Desconstruindo certezas e abraçando dúvidas.


Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005

Eu te amo

Geralmente é madrugada, quando me aproveito do óbvio silêncio dos televisores, avós e mães. Enclausuro-me neste quartinho abafado – e protetor da vida que eu tenho medo de levar – e expurgo pensamentos lacônicos para que a minha verve inspirada me transforme naquele que tudo pode com as palavras. Ou pensa que pode. Na verdade, sempre me senti capaz de abordar praticamente todos os assuntos imagináveis, porém, por mais que eu me esforce, por mais que eu invente subterfúgios na tentativa de burlar os dogmas que me fazem ser um cara chato quando o assunto é falar de amor, eu simplesmente não consigo um texto, aquele texto, que fale sobre você e sobre nós. Não da forma como eu gostaria. Tentativas não faltaram nestes (hoje) três anos de namoro, até por suas razoáveis cobranças das quais já nem lembro as desculpas por mim utilizadas para evadi-las. Certa festa, certo telefonema, certo dia... Você nunca leu o que eu também nunca terminei. Seria fácil eu dizer que você está em cada palavra de cada texto por mim escrito desde que nos conhecemos (de uma forma ou de outra, é inevitável para alguém que utiliza o próprio sentimentalismo como ferramenta criativa), mas concordo que tal desculpa soa cômoda e desmerecida.

Em partes eu culpo a reserva que carrego em ser trivial demais, fato corroborado por esta minha aversão ferrenha à cafonice explícita – e perdoem-me aqueles que consideram este artifício necessário ou simplesmente válido para se falar de amor... Vocês são preguiçosos ou, na pior das hipóteses, limitados. Talvez eu seja um destes limitados, do tipo que não entrega os pontos e não faz do coração uma casa de putas; Eu refuso aceitar caminhos tão simples para lugares tão remotos. Escrever desta forma tornaria qualquer tentativa de honestidade em palidez textualizada, palavras costuradas de forma lógica e fria. O amor se tornou algo tão fácil e leviano que muitos nem percebem que, na companhia de multidões bitoladas, estão gravitando em torno de um mesmo círculo vicioso. Não sei se o meu amor é mais ou é menos que isso. Mas com certeza, não é isso.

Há ainda outros “poréns”. É inegável que nada disso seria uma barreira intransponível para que eu escrevesse sobre amor caso as minhas mais iluminadas inspirações não fossem provenientes das dores. O desamor (tema preferido entre os malditos feitores de boa arte, quaisquer que sejam) não combina conosco por motivos óbvios, e o resto do pacote, então, nem se fala... São monstros absolutamente incompatíveis quando lhe tenho por assunto. Além disso, não que eu dependa delas para minhas ficções, egotrips ou meu “jornalismo roubado”, muito menos esteja falando das dores mais dores: aquelas que quando embaralhadas nos reduzem ao saco de pancadas que arrastamos vida afora. Você me conhece e sabe que eu não sou destes frustrados (e frustrantes) obsessivos que adoram um motivo para cultivar a autocomiseração e fazer com que o mundo os tenha pena por uma simples troca de palavras. Acredito que escrever sobre elas não é algo poético e elevado, mas algo que me remete a vivê-las novamente, e vivê-las novamente traz um acometimento de compaixão imbecil por mim mesmo, enfim. Por assim dizer, numa tentativa patética de não mais vasculhar os entremeios e pontos de todas as marcas que a vida nos dá sem direito de recusas, socorro a mim mesmo buscando conforto nas desconfortáveis e rudimentares muletas emocionais (como sempre gostei de chamar esta minha inclinação) que arrumei para me manter são. E acendo mais um cigarro, e jogo um pouco de videogame, e escuto outra música que ninguém conhece.

E tem o meu cinismo. Diga-me, Deus do céu, como é possível falar de amor sendo tão cínico quando ele próprio já o é suficientemente. Olhando por este viés é realmente muito difícil ser um romântico competente no jogo de palavras, daqueles que sem qualquer cerimônia largam o barroco e partem de vez para o classicismo. Quando procuro me expressar francamente, sem entrelinhas ou técnicas subliminares para disfarçar minha sentimentalidade empacada, acabo criando um grande conflito interno entre o tal cinismo e a vontade de ser uma pessoa mais acessível emocionalmente (tudo parte do grande plano de me tornar uma pessoa melhor). Por isso o ato de escrever, quase sempre tão prazeroso e por vezes catártico, aparece-me hoje como nudez indesejada, uma obrigação arbitrária e ainda assim irresistível.

Contudo, aqui estou. Teimoso apenas para reforçar tudo o que só nós dois sabemos. Que o nosso namoro já passou por provações como dúvida, doença, falta de dinheiro e gente má... E vencemos (a gente come o pão que o diabo amassou, mas na chapa e com manteiga!). Para dizer que você me completa sem suspeitar o quanto, se contrapondo à minha lógica cartesiana, teimosa e pragmática, balanceando meu ceticismo tristonho com sua habilidade involuntária em criar pequeníssimas e preciosas felicidades biodegradáveis a cada segundo. Para dizer que eu invejo miseravelmente essa coragem em se doar integralmente para alguém da forma como você é capaz. E finalmente, para dizer que você, Keka, estará nos meus planos enquanto eu os tiver, aqui ou em qualquer lugar, e que estes planos (apenas um palpite) serão abraçados por toda sorte que ainda não tivemos além do fato de termos nos encontrado.

Muito ainda haveria de ser dito, mas é realmente deveras complicado fugir das minhas próprias limitações e armadilhas idiotas (eu, idiota) a ponto de continuar por linhas e mais linhas da forma como você mereceria. Percebe? Aquele cinismo está por toda parte, num texto que, apesar de lhe ter como motivo, minha inabilidade transformou em uma avalanche de justificativas contornando mais um auto-retrato meu (solução besta, besta...); Palavras que eram para ser escritas destilando o gozo e a alegria de lhe ter ao meu lado, só encontraram bizarra motivação na falta que você me faria; E a missão de sentar frente este computador e encontrar uma única maneira para falar de amor que ainda não houvesse sido usada ou escrita caiu por terra no momento em que eu mal começava... Eu tinha mesmo todas as linhas do mundo para assim o fazer sem me dar conta que o título que abraça cada uma destas palavras já havia dito tudo.



Nenhum animal foi ferido na confecção deste Blog.
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