Desconstruindo certezas e abraçando dúvidas.


Quinta-feira, Julho 29, 2004

Já que o valioso ócio criativo não deu as caras nos últimos dias (mais no tocante da criatividade do que do ócio propriamente dito), em tempo posto por aqui o poema que mais gosto, sem equiparação de qualquer outro.  Assim como Garcia Marquez se perguntou "E pode?", ao ler o primeiro parágrafo do livro "A Metamorfose", de Kafka, das tantas canastrices por mim já escritas como pretensas poesias, há muita inspiração nestas palavras de Murilo Mendes. Antes dele, não sabia que era possível ir tão distante com tanta simplicidade. "Mapa" segue lindo, vertiginoso e sempre.

 
Mapa
(Murilo Mendes)

Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado.
Estou limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens "práticos"...
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito...
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.




Quarta-feira, Julho 14, 2004

Das vezes que eu chorei

Um dos personagens mais enigmáticos e controversos do clássico livro/filme “2001: Uma Odisséia no Espaço” é HAL 9000, um supercomputador criado com as mais avançadas técnicas de Inteligência Artificial e capaz de tomar atitudes próprias sem intervenção humana. Na história, HAL é um protagonista ativo, porém imóvel, travando diálogos intensos com a tripulação de uma nave em missão a Júpiter. Era dele as tarefas de controlar oxigênio, combustível, comunicação, navegação e outras particularidades de uma missão espacial. Porém, algo escapa de seu controle, e HAL comete um erro gravíssimo ao se equivocar na constatação de uma possível falha em um dos componentes da nave. Desesperado ao conhecer sua própria falibilidade e temendo pela notoriedade de seu erro, HAL dizima quase a totalidade dos tripulantes, restando ao astronauta Dave Bowman, o único sobrevivente, desligar o computador enquanto assiste a este implorar por sua vida com o linguajar de uma criança de três anos de idade.

...


“Das lágrimas dela fizeram-se as minhas”


Sábado eu chorei. E eu nem ao menos consigo lembrar da última vez em que havia chorado daquele jeito. Aliás, eu quase nunca choro. Não é uma escolha consciente, algo que faça baseado em obsolescências tais quais “homem não chora” e outros tabus culturais. A eles eu não estaria imune mesmo com este sangue Ibérico; A alma é latina por adoção. Contudo, eu dispenso tal herança como explicação. Fato é, sou avesso ao choro, e seria difícil buscar uma explicação lógica para uma matéria tipicamente emocional, ainda que chorar seja apenas um comportamento, não uma emoção com fim nela mesma.

Fazendo uma pequena pesquisa na Internet, aprendi que nem mesmo a ciência consegue decifrar por completo todos os mecanismos que desencadeiam o choro. Sabe-se por certo que é apenas mais uma modalidade do conjunto comportamental da comunicação, tal como rir, gritar, arquear as sobrancelhas e outras demonstrações de nosso estado de espírito. Chorar é a manifestação máxima de uma emoção. Se quando sorrimos para alguém desejamos demonstrar a empatia que dispensa palavras, o simples ato de se debulhar em lágrimas pode gerar compaixão, compreensão e proteção quando feito de forma solidária. Por outro lado, suspeita-se que o choro seja um simples modelo aprendido: se a emoção é avessa da razão – e uma criança chora com mais frequência por deixar o raciocínio lógico em segundo plano – quando as circunstâncias que envolvem este modelo se repetem, o cérebro enviaria a ordem para chorar e o mecanismo se ativaria sempre que necessário, até o fim da vida.

Na prática todas estas informações coletadas não mudam coisa alguma. Um psicólogo diria que chorar faz bem, alivia a angústia e libera a tensão e isso também é o óbvio dispensável. Eu só tentei traçar um paralelo da poucas vezes em que chorei e para isso eram necessários parâmetros. E porque tamanha agonia deste fanfarrão endurecido? Ora vejam só, além de não encontrar tal relação, nesta mesma pesquisa havia a informação de que, ao longo da vida, o homem chora cerca de 250 mil vezes. Porra! Fiz um pequeno levantamento e percebi que desde que adentrei a fase adulta, ou mesmo contando a partir da pré-adolescência, não devo ter chorado mais de vinte vezes (excluindo aqueles motivados por dor, como os tempos da maldita hérnia de disco). Conquanto minha vida não se transforme num inferno terrestre, e se as aulas de estatística do terceiro ano de faculdade não me falham, eu não devo cumprir tal meta nem que eu viva 250 mil anos. Sobra a dúvida: chorar com tanta freqüência é mesmo necessário? É claro que este número pode ser um exagero, e provavelmente é uma média baseada em amostragem onde existem aquelas pessoas que possuem mais ou menos motivos para chorar conforme suas vidas se desenvolvem. Contudo, abaixo os discursos auto-piedosos, eu até vivencio certas angústias que mereceriam algumas lágrimas. O adjetivo “emotivo” ainda me cabe e, ainda assim, eu continuo chorando com a mesma freqüência dos eclipses solares.

Certamente há os casos óbvios de lágrimas fáceis das quais nem o mais bruto estaria imune: A morte de minha irmã neném, a vez em que assisti sentado na beira da cama o meu pai fazer as malas para sair de casa, a perda do segundo melhor pai que eu jamais sonharia em ter... Situações fodidas onde a vida nos aponta o dedo austeramente, mostrando que não temos qualquer controle sobre ela. Chorei ainda pelas perdas de absolutamente todos os animais de estimação que tive – por coincidência incrível ou uma crueldade dos deuses, não houve um único que não tenha morrido “em meus braços”. Mas todos estes exemplos quase não entram em contexto por eu ser criança demais nas respectivas ocasiões.

Todavia, enquanto escrevia este texto, lembrei uma de minhas típicas e raras crises de choro do qual fui acometido. A história remete à uma senhora do meu prédio a quem todos tratavam por Dona Conceição. Era destas velhinhas simpáticas, amiga da minha avó desde os tempos do Guaraná com rolha. A verdade é que ela gostava tanto de mim que não passava um aniversário ou Natal sequer que ela não subisse os três lances de escada que separam nossos apartamentos para me dar um presente, mesmo que geralmente fossem meias ou cuecas (muito para sua aposentadoria). No fim da vida, coitada, tomada por uma osteoporose braba, mal conseguia andar, e era eu quem descia os três lances de escada para receber o presente que nunca haveria de faltar. Eis um dia faltou. Ela morreu e a notícia me foi dada quando cheguei do trabalho. Nenhum choro de minha parte, apenas uma tristeza melancólica. Da mesma forma aconteceu no velório. Creio que nunca havia segurado as mãos de uma pessoa morta... Não daquela forma. E olhado fixamente para um rosto sereno que nunca haveria de acordar... Não daquela forma. Entrei no carro preocupado. Já estava tarde e eu teria de acordar às 5:40 da manhã para mais um dia de trabalho. Qual o quê, fechando o portão da garagem, desatei num choro descontrolado. Não pense você que foi a tristeza pela sua morte, muito menos me tenha por insensível com tal informação. Na verdade fui invadido por um sentimento doído, como se o último vínculo que eu tinha com minha infância estivesse para ser enterrado em poucas horas; Como se tudo que eu fui e sou estivesse com um prazo de validade etiquetado em um idioma por mim incompreensível. Chorei por antecipação todas as mortes de pessoas importantes em minha vida que – eu sei – não terão de mim a atenção merecida em vida. A velha Conceição foi uma delas. Chorei tanto que até fiquei com medo – por ser algo absolutamente raro eu simplesmente não consigo lidar com estas coisas.

Outros casos estão aqui mesmo, neste blog (se você é curioso, dê uma passeada pelo histórico). Nele já citei duas raras situações onde as lágrimas me venceram, e a conclusão que eu posso tirar entre todas elas é a seguinte: Eu choro quando não consigo mais racionalizar a minha dor, seja por insuficiência da própria razão, seja por entregar as armas cansado demais para lutar com esta minha teimosia. Toda tristeza que me acomete acaba passando por um processo inconsciente de assimilação, onde absorvo qualquer sofrimento para depois destilar a vontade de chorar lentamente, até que esta se esgote. Muito das minhas dores acabo parcelando em textos, conversas interiores e outros escapismos. Se a coisa toda for muito bem capitalizada, o choro se perde no limbo das tristezas (uau!). O resto é liberado em lágrimas, raras, mas explosivas – são os dividendos de uma conta que nunca poderia ser exata. E é justamente por isso que eu possuo crises de choro. Crises! Não é algo que eu consiga pressentir como a grande maioria. As pessoas dificilmente me vêem embargando a voz ou lacrimejando os olhos discretamente. A vontade de chorar praticamente inexiste porque eu já estarei chorando por certo. E isso deve ser um reflexo de como eu lido com tais situações e que papel o ato de chorar exerce sobre elas. Se eu não consigo racionalizar algo, eu choro.

Tal comportamento chega como uma espécie de “tilt emocional” semelhante àquele o qual o computador HAL de “2001” fora submetido quando a razão não lhe foi suficiente. Eu sei, chega a ser um contra-senso (ou a maior das ironias) tecer uma comparação direta entre mim e uma máquina livre de emoções. Mas não podemos esquecer que o robô da obra de Arthur C. Clarke é baseado em um modelo comportamental humano pseudo-perfeito, onde o único erro era justamente não estar preparado para errar. Quando isto aconteceu, ele entrou em pane. Talvez se em seu algoritmo houvesse uma saída, uma escolha onde ele pudesse chorar, as barbaridades que o condenaram não teriam ocorrido.

Pensei em terminar este texto com seguinte frase: “Preciso chorar mais”. Contudo, além soar piegas, isto não deve ser algo que se trace como meta. Sábado eu chorei porque, dentre as milhões de palavras existentes do mundo, eu não fui capaz de encontrar uma sequer que pudesse lhe servir de consolo. Eu que sempre esperto, com tantas verdades e discursos lógicos, não construí argumentos convincentes o suficiente para impedi-la de dizer certas coisas sobre ela mesma. A razão não haveria de vencer naquela noite; Estive perdido assim como ela também esteve, e dividimos nossas lágrimas com cumplicidade. Há de ser bom, de alguma forma, saber que chorar pode ser uma resposta válida para questões aparentemente sem alternativas. E sendo assim aceito com um certo alívio o fato de que absolutamente nada está sob o meu controle, seja essa coisa uma nave espacial ou uma namorada.


Post Scriptum:

1- A imagem lá em cima, forjada com os mesmos traços de Picasso, podem ser feitas no site Mr. Picassohead, dica igualmente forjada do blog do meu comparsa Capt. Dimitri Moloko.

2- Se você ainda não assistiu ao filme “2001: Uma Odisséia no Espaço”, assista. Se já assistiu mas não entendeu, assista.




Nenhum animal foi ferido na confecção deste Blog.
- melhor visualizado com os olhos -