Hoje ele desaprendeu a escrever. Não é algo relacionado à técnica e todos os segredos que iludem leitores sempre bem intencionados. Também não se pode culpar o feeling. É tudo sobre não ter um “por quê” e, mesmo assim, insistir de forma estúpida em abrir o coração.

Segunda-feira eu completei minha vigésima sexta volta ao redor do Sol, contando a partir do ano zero de meu próprio calendário. De forma prática, é apenas isto. Um ano a mais representando um ano a menos para ser pleno. Dia 5 de abril eu não fui e nem ao menos tentei ser pleno. Acordei com vontade de ser nada. Entendam bem, não que eu quisesse fazer nada. Eu queria “ser” nada. E não é nada fácil ser nada. Se eu ficar horas parado na praia, pensando, serei um cara parado na praia, pensando. Não era isso o que eu queria. Ficaria feliz em apenas compreender que não se pode ser tudo. Faltará tempo, o incontestável fato atestado por nossos aniversários. Mas eu vou sempre além, e no marco vinte e seis da minha vida eu quero ser nada.

Devo ser como o coelho de “Alice No País Das Maravilhas”, que comemora 364 “desaniverários” ao ano, sua vida enfim, e se abstinha de festejos o dia em que ficava mais velho para as estatísticas. E eu que sou um cara legal, com níveis normais de serotonina e intolerante com a autopiedade, fico acanhado apenas ao tentar explicar a heresia que é não encontrar motivos para se comemorar um aniversário. Mãe e o resto da família, namorada, amigos... Não há como decepcionar todas estas pessoas e dizer que o dia 5 de abril é uma data absolutamente normal, e que não há nada especial nela além do simples fato de agrupar meus dias em anos vividos.

Na verdade as comemorações deste ano ficaram acima de quaisquer expectativas. Eu só queria mandar para o inferno uma parte de mim muito egoísta, que debandou e não vê motivo para a parte restante se sentir tão feliz quanto estava em seu fim-de-semana cheio de ligações, pretextos para reunir os amigos, presentes e demonstrações de amor. Este Fabio que escreve tudo isto e continua querendo ser nada, quando na verdade encobre, teimoso, os meios e o desejo de querer ser o outro.



Nenhum animal foi ferido na confecção deste Blog.
- melhor visualizado com os olhos -